Capítulo 9: Possuído pela Entidade
— Eu o avisei, ele é que não levou a sério. Além do mais, se eu falasse de algo que ainda não aconteceu, vocês acreditariam?
Até hoje, exceto pelos pais de Alice, ninguém acreditava que ela podia ver o futuro. Todos juravam que era um caso grave de delírio e que ela apenas dizia bobagens. Júlia, ainda com o coração disparado, permaneceu em silêncio. Se fosse ela, também não acreditaria.
— Olhe com atenção as letras no canto inferior esquerdo dos dois papéis — alertou Alice.
Ao ouvir isso, Arthur inclinou o corpo e examinou minuciosamente os dois versos. Realmente, como ela dissera, havia uma linha de texto minúscula, quase imperceptível para quem não olhasse com cuidado. Arthur leu as palavras sem hesitar:
— "Número de sobreviventes: dois."
Ou seja, não importava se encontrassem o diário para destruir ou proteger, o número de pessoas que passariam de fase estava definido como dois desde o início. Dos quatro presentes, dois teriam que morrer. Com a morte de Leo, restava agora uma vaga de "desaparecimento" entre os três sobreviventes. Se não atingissem o número exato de sobreviventes estipulado, mesmo cumprindo as condições, todos se tornariam parte da biblioteca.
— Guarde o seu complexo de salvadora — Alice repreendeu friamente. — Para sobreviver, é cada um por si. Nunca acontece de todos que entram saírem vivos. Ou o grupo é exterminado, ou o número de jogadores é reduzido.
— Chega. Falta menos de uma hora para a meia-noite. Vamos achar o diário primeiro e depois decidimos o que fazer.
Alice afirmou com total convicção: — Eu sei onde o diário está.
Sua frieza mudou completamente a imagem que Júlia tinha dela. Cheia de desconfiança, Júlia questionou: — Por que deveríamos acreditar em você? Você violou duas regras seguidas, saiu do livro coberta de sangue... quem garante que você não foi possuída por uma entidade?
— Vocês têm o direito de não acreditar em mim. Podem não fazer nada, ficar aqui para sempre esperando o sino tocar e virarem parte desta biblioteca.
Ao lado, Arthur aproximou-se de Júlia e a confortou: — Eu sei que é difícil de aceitar. Meus pêsames, mas você terá que se acostumar com isso daqui para frente.
No jogo, mortes eram triviais. O massacre não pararia por causa de um único jogador. Alice ignorou as palavras de Júlia e lançou um olhar gélido para os dois. Arthur apressou o passo para seguir Alice, querendo ver onde o diário estava escondido. Ela caminhou direto para a Terceira Estante e empunhou a vassoura que tomara do Faxineiro.
— Qual condição de vitória você acha que é a verdadeira? — perguntou Arthur casualmente, deslizando os dedos pelos livros.
Alice respondeu com naturalidade: — Eu acho que você é o falso.
Ele achou que ela se referia à regra e sorriu: — Ah é? Por quê?
Se ambos encontraram os papéis em livros, por que o dele seria falso? Enquanto Alice falava, observava cada reação dele: — O que é falso será sempre falso, nunca se tornará real. Assim como as pessoas.
Ao ouvir isso, um brilho de crueldade passou pelos olhos de Arthur. Ele fingiu uma compreensão súbita: — Tem toda a razão.
Em seguida, Arthur olhou para Júlia, que ainda estava sentada na cadeira, incapaz de se recuperar do choque. Ele sugeriu em voz baixa: — Alice, e se a gente desse um jeito na Júlia...
Ele fez um gesto de degola para Alice. A intenção era clara: eliminar Júlia para que, ao acharem o diário, pudessem vencer o jogo sem problemas de cota de sobreviventes.
— Com certeza — Alice não hesitou nem por um segundo. — Por que não fazemos isso agora mesmo?
Arthur ficou levemente atordoado. Não esperava que ela aceitasse de forma tão direta. Realmente, alguém que ousa violar as regras não era flor que se cheirasse.
— Vá você — disse Arthur, com uma expressão fingida de dificuldade. — Eu não tenho coragem de encostar em uma garota.
O canto da boca de Alice subiu em um sorriso sarcástico. Agora ele queria bancar o cavalheiro? Não pareceu hesitar ao sugerir a morte dela segundos atrás. Realmente, era uma criatura sem sentimentos.
— Tudo bem — Alice concordou prontamente. Segurando a vassoura, ela passou por Arthur e caminhou lentamente em direção a Júlia, que estava de costas.
De repente, as mãos de Arthur encolheram e desapareceram; seu rosto tornou-se bizarramente distorcido, com as feições convergindo para o centro da face, transformando-se em uma abominação. A criatura saltou loucamente contra a Alice, que parecia estar desprevenida.
Porém, um milésimo de segundo antes de ser tocada, Alice esquivou-se lateralmente e desferiu um golpe violento com a vassoura na cabeça da entidade. O monstro viu estrelas e sentiu seu corpo ser rasgado por uma força avassaladora. As feições fundidas voltaram ao normal por um instante, revelando um rosto humano antes de se partir.
Júlia virou-se ao ouvir o barulho e testemunhou Alice partindo o corpo de Arthur ao meio com a vassoura.
TUM—
Arthur caiu no chão com os olhos vidrados, sangue negro escorrendo pelos lábios. No instante seguinte, seu corpo transformou-se em cinzas, exatamente como o do Faxineiro. Quase ao mesmo tempo, o cartão que ele encontrara dissolveu-se em fumaça.
— Para tentar me enganar, vai precisar treinar muito mais — Alice ergueu o queixo, triunfante.
Desde que Arthur apareceu, ela tivera uma
Precognição
mostrando que, desde o momento em que ele se isolou no início, seu corpo fora possuído. Como a possessão durara mais de trinta minutos, o verdadeiro Arthur fora substituído pela entidade, restando apenas uma casca usada para camuflagem e para eliminar os jogadores um a um. Infelizmente para o monstro, Alice já vira seus planos.
Júlia cobriu o nariz e a boca, lutando contra a náusea, e levantou-se. Ao ver as cinzas no chão, perguntou incrédula: — O Arthur não era um jogador humano?
Alice assentiu com desdém: — Sim, como você viu, era uma entidade. Uma que sabia fingir e adorava semear a discórdia.
— Como você soube?
— Eu chutei.
Chute? Júlia não acreditou em um motivo tão sem lógica. Alice não se deu ao trabalho de explicar; eliminada a ameaça, ela não perdeu tempo e caminhou até a Terceira Estante, parando diante do livro negro.
— Esse livro é o diário que você mencionou? — perguntou Júlia, confusa.
Alice respondeu: — Não!
"Ela não é nada confiável, eu não deveria ter depositado minhas esperanças nela", pensou Júlia. Ela limpou as lágrimas, controlou as emoções e decidiu procurar o diário por conta própria. Faltavam menos de trinta minutos para a meia-noite.
Diferente dela, Alice começou a passar a vassoura deliberadamente sobre a superfície do livro negro. Aquele livro era o núcleo de toda a biblioteca, e ela já havia retirado o receptáculo central dele quando ninguém estava olhando. Um livro comum pode não ter um "núcleo", mas aquilo era um jogo. Qualquer objeto insignificante poderia ser a peça-chave do cenário. Destruí-lo não seria mais rápido do que seguir as condições de vitória das regras? Além disso, a vassoura podia destruir tudo; era a ferramenta perfeita.
As regras foram feitas para serem quebradas, especialmente quando se é imortal.