Fábio já tinha visto fotos de Arthur Magalhães.
Nas fotos, ele exibia exatamente a aura que os boatos descreviam: uma frieza cortante acompanhada de um profundo senso de distanciamento. Os olhos eram de um castanho claro, olhos de fênix estreitos, e os lábios finos formavam uma linha rígida. Todo o seu ser exalava uma nobreza inata, como se ele pertencesse a um mundo diferente dos demais.
Fábio recuou um passo.
O rosto da foto foi lentamente se sobrepondo ao do homem parado à porta.
Arthur era mais alto que ele e o olhava de cima, com um semblante descontraído, mas que carregava um peso opressor. Seus olhos de fênix estavam sombrios; ele fixou o olhar no buquê de rosas vibrantes sobre a mesa e um leve riso, de significado obscuro, escapou pelo canto de sua boca.
Fábio forçou um sorriso bajulador: — Sr. Arthur, eu estava justamente pensando em ir visitá-lo agora mesmo. Não esperava encontrá-lo aqui, que coincidência.
— Deixe-me explicar, isso é tudo um mal-entendido. Essa pessoa aqui foi funcionária da minha empresa. Na época, eu era o Vice-Diretor. Ela, uma recém-formada que acabou de entrar na empresa, em vez de trabalhar duro, quis pegar um atalho e tentou me seduzir. Acabou sendo vista por outros funcionários e resolveu dizer que eu a assediei sexualmente, querendo levar o caso até o Presidente para chamar a atenção. Mas o plano dela foi desmascarado e ela foi expulsa da empresa.
— Por causa desse comportamento deplorável, nenhuma empresa a queria. Se a irmã do Sr. Gustavo não fosse a melhor amiga dela, ela jamais teria conseguido entrar na empresa atual. Quem sabe se esse atropelamento não foi algo planejado por ela? Afinal, coincidências assim não existem.
Yasmin quase riu de tanto ódio ao ver como ele invertia os fatos. — Com essa lábia toda, por que não te chamaram para ser diplomata? Só você mesmo para ter essa cara de pau de falar sem parar. Por que não olha no espelho e vê o seu estado? Quantos narizes e olhos você tem para dizer que eu tentei te seduzir? Se você viesse de brinde numa promoção, eu ainda acharia que é mau agouro! Seduzir? Só de te ver eu já sinto vontade de chamar um exorcista. Não tente valorizar esse seu rosto acabado para cima de mim.
O rosto de Fábio alternou entre o vermelho e o branco, terminando num tom esverdeado de raiva.
— Yasmin, não abuse da minha paciência. O Sr. Arthur está aqui presente; quero ver como você vai explicar para ele o fato de tê-lo atropelado.
Arthur inclinou a cabeça para o lado para esconder um sorriso que surgia em seus olhos. Ao ouvir as palavras de Fábio, seu olhar recuperou a frieza habitual.
— Como ela vai se explicar para mim não é problema seu. Já você... é a primeira vez que vejo alguém que diz ter sido seduzido por outra pessoa trazer rosas para visitá-la.
Fábio instintivamente se colocou à frente de Arthur para esconder as rosas na mesa, sorrindo sem graça. — Sr. Arthur, esqueci de me apresentar. Sou Fábio, Diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da
Jinjie Tecnologia
. Tínhamos uma reunião agendada, mas foi adiada por causa do acidente. Ambas as nossas empresas desenvolvem aparelhos voltados para pacientes em coma, mas garanto que a nossa tecnologia é muito mais madura do que a da empresa do Gustavo.
— Fábio? — Arthur saboreou o nome com desdém, passando o olhar pelo rosto dele. — Assuntos de trabalho devem ser tratados com o meu assistente. Agora é o meu tempo privado.
Ao ouvir isso, Fábio ficou ansioso. — Sr. Arthur, o senhor esqueceu? Meu avô conhece o seu pai. Nós nos vimos na sua última festa de aniversário. Meu avô até pediu para eu perguntar como o senhor está se sentindo. Como o senhor acabou de voltar do exterior, ele me encarregou de recebê-lo bem. Já até reservei o restaurante, estou apenas esperando o senhor descansar.
