Capítulo 7: O Sexto Jogador
Além de ser um pouco louca e saber jogar, ela não parecia ter nada de tão especial.
Alice cruzou o olhar com Júlia e sorriu: — Até que você é esperta, pelo menos mais que ele.
— De quem você está debochando? — retrucou Leo, indignado. — Quem é burro aqui?! Eu só tive as mesmas dúvidas que qualquer jogador teria.
Alice ergueu o rosto e apontou para as cinzas do Faxineiro. A intenção era clara: o Faxineiro é que fora burro. Uma entidade ser morta por um jogador era motivo de piada entre os monstros; Alice, sendo "bondosa", resolveu ajudar o Faxineiro a nunca mais ter que ouvir as fofocas de sua espécie.
Júlia cobriu a boca para disfarçar o riso. Nem depois de morto o bicho teria paz.
— E se o sexto jogador se recusar a aparecer? — perguntou Júlia, preocupada.
A biblioteca era imensa, com esconderijos infinitos. Além disso, pelo tempo decorrido, aquela pessoa estava escondida há quase uma hora. Como Alice podia ter tanta certeza de que uma simples frase faria alguém sair do esconderijo após tanto tempo?
— Ele já saiu — afirmou Alice categoricamente.
Os dois olharam ao redor, mas não viram sinal de ninguém.
— Onde ele está? — um calafrio percorreu a espinha de Leo.
— Atrás de você — disse Alice calmamente.
Sentindo que algo estava errado, Leo virou-se bruscamente e deu de cara com um rosto exibindo um sorriso astuto, perigosamente próximo ao seu.
— Mas que droga! — por puro reflexo, Leo deu um tapa no rosto do sujeito.
Júlia assistiu à cena boquiaberta. Ao sentir a fúria emanando do desconhecido, ela recuou para trás de Alice, temendo que uma briga generalizada sobrasse para ela. Sem surpresa, logo após o golpe de Leo, o próprio Leo recebeu um tapa de volta na bochecha esquerda.
— Agora vocês estão quites — comentou Júlia, sem perder a chance de cutucar. Um bateu na esquerda, o outro na direita; um par perfeito.
— Se quer aparecer, apareça logo! Por que tem que me assustar?
— Quem disse que eu quis te assustar? Foi você quem começou a agressão!
Enquanto os dois discutiam, Alice passou por eles em silêncio e sentou-se à mesa central da biblioteca. Brincadeiras à parte, com as regras não se brincava. Ela escolheu sentar-se exatamente na cadeira onde o homem robusto havia morrido.
Ao vê-la ali, Júlia não conseguia evitar a imagem mental do homem derretendo em uma poça de sangue.
— Por que você não troca de lugar? Esse assento não traz boa sorte.
— Não precisa, eu gosto daqui.
Aquele lugar seria dela até o fim do jogo. Diante da insistência, Júlia preferiu não forçar. Leo, cansado de discutir, pegou a toalha que Alice deixara na cadeira no início, jogou-a de lado e sentou-se, bufando de raiva para o jogador à sua frente.
— Leo, tem certeza de que não quer trocar de lugar?
Júlia franziu a testa, percebendo que havia algo nas entrelinhas da pergunta de Alice. Leo, ainda irritado, não captou o aviso. Ele encarou o homem à frente com teimosia: — Não vou trocar.
Quando ninguém estava olhando, Alice assentiu levemente. Esperava que ele não se arrependesse.
— Onde está a Helena? — perguntou Júlia, olhando ao redor.
Ao mencionar Helena, Leo se lembrou de que ela havia dito ter encontrado a saída pouco antes de Alice emergir do livro.
— Ela logo aparece.
— Ela achou a saída, então obviamente foi embora.
Alice e Leo falaram ao mesmo tempo. Alice estava estranhamente convicta de que Helena voltaria. Em sua
Precognição
, Helena partira, mas não totalmente.
— Impossível — contestou Leo. — Enquanto você estava fora, ela achou a saída e foi embora. Provavelmente já está de volta ao mundo real.
