Capítulo 5: O Mundo Dentro do Livro
A vassoura caiu dentro do raio de cinco metros conforme Alice planejava. Ela manteve uma das mãos atrás das costas, enquanto a outra, com total calma, limpava o líquido viscoso que respingara em sua roupa. Ela cheirou a própria manga e fez uma careta de nojo: cheiro de podre, misturado a um forte odor metálico.
O Faxineiro era uma entidade física.
Leo observava a cena em choque. Até então, a maioria dos jogadores acreditava que as assombrações dos jogos eram intangíveis — sombras que podiam ser vistas, mas não tocadas. Essa crença levava à ideia de que as entidades não tinham fraquezas e eram imortais, uma desinformação que se espalhara por todo o mundo real. Agora, diante de seus olhos, Alice provava que todos estavam errados.
O que ele não conseguia conceber era a audácia dela. Provocar o bizarro já parecia o limite do suicídio, mas ela fora além: ela agredira a entidade. Em um histórico de milhares de mortes de jogadores, aquela era, talvez, a primeira vez que um monstro apanhava de um humano. E o mais inacreditável? Vinha de uma
Novata
.
— Ele não está reagindo?! — Leo exclamou, boquiaberto.
De fato, após o soco, o monstro não revidou. Ele aceitava o castigo em silêncio? A realidade era bem diferente. Nos dois minutos em que Leo manteve os olhos fechados, o Faxineiro havia desferido um golpe de cauda com a vassoura que partira Alice ao meio, separando seu tronco das pernas. Além disso, sua mão direita fora decepada.
Contudo, graças ao seu
Corpo Imortal
, as metades de Alice se fundiram novamente em segundos, pouco antes de Leo voltar a olhar. A mão que ela escondia atrás das costas estava, naquele momento, regenerando cada osso e nervo. A dor aguda a deixara de mau humor.
Quanto aos olhos do monstro que ela explodira, levaram menos de um minuto para se recompor. Foi nesse breve intervalo de regeneração da criatura que Alice agiu.
— Hora de descansar — disse Alice com um sorriso gentil e falso. Ela se abaixou e pegou a vassoura do chão, tomando posse do objeto. Estava curiosa para saber o nível daquele item.
Leo e as outras duas garotas estavam em transe.
— Eu estou vendo direito? Ele está... dançando para a Alice?
— Devo estar alucinando!
Para quem via de longe, os movimentos frenéticos do Faxineiro pareciam uma dança bizarra. Para a entidade, porém, era um desespero agoniante para recuperar sua ferramenta de trabalho. O problema era que Alice estava parada exatamente onde ele não podia pisar. O Faxineiro girava os olhos e agitava os braços à frente dela em pura frustração.
— AAAAAAAHHHH! — Um grito lancinante preencheu a biblioteca.
O som durou um tempo indefinido até cessar abruptamente. No lugar onde o Faxineiro estava, restou apenas uma pilha de cinzas. Todos entenderam: entidades de regras nascem para a regra. A vassoura era a arma de remoção de ruídos. No momento em que Alice empunhou a vassoura, ela se tornou a "Faxineira" oficial. Seguindo a lógica do sistema, ela apenas "limpou" o ruído causado pelo antigo ocupante do cargo.
Com a morte da entidade, a Regra 1 fora anulada.
— Ela não é louca... — Helena suspirou, aliviada. As ações de Alice a fizeram pensar que ela tinha saído de um hospício, mas agora via que havia um método no caos.
Júlia deu um sorriso sem graça. Às vezes, para mudar o preconceito sobre alguém, bastava ver um monstro ser transformado em pó. Mas a alegria durou pouco. Sem hesitar, Alice estendeu a mão e puxou o livro negro sem título da Terceira Estante.
Assim como em sua
Precognição
, no instante em que seus dedos tocaram o papel, as páginas começaram a girar sozinhas.
— Alice! — gritaram os outros jogadores.
Um portal abissal abriu-se no centro do livro, expandindo-se até liberar inúmeros tentáculos negros e pegajosos que envolveram os membros de Alice. Os gritos dos companheiros foram abafados pelo vácuo do portal. A escuridão a abraçou com força, arrastando-a para o abismo profundo.
Antes de tocar no livro, Alice vira em sua visão que, dentro daquele mundo, flutuava um pedaço de pergaminho. Nele, estava escrito
Regra 4
, mas o conteúdo seguinte estava borrado. Não importava quão perigoso fosse o interior; com seu
Corpo Imortal
, ela não conhecia o medo.
Helena empalideceu, olhando para o espaço vazio onde Alice estava.
— Posso retirar o que eu disse agora pouco? — sua voz tremia. — Ela é louca sim. Louca o suficiente para se matar.
Leo forçou-se a manter a calma.
— Restam apenas três de nós. Precisamos encontrar a saída e ver se achamos o restante da Regra 4. Não quero um extermínio total neste cenário.
Enquanto os três se dividiam em pânico para vasculhar o restante da biblioteca, uma sombra humana cruzou rapidamente o corredor oposto, entre as estantes centrais.
No mundo dentro do livro, não havia em cima ou embaixo, nem a percepção da passagem do tempo. Havia apenas um coro de infinitas vozes sussurrando segredos universais e verdades aterrorizantes, tentando estilhaçar a vontade de quem as ouvisse. Um humano comum teria enlouquecido em segundos.
Alice permanecia "parada" na escuridão, observando pequenos pontos de luz que pulsavam conforme as vozes falavam.
—
Boa sorte e alegria, que a sorte venha para mim...
— Alice começou a cantarolar baixinho, uma melodia popular que soava completamente deslocada naquele vazio.
Os sussurros hesitaram por um milésimo de segundo, como se não esperassem aquela reação. Ofendidas pela falta de medo, as vozes intensificaram o ataque, tentando invadir seu cérebro e ocupar sua consciência.
Alice sentiu sua pele começar a se dissolver e seus ossos serem roídos por algo invisível. A dor era excruciante. Mas ela já havia experimentado mortes muito piores em suas visões.
Antes que sua consciência se dissipasse por completo, Alice murmurou:
— Eu já previ dezessete variantes diferentes de devoração de consciência. Vocês... são a versão mais sem criatividade de todas.