Capítulo 23: O Cadáver Ressecado
Alice pensou:
Que sorte a minha.
Ao analisar a folha, as bordas coincidiam perfeitamente com a parte rasgada da terceira página do caderno amarelado que ela encontrara.
— Então foi você quem escondeu isso, garoto.
Alice lançou um olhar enigmático para o menino que desenhava círculos no chão e voltou sua atenção para o pergaminho. Ali estavam descritos o
【Método do Sacrifício de Sangue】
e o
【Segredo do Sacrifício de Almas】
.
【Método do Sacrifício de Sangue】:
Para obter o fragmento da Madeira do Deus da Montanha escondido pelo Açougueiro Marcos, é necessário levar um frango vivo ao seu quintal à meia-noite. Mate o animal e derrame o sangue na soleira da porta. O açougueiro é fascinado por sangue; ao vê-lo, ficará satisfeito e poderá permitir sua entrada.
Nota: Use sangue de ave, não humano. Se usar sangue humano, o açougueiro entrará em fúria e devorará sua carne.
【Segredo do Sacrifício de Almas】:
O filho da Viúva Lúcia morreu precocemente, mas sua alma não se dissipou e chora todas as noites. Se encontrar o brinquedo favorito da criança — um tigre de pano desbotado — e devolvê-lo à viúva, poderá trocar pelo fragmento. Mas atenção: se disser uma única palavra errada ao entregar, o rancor da viúva explodirá e ela tomará sua alma para substituir a do filho.
Pelo visto, os fragmentos eram a chave. Alice virou a página e encontrou a condição de vitória que tanto esperava:
【Condição de Vitória: Em 24 horas, encontre os 3 fragmentos da Madeira do Deus da Montanha escondidos nas casas dos aldeões. À meia-noite do último dia, encaixe os fragmentos na "Estela do Deus da Montanha" na entrada da aldeia para ativar o portal de transporte.】
【Horário Atual: 06:50】
【Tempo Restante: 18 horas e 10 minutos】
【Jogadores Vivos: 6/6】
【Fragmentos Coletados: 0/3】
Três fragmentos? Alice lembrou-se dos três moradores citados no caderno; os itens deviam estar com eles. Enquanto refletia, Vitor chegou apressado e pálido.
— Lara, aconteceu uma tragédia.
Atrás dele vinham os outros três, todos com semblantes péssimos. Faltava apenas Clara.
— O que foi? Alguma entidade veio me pedir aulas de dança de novo? — Alice bocejou. Acordar cedo não era o seu forte.
— Não é hora de piada! — Vitor exclamou em pânico. — É a Clara. Ela morreu.
Alice semicerrou os olhos. Então a pessoa que ela vira na
Precognição
aceitando o lenço era a Clara. O aviso de "não aceitar nada dos NPCs" entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Para não parecer suspeita, Alice mudou sua expressão de tédio para um choque fingido.
Arregalou os olhos e soltou um "Ah!" de incredulidade: — Quando? Como aconteceu?
Marcos, tentando manter a compostura, respondeu: — Não sabemos. Quando acordamos, ela não saía do quarto. Chamamos e ela não respondeu. Tivemos que arrombar a porta e, quando entramos, ela já...
— Já o quê? — Alice continuou o papel de desinformada.
— Tinha se tornado um cadáver ressecado — disse Marcos, baixando a cabeça com pesar.
Todos lamentaram a morte bizarra de Clara. Mas essa era a crueldade do jogo; quem entrava deveria estar preparado para morrer a qualquer momento.
Sara acrescentou: — O sangue e toda a umidade do corpo dela foram sugados, não sobrou uma gota. Ela parece uma múmia. E... o lenço dela sumiu.
Eles suspeitavam que o desaparecimento do lenço fosse a causa da morte.
— Vou dar uma olhada — disse Alice, caminhando para o quarto de Clara. Mesmo sabendo a causa, precisava checar se havia sobrado algum item útil.
A porta estava entreaberta. No leito, jazia o corpo murcho. A pele estava colada aos ossos, os olhos fundos — sendo que um globo ocular desaparecera, deixando um buraco vazio. Sem gordura no pescoço, a marca da pressão do lenço era nítida. O detalhe mais estranho: os cantos da boca estavam puxados para cima.
Ela estava sorrindo! Alice analisou o cadáver por um tempo. Aquele sorriso parecia genuíno.
— Ela teve alucinações maravilhosas antes de morrer — afirmou Alice. — É o efeito da Maldição Corrosora de Almas, mas uma versão muito mais avançada do que a da Regra 3; um feitiço capaz de drenar a alma e a vitalidade.
Lucas perguntou, confuso: — Como você sabe disso?
Alice levantou-se e apontou para a cadeira ao lado da cama: — Ela me contou.
Todos olharam para onde ela apontava. Sobre a cadeira, flutuavam legendas vermelhas que confirmavam exatamente o que Alice acabara de dizer. Tratava-se do sistema de jogo, que raramente errava. Todos acreditaram piamente que a maldição fora a causa.
Exceto Vitor.
Ele notou algo sutil: as legendas só apareceram
depois
que Alice terminou de falar, não antes. Por que o tempo era tão perfeito? Parecia feito sob medida para afastar qualquer suspeita sobre ela. Como amigo, ele não a desmentiu, mas guardou a dúvida para si.
— Sinto que eles usaram a morte da Clara para nos dar um aviso — comentou Sara cautelosamente.
Lucas franziu a testa: — Aviso sobre o quê?
Vitor teve um estalo: — Será que é porque não bebemos a água do vovô ontem? Porque achamos um "jeitinho"?
— Você quer dizer que é um aviso para não desafiarmos as regras?
Vitor assentiu. Pelo menos, na cabeça dele, ninguém morria sem motivo no jogo. Todos se entreolharam, percebendo que o perigo que achavam ter evitado ainda os rondava. Eles não notaram, porém, o sorriso discreto de Alice.
Um aviso? Quanto mais tentavam intimidá-la, mais ela queria desafiar o sistema. Alice ignorou o clima pesado e saiu do quarto.
— Lavem o rosto. Vamos tomar café e buscar os fragmentos. Só temos 18 horas.
— O que você quer dizer com isso? — Marcos estava perdido. Buscar fragmentos? — Lara, explica isso direito!
Assim que saíram, a névoa começou a se dissipar. Sem a cortina branca, os aldeões que esperavam escondidos começaram a surgir um a um, com seus sorrisos amarelos e artificiais. Ao vê-los, Marcos engoliu as palavras que ia dizer.
Ninguém respondeu. Todos observavam os aldeões se organizarem em duas fileiras, abrindo caminho no centro. O idoso do início apareceu segurando uma bandeja de madeira com cinco tigelas, caminhando lentamente em direção aos jogadores.
— O café da manhã chegou.