O quarto de Yasmin esteve agitadíssimo nos últimos dois dias. Assim que souberam que ela havia despertado do coma, conhecidos, desconhecidos e pessoas com quem ela tinha apenas um contato casual vieram visitá-la. Ela passava o dia todo na cama lidando com as visitas, e sua cabeça já estava prestes a explodir.
Com muito custo, ela conseguiu despachar um grupo e se jogou na cama querendo descansar, mas a porta bateu novamente.
Sem forças para viver, ela se levantou, arrumou o visual e pediu para Gabi abrir a porta.
Gabi abriu e, ao ver quem estava do lado de fora, paralisou. — Sra. Simone? O que a senhora está fazendo aqui?
Simone?
Yasmin levou um susto. Ao olhar para a porta, quem mais seria segurando uma cesta de frutas senão Simone? Ela vestia um terninho preto profissional, com o cabelo curto cortado de forma impecável. Os saltos agulha que usava não a faziam parecer alguém visitando um doente, mas sim alguém que acabara de sair de uma reunião executiva.
Ela lançou um olhar para Yasmin e, em seguida, inclinou-se levemente para o lado, revelando a pessoa que estava atrás dela.
O rosto agressivamente atraente de Gustavo se revelou diante de Yasmin. O terno cinza-chumbo moldava seu corpo alto e esguio; sobrancelhas marcadas, lábios finos e olhos sombrios atrás das lentes dos óculos. Ele ainda não tinha feito nada, mas a aura que emanava fez Yasmin engolir em seco, sentindo um frio na espinha.
— Irmão? — Gabi exclamou surpresa. — Por que você veio também?
O quarto estava repleto de flores e cestas de frutas. Simone encontrou um espacinho para entrar. Yasmin recebeu a cesta de frutas das mãos dela com toda a reverência, colocou-a sobre o criado-mudo e sentou-se na cama comportada como uma aluna exemplar.
Gustavo percorreu o rosto de Yasmin com o olhar e disse, sem muita emoção: — Como está se sentindo?
Yasmin sentiu um arrepio sob o olhar dele; não era diferente de um aluno sendo chamado de surpresa pelo professor durante a aula. Ela endireitou as costas e respondeu: — Sr. Gustavo, estou bem! Posso voltar ao trabalho a qualquer momento!
O olhar de Gustavo caiu sobre as mãos que ela escondia nas costas e, por algum motivo, ele sentiu vontade de rir.
— Não há pressa para o trabalho. Recupere sua saúde primeiro; eu não chegaria ao ponto de exigir que um funcionário trabalhasse ferido. — Vendo Gabi fazer caretas para ele, ele acrescentou: — Não se preocupe com o salário; você receberá normalmente durante o período de repouso.
Ao ouvir isso, os olhos de Yasmin brilharam instantaneamente.
Na empresa, todos diziam que Gustavo era o próprio "Rei do Inferno", tratando homens como animais de carga e mulheres como homens. Mas agora, para ela, ele não era o Rei do Inferno, era o próprio Buda vivo.
— E... sobre o acidente? — Yasmin não resistiu a perguntar.
Gabi, agindo como uma assistente bajuladora, puxou uma cadeira para o irmão. Gustavo olhou para ela, não recusou e sentou-se.
— Acabei de visitar o Sr. Arthur Magalhães. Quanto aos danos causados pelo acidente, vocês dois devem negociar entre si, mas, felizmente, isso não afetará a cooperação entre as duas empresas.
Ouvindo isso, o coração de Yasmin finalmente se acalmou.
Afinal, Gustavo viera para ver Arthur; como ambos estavam no mesmo hospital, ele apenas passou para vê-la por tabela.
Gustavo percebeu o constrangimento dela, disse algumas palavras de conforto e saiu, deixando Simone lá dentro.
Simone deu duas voltas ao redor dela. — Yasmin, agora você ficou famosa na nossa empresa.
Yasmin deu um sorriso amarelo. — Por quê? Bater o carro em alguém é tão vergonhoso assim?
— Não exatamente... — disse Simone. — É que é a primeira vez que vejo alguém atropelar o grande empresário que o "Rei do Inferno" tentava convencer há um mês. Ninguém consegue tirar de perto dele quem ele quer, mas você foi a primeira.
E fez um sinal de "joinha" para Yasmin.
Yasmin: “...”
Yasmin puxou o cobertor para cobrir o rosto.
Ótimo, agora o mundo inteiro sabia que ela tinha atropelado o futuro ganha-pão da empresa.
O cobertor foi puxado para baixo, revelando o rosto elegante de Simone. — Levante-se, vamos falar de coisa séria.