O olhar de Yasmin recaiu discretamente sobre as feições do homem. Ela achou que estava sendo sutil, mas no momento em que olhou, Arthur ergueu os olhos para ela.
Ao ver Yasmin baixar a cabeça rapidamente como se quisesse se esconder, Arthur sentiu uma súbita vontade de rir por algum motivo. Mas ele se conteve e, lembrando-se da presença da outra pessoa no quarto, seu olhar endureceu novamente, emanando frieza.
— Sinto muito, nunca ouvi falar. Muita gente comemora o meu aniversário... — Ele olhou para Fábio com sarcasmo. — E quem seria você mesmo?
O rosto de Fábio ficou péssimo, mas Arthur era alguém que ele não podia ofender, então restou apenas forçar um sorriso. — Naturalmente, pessoas como eu são diferentes do Sr. Arthur, é normal não se lembrar. Mas como o acidente adiou nossa reunião, o senhor veja sobre o horário...
O homem se inclinou para o lado, liberando a passagem da porta. Mesmo vestindo o mesmo pijama de hospital que Yasmin, sua aura era inabalável. No entanto, as palavras que saíram de sua boca fizeram Yasmin arregalar os olhos.
— Primeiro, meu tempo é valioso e não quero desperdiçá-lo com pessoas irrelevantes. Segundo, creio que não temos mais nada a conversar. Por melhor que seja o produto, o caráter vem primeiro. Não considero que alguém tão desprezível a ponto de assediar uma subordinada e depois incriminá-la seja um parceiro de negócios qualificado.
— Sr. Diretor Fábio... — Ele concluiu: — Por favor, retire-se.
— Você...
Arthur fixou o olhar nele. — Ou o senhor prefere que o hospital inteiro venha aqui testemunhar as suas "grandes conquistas"?
— Ah, e mais uma coisa.
Ele olhou para o buquê de rosas berrantes sobre a mesa, com um lampejo de nojo nos olhos. — Pegue as suas flores e suma daqui.
Fábio saiu com o rabo entre as pernas, levando as flores consigo.
O quarto barulhento recuperou o silêncio. Yasmin e o homem na porta se olharam de longe.
Ela coçou o rosto, sentindo-se subitamente constrangida por algum motivo.
— Você...
Ela abriu a boca para dizer algo, quando Gabi entrou trazendo o macarrão.
— Esta velha aqui quase morreu de calor! Yasmin, sua desgraçada, me mandou comprar macarrão em pleno meio-dia. A loja estava lotada, fiquei um tempão na fila, e...
Ela virou a cabeça e deu de cara com o homem parado ali.
Segurando o macarrão, ela deu um sorriso sem graça.
— Opa! Sr. Arthur, que coincidência. O que faz aqui?
Ao dizer isso, ela começou a fazer sinais frenéticos com os olhos para Yasmin.
Yasmin abriu as mãos, indicando que também não sabia por que ele estava ali.
Arthur olhou para o macarrão nas mãos de Gabi, depois para Yasmin, e disse: — Não é coincidência. Eu vim procurá-la.
O quarto de Yasmin nunca esteve tão organizado. Todas as cestas de frutas e flores foram empilhadas no canto, liberando um espaço limpo e amplo no meio. Arthur sentou-se ali; uma cadeira de plástico de poucos reais parecia um sofá de luxo sob ele. À sua frente, Yasmin apoiava uma mesinha na cama e devorava o macarrão.
Yasmin segurou os hashis, olhou para o homem de feições frias e depois para o macarrão na embalagem descartável. Fez um convite não muito sincero: — Quer um pouco?
— Não, obrigado. — Arthur olhou para o macarrão mergulhado em óleo de pimenta vermelha e pareceu hesitar em dizer algo.
Sob o olhar confuso de Yasmin, ele começou calmamente: — Yasmin, certo?
Aquela sensação de ser chamada pelo professor voltou, mas, estranhamente, ela não se sentia nervosa.
— O acidente foi por volta das 08:40 da manhã, na Rua Primavera. Quando meu carro estava fazendo a curva, você colidiu comigo. A frente do meu carro ficou deformada; quanto ao resto, só saberemos após uma vistoria daqui a dois dias.
