Arthur conduziu o cachorro, ziguezagueando pela imensa mansão, até finalmente chegar à cozinha dos fundos.
Era cedo, e o cozinheiro encarregado das compras ainda não havia retornado, então o local estava praticamente vazio.
Alice estava encolhida em um canto discreto da cozinha. À sua frente, havia uma pilha de sementes de girassol descascadas pela metade, enquanto ela jogava um joguinho no celular com a cabeça baixa.
De repente, sentiu um calafrio nas costas. Ao virar a cabeça, deparou-se com um homem parado à porta.
O corpo alto de Arthur bloqueava quase toda a luz que entrava. Ele mantinha os olhos semicerrados e preguiçosos; seu olhar de fênix parou por um instante na tela do celular dela.
— