Capítulo 17: Honra não Enche Barriga
Após a explicação de Alice, todos tiveram um estalo de compreensão.
— Parece que é verdade mesmo — concordou Clara.
Se todas as regras aparecessem de uma vez, eles teriam a chance de evitá-las, mas como surgiam em intervalos, era impossível prever qual seria o próximo tabu. Se alguém violasse uma regra que ainda não havia sido anunciada, morreria sem nem saber o porquê.
"Cruel! Isso é muito cruel!", pensou Sara. Ela percebeu que precisariam ser muito mais cautelosos do que antes; qualquer descuido mínimo poderia significar cair em uma armadilha desconhecida.
Alice enfiou as mãos nos bolsos, tateando secretamente o caderno que encontrara.
Humanos de dia, cadáveres à noite
. Ela se perguntou se isso significava que os moradores eram normais durante o dia e se transformavam em entidades ao anoitecer. Se fosse esse o caso, o número de inimigos seria absurdo. Pelo que viram ao entrar, a aldeia tinha pelo menos vinte ou trinta casas; se todos virassem monstros à noite, sobreviver até o amanhecer seria um milagre.
Mas que tipo de "cadáveres" seriam? Zumbis? Corpos secos? Ou algo pior? Alice balançou a cabeça negativamente; não importava o tipo, ela descobriria assim que escurecesse.
Ao lado dela, Lucas apontou trêmulo para o lado leste da aldeia: — Quando o sino tocou, eu saí e vi algo por ali.
Seguindo a direção do dedo dele, através da névoa, o grupo vislumbrou uma construção muito mais alta que as outras. Mesmo de longe, a aura sombria que emanava daquele lugar era palpável. Devido à neblina, eles conseguiam ver apenas as pontas de telhado curvadas como chifres de dragão, mas não a estrutura completa.
— Vamos lá dar uma olhada?
— Vamos — disse Alice com indiferença. — Melhor do que ficar aqui parado esperando a morte.
Ficar de braços cruzados nunca foi o estilo dela. Na verdade, ela estava curiosa para ver que tipo de horror o santuário escondia. Sem se importar com os olhares estranhos dos outros, Alice agarrou Vitor pelo braço e começou a caminhar. Ela precisava falar com ele a sós.
Vitor não resistiu, apenas olhou para trás avisando os outros para seguirem.
— Alice, você sabe de alguma coisa, não sabe? — Ele a encarou com olhos brilhando de curiosidade. Sentia que ela escondia algo importante do grupo.
— Ali na frente é o santuário.
Ao ouvir isso, Vitor empalideceu e travou as pernas, recusando-se a dar mais um passo.
Minha santa padroeira
, ela sabia que era o santuário e queria ir mesmo assim? Ela esqueceu o que dizia a Regra 2?! Aquela garota não tinha medo de nada...
— Por que pararam? — perguntaram os outros, confusos.
Vitor deu um sorriso amarelo. Parar? Se continuassem, iam acabar morrendo. Ele franziu a testa e implorou em voz baixa: — Eu posso não ir?
Alice deu um sorriso radiante e recusou o pedido com o tom mais gentil possível: — Não.
Vendo que ele ainda estava paralisado de medo, ela explicou a falha na regra: — A regra diz que não podemos
entrar
, mas não disse nada sobre não
chegar perto
. Do que você tem medo? Cadê o homem que ia me proteger?
Vitor percebeu na hora que ela estava usando psicologia reversa. O problema era que, contra ele, isso... funcionava? Impossível!
— Sabe, eu também posso ser uma das "garotas".
Embora a regra realmente não proibisse a proximidade, não significava que não houvesse perigo. Para um homem de verdade diante da morte, o orgulho era negociável! Honra não enche barriga; o importante era estar vivo.
Alice deu um tapinha no ombro dele e continuou a arrastá-lo, perguntando em um sussurro que só ele podia ouvir: — Escuta, tem algum talismã no seu quarto?
A existência daquele papel amarelado certamente não era para garantir uma noite tranquila a todos. Se fosse assim, não seria chamado de "jogo de morte". Ao ver a expressão confusa de Vitor, Alice entendeu imediatamente: o quarto que ele escolhera era um lugar de perigo. Ela comprimiu os lábios em uma linha reta; a sorte dele não era apenas ruim, era inexistente.
A reação de Alice deu a Vitor um presságio terrível. — O seu quarto tem um talismã?
Alice assentiu.
— E para que serve o talismã? — Vitor já imaginava a resposta, mas tinha medo de confirmar.
— Vou trocar de quarto com você hoje à noite.
Alice não respondeu diretamente. Trocar de lugar era a única forma que ela via para garantir a segurança dele.
— Posso perguntar por quê?
— Quanta pergunta! Só troca e pronto, para de ser fresco.
Vitor insistiu: — O meu quarto tem algum problema?
— Nenhum — mentiu ela com naturalidade para não assustá-lo. — O meu é velho demais, quero trocar, mas como não conheço os outros, só sobrou você.
Ao ouvir isso, a desconfiança dele evaporou. "Ora, sua Alice espertinha, querendo me dar o quarto ruim!", pensou ele. Vitor apontou o dedo para o nariz dela: — Você... você...
Gaguejou tanto que não conseguiu terminar a frase. Alice manteve a postura firme e deu um tapa na mão dele: — "Você" nada. Vai trocar porque eu estou mandando.
Enquanto conversavam, chegaram à entrada do santuário. Curiosamente, embora a névoa cercasse tudo, havia um raio de quatro metros ao redor do portão que estava completamente limpo. Olhando de perto, viram uma fileira de aldeões ajoelhados nos degraus, vestindo roupas idênticas. Eles estavam rígidos, imóveis.
Lucas, ainda escondido atrás de Marcos, espiou: — O que eles estão fazendo?
— Redimindo pecados? — chutou Clara. — Ou sendo punidos?
Enquanto falavam, um dos ajoelhados virou a cabeça lentamente. Mesmo à distância, todos viram claramente: o rosto era de um cinza cadavérico e o sorriso rasgava a face até as orelhas.
— É a Bia — disse Sara, com a voz subitamente carregada de emoção.
— Quem é Bia?
— Minha aliada no primeiro cenário.
— Como ela pode estar aqui?
— É uma aliada morta, não é? — Alice semicerrou os olhos, encarando os rostos um a um.
Sara confirmou: — Sim!
— Todos esses são jogadores que morreram em algum momento do jogo.
Alice já tinha visto muitos daqueles rostos na lista de falecidos do sistema.
— Esperem, isso aqui é o santuário! — Marcos recuou alguns passos, aterrorizado.
DONG—
Junto com o som do sino, ecoaram passos desordenados. Pelo som, não era apenas uma pessoa. Vários aldeões começaram a sair do santuário com sorrisos macabros e olhares carregados de ganância e ferocidade, como predadores que acabam de avistar a presa.
Clara olhou para o lenço: — São seis da tarde. Falta uma hora para as sete. Eles... eles querem caçar?
Os aldeões pararam diante dos ajoelhados e ficaram observando os seis jogadores em silêncio, como se estivessem esperando por um sinal.