Ela pegou um bloco de notas e sentou-se diante de Yasmin. — Quando você estava em coma, ouviu ou viu alguma coisa?
Yasmin balançou a cabeça. — Nada.
Simone parou a caneta e olhou para ela com desconfiança. — Realmente nada?
— Ahn? — Yasmin coçou a cabeça. — Eu deveria ter ouvido ou visto algo?
— Não faz sentido... — murmurou Simone. — De acordo com o nível de atividade cerebral de vocês, deveriam ter entrado em um estado de sonho.
— Sonho? Que sonho?
Simone fechou o bloco. — A função do aparelho é estimular o cérebro através de uma série de sonhos, mas o sonho é aleatório; ele se ajusta conforme a situação do hospedeiro. Esse é o ponto incontrolável do aparelho no momento. Achei que, ao acordarem, obteríamos dados reais e eficazes para fornecer ideias para o desenvolvimento posterior.
Yasmin disse: — Quando acordei, senti que tinha esquecido algo. Seria esse sonho?
— É possível — disse Simone. — Você tem certeza de que sente que esqueceu algo?
Yasmin assentiu.
— Então fica mais fácil. — Simone levantou-se. — Acabei de perguntar ao Sr. Arthur, e ele me disse a mesma coisa.
— Isso deve ser um pequeno bug do aparelho. Provavelmente vocês vão se lembrar depois de um tempo. Descanse bem por enquanto e, assim que se lembrar, me avise imediatamente.
Vendo que ela ia sair, Yasmin a chamou: — Sra. Simone... eu ouvi dizer que o cachorro está com a senhora?
— Sim, ele acordou junto com vocês. Estou vendo se consigo pesquisar algo a partir dele.
Yasmin perguntou tensa: — A senhora não vai dissecar ele, né?
Simone olhou para ela como se olhasse para uma idiota. — Um organismo vivo tem obviamente mais valor de pesquisa do que um morto.
Yasmin ficou ainda mais tensa: — A senhora não vai usá-lo para experimentos esquisitos, vai?
Simone perdeu a paciência: — Yasmin, trabalhamos com desenvolvimento de equipamentos, somos uma empresa de pesquisa científica séria, não uma organização bizarra.
— Se você gosta tanto do cachorro, venha buscá-lo. Ele está quase destruindo a minha casa nestes últimos dois dias; minha paciência com ele chegou ao limite.
— Porém... — Ela parou na porta. — Você terá que negociar com o Sr. Arthur. Parece que ele também quer o cachorro.
Ela saiu e parou no corredor. No segundo seguinte, uma figura alta apareceu na porta. Ele parou, virou a cabeça para olhar para dentro e, contra a luz, sua expressão era vaga e sua voz profunda.
— Gabi, volte para jantar em casa à noite.
Ele fez uma pausa na última palavra, e seu olhar pareceu passar por Yasmin como se não fosse nada. Os óculos escondiam suas emoções, mas Yasmin sentiu o couro cabeludo formigar.
Claque—
A porta do quarto se fechou e o silêncio retornou.
Gabi sentou-se na cadeira de antes. — E então? Meu irmão não é bonitão?
Yasmin murmurou: — Realmente assustador, tão assustador quanto dizem os boatos.
Gabi: “...”
— Ele só fica o dia todo com aquela cara de enterro sem graça, o que tem de assustador nisso?
Yasmin esfregou os braços arrepiados. — Tudo nele é assustador, ok?
Ainda assim, o Arthur era mais fofo. Embora parecesse alguém que não gosta de sorrir, quando sorria era tão doce...
Espere...
Yasmin ficou confusa. Ela só tinha visto esse lendário Sr. Arthur uma única vez e de longe. Como ela sabia que o sorriso dele era doce?
Gabi deu um empurrão nela. — Por que está distraída?
— Nada... — disse Yasmin. — Que bom que você não me apresentou o seu irmão de verdade, senão eu teria pesadelos quando voltasse.
— Ahn? — disse Gabi. — Como você sabia que eu pretendia te apresentar ao meu irmão?
— Não foi você quem disse?
— Eu nunca te falei isso.
Yasmin ficou perdida. — Então por que eu sinto que já ouvi isso antes? Na hora eu morri de medo.
— Ei! — disse Gabi. — Meu irmão não é tão assustador assim! E você ainda gosta do Arthur Magalhães; você não viu como ele fica quando está sério, é muito mais assustador que o meu irmão.
— Mentira! — disse Yasmin.
Gabi: “...”
Ela comentou: — Falando sério, eu não tinha percebido que você era tão "caidinha" por ele.
Yasmin: “...”