— Se acionarmos o seguro, e supondo que o seu seguro seja de cobertura máxima, de acordo com o nível de dano do meu carro, descontando o que a seguradora pagar, você provavelmente terá que me indenizar este valor...
Ele fez uma pausa, tirou um papel do bolso e entregou a Yasmin.
Yasmin pegou o papel e, ao ver o número, quase desmaiou. As palavras saíram sem pensar:
— Espera aí, tudo isso? Você está me assaltando?
Vixe!
Por que essa frase parecia tão familiar?
Gabi se aproximou para espiar e deu um tapinha solidário no ombro da amiga. — Esse valor está bem em conta, na verdade. Se fosse outra pessoa, seria muito mais.
Yasmin: “...”
Pode me vender logo de uma vez.
Vendo o rosto de Yasmin à beira das lágrimas, Arthur sentiu uma rara pontada de culpa. Na verdade, quando acordou, ele quase tinha esquecido o carro; depois, por algum motivo desconhecido, resolveu listar uma série de números e desceu para procurar Yasmin sob o pretexto da indenização.
Ele coçou o nariz e disse: — Se não tiver o dinheiro agora, pode pagar aos poucos. Não há pressa.
Gabi lançou um olhar desconfiado para ele.
Yasmin não viu nada de errado; pelo contrário, olhou para ele com gratidão. — Sério?
— Sim. — Ele olhou para o macarrão, cuja sopa já estava quase toda absorvida. — Coma primeiro, conversamos depois.
Yasmin estava com fome mesmo, então pegou os hashis e decidiu focar na comida.
O olhar desconfiado de Gabi voltou para o rosto de Yasmin.
Falando nisso... era impressão dela? Por que parecia que aqueles dois eram super íntimos? Com Arthur sentado ali, parecia que
ela
era a intrusa.
O macarrão estava apimentado hoje. Yasmin começou a suar levemente, e sua pele branca ganhou um tom rosado suave.
O olhar de Arthur recaiu sobre o rosto dela, sem controle. O suor escorria pela testa, umedecendo seus olhos; ela estava com preguiça de limpar e apenas piscava para tentar tirar o suor. Seus cílios longos batiam como asas de uma borboleta.
Aquilo pousou silenciosamente no coração dele, causando um formigamento doce e inquietante.
Yasmin estava comendo animada quando um lenço de papel branco foi estendido à sua frente.
Ela ergueu os olhos e encontrou o semblante levemente frio do homem.
No entanto, o tom de voz dele era muito gentil: — Limpe o rosto.
Olhando para a tigela, ele finalmente não resistiu a dizer o que estava entalado: — Você acabou de acordar, é melhor não comer algo tão apimentado. Faz mal ao estômago e pode causar diarreia.
Yasmin pegou o papel e disse sem dar importância: — Relaxa, meu estômago é de ferro. Cresci comendo pimenta, só fico suada mesmo.
O homem não disse mais nada, apenas abriu uma garrafa de água e entregou a ela.
Yasmin pegou a garrafa com naturalidade e tomou um gole.
Gabi: “???”
Vocês não estão íntimos demais, não? Realmente acabaram de se conhecer? Por que estou sentindo um ar de "casal de longa data" aqui?
Meus olhos estão com problema ou são esses dois que estão com problema?
Yasmin achou chato deixar o convidado ali sentado sem nada, então pegou uma tangerina na cesta e entregou a ele. — Quer uma tangerina? Eu comi uma agora pouco, está bem doce.
Arthur baixou a cabeça e começou a descascar a fruta lentamente. Ele fazia isso com muita dedicação, removendo até as fibras brancas da tangerina. Quando terminou, separou metade e colocou na mesinha de Yasmin.
Yasmin não fez a menor cerimônia; pegou um gomo e comeu, sorrindo com os olhos brilhando.
— Viu? Eu disse que estava doce.
Um sorriso também surgiu no canto dos olhos do homem.
— É, está bem doce.
Gabi: “...”
Ela caminhou em direção à porta com uma expressão atordoada.
Yasmin viu e gritou: — Onde você vai?
Ela murmurou: — Meus olhos estragaram. Vou comprar um colírio.
Yasmin: “...”