Capítulo 22: Show de Entretenimento
"Estiloso é a sua cabeça!"
A névoa de sangue ao redor da Névoa Sinistra começou a ficar instável, com as bordas apresentando sinais de fragmentação. A entidade não conseguia entender para onde foram o medo e os gritos daquela humana. Aquilo não era, de forma alguma, o que ela queria ver.
Alice, observando a confusão crescente no vapor rubro, bateu palmas como se tivesse tido uma epifania: — Ah, entendi! Você não sabe mudar de rosto, né? Vem cá, eu te ensino.
Então, ela limpou a garganta com um tom teatral, fingindo preparar a voz.
— Você tem que imaginar que possui um rosto. Repita comigo: "Eu... tenho... rosto..."
Naquele momento, a Névoa Sinistra sentiu que sua língua nativa era o silêncio da perplexidade. Não havia nada mais an-normal no mundo do que Alice!
— Não quer repetir? Tudo bem, eu mudo o tema — Alice mudou de postura rapidamente e continuou: — Você já viu
O Grito
? Sabe fazer a cara da Kayako? Aquele som de "croc-croc-croc" combinado com um rosto pálido de dar medo...
Enquanto falava, ela começou a imitar o rastejar da Kayako. Com movimentos exagerados, quem visse de fora pensaria que era uma criança de jardim de infância encenando uma peça de teatro. A figura de névoa ficou estática; a boca rasgada abria e fechava, mas não emitia som algum.
Sim, ela estava imitando a Kayako. E pior: a imitação era terrível, um completo desastre. A Névoa Sinistra sentiu sua dignidade ser pisoteada e esmagada.
"O que eu faço agora? Devo comê-la? Mas ela parece tão ansiosa para ser devorada...", pensou a entidade. Ela não conseguia decidir se atacava ou não. Se a comesse, estaria realizando o desejo de uma humana que nem a respeitava; e ela não podia aceitar isso. Se não a comesse, não suportaria ver Alice agindo daquela forma abusada.
Enquanto o monstro sofria com o dilema, Alice se divertia rastejando pelo chão. Ela parou após dois passos e perguntou: — Por que você não ri? Não foi engraçado?
— Então vou tentar outra: a Sadako de
O Chamado
, aquela que sai de dentro da TV...
Ela levantou-se com naturalidade e fingiu sair de uma televisão inexistente sobre a mesa, fazendo a sonoplastia com a boca: —
Nhéééc... Nhéééc...
A Névoa Sinistra não aguentou mais e começou a flutuar apressadamente em direção à porta. O alvo daquela noite era problemático demais. Precisava ir embora.
— Ei, não vá! — Alice saltou e bloqueou o caminho. — O show principal nem começou! Eu violei a regra, você não deveria me arrastar para a névoa, roer minha carne e engolir minha alma? Vamos, estou pronta.
Ela abriu os braços e fechou os olhos, em uma pose de total entrega. A Névoa Sinistra parou; não via naquela mulher nem um pingo de instinto de sobrevivência. Parecia que ela queria morrer a qualquer custo.
— Rápido! — Alice abriu uma fresta do olho e apressou o monstro. — Vou contar até três. Se não fizer nada, vou considerar que você desistiu. Um... dois...
A Névoa Sinistra a ignorou, recuou bruscamente contra a parede e ricocheteou de volta.
— Dois e meio... — ela contou devagar, dando tempo suficiente ao adversário.
De repente, a névoa rubra ao redor da criatura explodiu em volume e a boca se abriu ao limite máximo, soltando um grito estridente.
— SCRAAAAAAAHHHHH!!!
Era o Grito de Terror da Névoa Sinistra, capaz de mergulhar humanos em alucinações profundas de pavor. Alice, porém, permaneceu ilesa e começou a limpar o ouvido: — O som foi alto, mas o tom está desafinado. Quer tentar um canto lírico? Eu fiz aulas de canto na faculdade, posso te ensinar.
O grito cessou abruptamente. Naquele momento, a entidade não queria ficar ali nem mais um segundo. A figura de névoa entrou em colapso e começou a se dissipar em fios de fumaça pelos cantos.
Alice fez uma expressão de lamento: — Já vai? Eu nem mostrei meu número especial: comer maçã plantando bananeira. Quer ver?
A Névoa Sinistra não respondeu; o último rastro de fumaça escapou pela fresta da porta em uma velocidade de fuga. Assim que ela saiu, o quarto voltou ao silêncio. Alice aproximou-se da porta e sussurrou para a fresta: — Volta amanhã à noite? Vou preparar um show de talentos. Podemos fazer um baile de confraternização entre monstros e humanos, que tal?
Ao terminar a frase, ouviu-se o som de algo tropeçando do lado de fora, seguido pelo barulho de uma névoa fugindo em pânico. Pelo visto, a criatura ficara aterrorizada.
Alice voltou para a cama, puxou a coberta e viu que o boneco de pano continuava simulando a respiração. Ela montara um mecanismo simples com fios que movia o peito do falso corpo ao puxar o cobertor.
— Que sem graça. Eu ainda queria brincar mais um pouco.
Ela deitou-se, empurrou o boneco para o canto da parede e ocupou a maior parte da cama. Antes de dormir, olhou o relógio: 00:07. Ou seja, a Névoa Sinistra não aguentou nem dez minutos antes de fugir de raiva. — As entidades deste cenário têm o psicológico muito fraco — resmungou antes de apagar.
Na manhã seguinte.
O dia mal havia amanhecido e o som de galos cantando cercava a cabana. Alguém bateu à porta; era o menino que brincava com cabelos no dia anterior. Com uma voz doce, ele disse: — Mana, seu lenço caiu.
Para provar que dizia a verdade, o menino ergueu o lenço verde com um olhar inocente. Alice olhou para a mesa e viu que o lenço realmente sumira. Poderia ter caído no caminho de volta na noite anterior. Sem suspeitar, ela abriu a porta e pegou o objeto.
— Mana, quero ver como você fica de lenço. Vai ficar uma beleza ou uma dama elegante?
— Está bem.
Lisonjeada pelo elogio, ela colocou o lenço. No instante em que o tecido tocou sua cabeça, ele apertou-se violentamente, cravando-se em sua pele. Por mais que tentasse puxar, ele não saía. O lenço transformara-se em um ser vivo e começara a sugar seu sangue freneticamente...
Alice estava sentada na cama, encarando a porta com um olhar vago. Sim, ela tivera uma
Precognição
de alguém morrendo após aceitar o lenço do menino. Ela não sabia quem era a vítima, pois a visão fora em primeira pessoa.
Faltavam trinta minutos para o período de caça e menos de vinte e quatro horas para o fim do jogo. Ela sentia que certas entidades iriam iniciar um massacre hoje. Se todos sobrevivessem, seria um milagre estatístico.
Alice espreguiçou-se e saiu da cabana. O menino estava sentado nos degraus de sua porta. Ao vê-la, ele sorriu radiante: — Bom dia, visitante!
— Bom dia.
— Você foi a primeira a sair, então tome isto como recompensa. — O menino tirou do peito uma página amarelada e entregou a Alice.