— Você não ia comprar comida para mim? Vá logo, estou morrendo de fome.
Gabi não teve escolha. — Vou pedir um delivery.
— Não, eu quero aquele macarrão com carne da loja embaixo do hospital; eles não entregam.
— Senhorita Yasmin, eu devo ter te jogado pedra na cruz na outra vida. Quando você melhorar e ganhar dinheiro, se não me contratar oito modelos masculinos, eu não vou te perdoar.
— Oito? Vou contratar dez e te jogar no meio deles.
— ...
Gabi não tinha saído há dez minutos quando a porta bateu. Yasmin achou que ela tinha esquecido algo e correu feliz para abrir.
No momento em que viu a pessoa do lado de fora, seu rosto escureceu.
Ela olhou para as flores nos braços do homem com total repugnância. — Saia pela esquerda e suma daqui, ou eu chamo a polícia.
Fábio estava vestido de forma impecável, segurando as flores na porta. Ele até parecia um homem decente, mas as palavras que saíram de sua boca deram náuseas a Yasmin.
— Mais de um mês sem nos vermos, e sua boca continua desagradável.
Yasmin disse: — É, um mês sem te ver, e ver que você ainda está vivo é um azar tremendo.
O sorriso falso no rosto de Fábio sumiu instantaneamente. — Yasmin, você continua com essa língua afiada. Quero só ver por quanto tempo mais você vai conseguir rir.
Yasmin abriu um sorriso para ele. — Isso não é problema seu.
Ela tentou fechar a porta, mas Fábio a impediu com a mão. Ela havia acordado há apenas alguns dias e ainda não recuperara as forças; naturalmente, não conseguiu impedi-lo, e ele invadiu o quarto.
Yasmin recuou dois passos, olhando para ele com cautela. — O que você quer? Vou te avisando, aqui é um hospital.
Fábio colocou as rosas sobre a mesa. Ele dedilhou as flores vibrantes e olhou para Yasmin com um olhar leviano e vulgar.
— Yasmin, você não mudou, continua sendo aquela rosa cheia de espinhos. Você acha que sua amiguinha rica pode te ajudar por um momento ou pela vida toda? Desta vez você ofendeu o vice-presidente da
Huaiyuan
. Acha que o Gustavo e a Simone vão te manter na empresa?
Yasmin achava que aquele homem era um psicopata. — Se eles vão me manter ou não, não é da sua conta! Saia agora ou eu chamo a polícia.
— Polícia? — Fábio pegou o celular sobre a mesa. — Vai usar este aqui?
Ele sorriu. — Relaxa, vou dizer duas palavras e vou embora.
— Vim para compartilhar uma boa notícia: fui promovido a Diretor. Veja só, há seis meses você não hesitou em arruinar a própria reputação para levar aquela história até o Presidente. E qual foi o resultado? Foi expulsa da empresa como um vira-lata e ainda ficou com a fama de ter tentado me seduzir sem sucesso.
— Agora você atropelou o Arthur Magalhães. Com essa batida, o prejuízo que você causou à empresa do Gustavo não foi pouco. Você acha mesmo que o Gustavo é um filantropo? Ele dizer que você fica é apenas para manter as aparências; assim que a poeira baixar, você terá que sair com o rabo entre as pernas.
— A propósito, adivinhe: entre dois aparelhos quase iguais, o Arthur escolheria a empresa de quem o atropelou ou a outra?
Yasmin estava com o rosto gélido, sem querer ouvir as asneiras dele.
— Acabou? Se acabou, suma daqui.
— Você! — Fábio não esperava que ela fosse tão irredutível, mas ao ver a mão dela tremendo de raiva, ele sorriu novamente.
— Sabe, eu ainda gosto muito de você. Se você se comportar e ficar comigo, o cargo de Vice-Diretora será seu mais cedo ou mais tarde...
BUM—
Antes que ele terminasse a frase, um copo voou em sua direção. Se ele não tivesse desviado rápido, o copo teria acertado em cheio o seu rosto.
— Yasmin! — Fábio disse com ódio. — Acha que pode ser arrogante por quanto tempo? Agora o Arthur Magalhães acordou. Mesmo que o Gustavo não se importe, você acha que ele vai te deixar em paz? Você atropelou o filho único da família Magalhães; acha que a família dele vai deixar barato? Se ele der uma palavra, quem em toda a cidade ousaria...
Antes que ele terminasse, uma voz masculina fria e pausada ecoou na porta:
— Eu não sabia que tinha alguma palavra para dar.
Fábio virou a cabeça e deu de cara com um par de olhos de fênix profundos.
— Venha, me diga: como é que eu não vou deixá-la em paz?