Leo não acreditava em Alice. Helena fora a mais dedicada em buscar a saída, então não fazia sentido ela ter ficado. Alice não rebateu, mas também não confirmou que Leo estava certo.
— Não vai se apresentar? — Alice perguntou, brincando com um livro sobre a mesa, enquanto olhava para o sexto jogador que finalmente se juntara ao grupo.
O homem entrelaçou as mãos sob a mesa, sentindo o olhar inquisidor dos outros.
— Se a Alice não tivesse te descoberto, você planejava ficar escondido até o fim do jogo? — Leo perguntou de forma ríspida. Ele fora o primeiro a acordar e queria apenas colher os frutos do esforço alheio. Leo sorriu com desprezo.
— Eu nunca disse isso. Essa é a sua interpretação, não tente me culpar — o homem negou rapidamente, colocando os punhos sobre a mesa de forma séria. — Meu nome é Arthur. E sim, vocês estão certos, fui o primeiro a acordar, mas esta não é a minha primeira vez no jogo.
Arthur deu uma ênfase especial à última parte, como se fosse um detalhe crucial.
— Se você acordou primeiro, por que não nos chamou? — Júlia o encarou com hostilidade. Pelo que sabia, não havia regra proibindo o primeiro a despertar de acordar os outros. Em sua ingenuidade, pensava que, se Arthur os tivesse acordado, o homem robusto talvez tivesse tido uma chance.
Arthur, astutamente, jogou a responsabilidade para Alice. Embora ela tivesse sido a segunda a acordar, fizera a mesma escolha que ele.
— Diga você primeiro.
A implicação era clara: se Alice não falasse, ele permaneceria em silêncio. Durante o tempo em que esteve escondido, Arthur vira tudo o que aconteceu. As ações de Alice estavam muito além do nível de uma
Novata
. Era a primeira vez que ele via alguém desafiar e ignorar as regras daquela forma. Mas o que mais o intrigava era: por que Alice não morria, mesmo sendo "morta" pelo Faxineiro? Pelas atitudes dela, uma única morte não parecia suficiente.
Diante do desafio de Arthur, Alice respondeu com naturalidade: — Simples. Eu queria encontrar itens e pistas.
— E encontrou?
Alice não disse nada, apenas colocou o pergaminho sobre a mesa de cabeça para baixo. A mensagem era óbvia. A Regra 4 era a prova cabal. Embora não a tivesse encontrado logo no início, o conteúdo da segunda metade provava que ela queria vencer o jogo e estava do lado deles. Ela não era uma ameaça.
— Não mude de assunto, responda logo — pressionou Leo. Jogadores de identidade desconhecida eram sempre vistos como perigosos. Arthur estava se colocando em uma situação difícil; se necessário, eles não hesitariam em descartar mais uma pessoa para garantir a segurança do grupo.
— Fiz o mesmo que ela, queria buscar pistas antecipadamente.
— E achou alguma coisa? — Leo repetiu a pergunta.
Arthur balançou a cabeça negativamente, com um tom firme: — Não. No começo eu ia procurar por vocês, mas ouvi o anúncio sobre a saída e fui procurá-la. Queria encontrá-la antes de me apresentar.
Alice soltou uma gargalhada súbita. Ridículo! Como alguém podia mentir de forma tão descarada?
Arthur franziu a testa, descontente: — Do que você está rindo? Qual é a graça?
— Você está mentindo.
Ao ouvir isso, Arthur mudou de expressão instantaneamente. Os outros dois trocaram olhares confusos.
— Não estou mentindo, é a verdade. Não tenho por que enganar vocês.
Alice afirmou com convicção: — Você escondeu algo.
As mãos de Arthur sobre a mesa deslizaram discretamente para baixo. Uma delas tocou o bolso por instinto, e seu olhar tornou-se errático. O sinal de culpa fez Alice sorrir de canto. Prevendo que ele negaria até o fim, ela foi direta ao ponto:
— Tem coragem de esvaziar os bolsos e nos mostrar?