Alice voltou de sua breve exploração e encontrou os três jogadores parados ao lado da mesa, paralisados pelo choque.
Ao se aproximar, viu que uma poça de sangue escarlate e viscoso havia surgido sobre a madeira. O líquido escorria gota a gota, manchando as páginas dos livros dispostos ali.
— Ele sumiu?! — a voz de uma das jogadoras tremia como uma folha ao vento.
Pouco antes, eles haviam testemunhado o homem robusto dizer apenas algumas palavras banais. De repente, um livro bizarro se abriu sozinho e murmurou:
"Venha brincar comigo, sinto-me tão solitário..."
Assim que a frase terminou, o livro desenvolveu pequenas pernas atrofiadas e saltou sobre o homem, escalando seu corpo até alcançar o pescoço. Os outros três, aterrorizados, tentaram gesticular freneticamente para que ele se livrasse do objeto. Afinal, um livro que ganha vida nunca traz bons presságios, especialmente naquele mundo.
Mas foi tarde demais.
O livro, ironicamente intitulado
Como Viver Feliz
, abriu uma bocarra repleta de dentes afiados e cravou-os na artéria carótida do homem. O mais bizarro aconteceu em seguida: apesar da mordida profunda, nem uma gota de sangue jorrou para fora. O livro estava bebendo a vida dele.
— O livro... o livro o matou! — os jogadores trocavam olhares desesperados. Queriam ajudar, mas o medo falava mais alto.
Nesse jogo, o objetivo principal era sobreviver e vencer os desafios para evitar uma morte grotesca no mundo real. Ninguém sabia se, ao ajudar o colega, acabariam selando o próprio destino. No fim, restou-lhes apenas observar, em silêncio absoluto, torcendo para não serem os próximos.
O livro saltou de volta para a mesa. O homem, já sem vida, desabou sobre o tampo de madeira e, num piscar de olhos, seu corpo inteiro se dissolveu, transformando-se naquela poça de sangue que Alice agora observava.
Alice contornou os três "estátuas" com uma calma irritante. Ela segurava uma toalha limpa e começou a limpar as manchas de sangue da mesa e das cadeiras, com movimentos lentos e precisos. Depois, jogou o pano sobre o lugar onde se sentara inicialmente.
Sua frieza era incompreensível para os outros. Como alguém podia ver um ser humano derreter e não esboçar reação? O que eles não sabiam era que Alice já havia previsto aquela cena. Desde o momento em que acordara, vira que um deles não passaria dos primeiros minutos. Era um beco sem saída; alguém precisava morrer para que o roteiro do jogo avançasse. Se o destino estava selado, por que ela gastaria saliva com avisos inúteis?
Os três começaram a recuperar os sentidos e notaram algo estranho. Havia seis lugares à mesa, mas, descontando o falecido, restavam apenas quatro ali.
— Será que o outro jogador ainda não entrou? — sugeriu Leo, o rapaz de óculos e aparência intelectual, soando incerto.
Alice sentou-se justamente na cadeira que pertencera ao morto e começou a folhear o livro assassino com desdém.
— Você realmente acha isso possível?
Leo balançou a cabeça. O convite do sistema era claro: todos os jogadores entram simultaneamente.
— Então... talvez o sistema tenha sofrido um bug? — ele tentou novamente.
Alice sentiu uma ponta de pena da ingenuidade dele. Preferia culpar a tecnologia a encarar a maldade humana ou os mistérios do jogo. De repente, um alto-falante na parede chiou, cortando o silêncio.
【Bem-vindos ao Cenário de Nível C: "A Biblioteca Proibida"】
(Os níveis variavam de A a D, sendo A o ápice do perigo. Ninguém tinha garantia de qual pesadelo enfrentaria ao completar dezoito anos.)
【Vocês, estudantes exemplares, vieram à biblioteca para ler, mas perderam a hora do fechamento e acabaram presos.】
【Para que tenham uma noite "agradável", memorizem as seguintes regras:】
【Regra 1: A biblioteca exige silêncio. O ambiente detesta ruídos; qualquer barulho desnecessário pode atrair o "Faxineiro".】
【Regra 2: Algumas obras do acervo possuem vida própria. Se ouvir choros, risadinhas ou seu nome sendo chamado entre as páginas, feche os olhos imediatamente, conte até dez e NÃO responda. Jamais faça contato visual.】
【Regra 3: É proibido folhear a Terceira Estante. O sétimo livro da terceira fileira, de capa preta e sem título... repetindo, é proibido folheá-lo.】
【Regra 4: A única maneira de encontrar a saída da biblioteca é...】
Zzzzz!
Um ruído estático e agudo encobriu o final da frase.
— Tinha que dar problema logo agora! — Helena, a mulher de roupas ousadas, reclamou impaciente. — Esqueçam o áudio, precisamos descobrir a regra da saída por conta própria.
Ela não queria perder tempo debatendo falhas técnicas. Se havia uma saída, eles precisavam encontrá-la para garantir a liberdade. Talvez estivesse escondida em algum canto daquele labirinto de estantes.
Júlia, a garota tímida e esguia, levantou a mão timidamente.
— Com licença... o que seria esse "Faxineiro"?
Era sua primeira vez no jogo, uma completa novata. Seus pais lhe deram apenas dois conselhos antes de ela partir: "Se não souber, pergunte" e "Descubra quem é o mais forte e não saia de perto dele".
— Não me diga que você é uma novata? — Helena a encarou com um tom nada amigável.
No jogo, havia três categorias: os
Novatos
(carne de canhão), os
Intermediários
(com alguma experiência) e os
Veteranos
(aqueles que sobreviveram a dez cenários ou a um nível A, lendas raras de se encontrar).
Júlia assentiu, honesta: — Sim, eu sou.
Alice deu um sorriso de canto. Apenas uma iniciante faria tal pergunta.
— O Faxineiro é quem vai limpar você deste mundo, como se fosse um lixo. Você deixará de existir — disse Alice, enfatizando as últimas palavras com um olhar sombrio que fez Júlia tremer.
O clima pesou por um instante. Ao ver o pavor estampado no rosto da menina, Alice soltou uma gargalhada súbita. O som ecoou alto, preenchendo cada fresta da biblioteca silenciosa.
— Você enlouqueceu? Pare de rir! — Leo sussurrou desesperado, temendo a Regra 1.
— Shh — Alice colocou o dedo sobre os lábios, mas seu sorriso se tornou ainda mais provocante. — Vocês não ficaram curiosos para ver a cara desse Faxineiro?
Leo rapidamente se afastou, juntando-se às outras duas mulheres. Aquilo era puro suicídio.
PAFT! PAFT!
Alice bateu as palmas das mãos com força contra a mesa. O som estalou como um tiro no silêncio mortal da biblioteca.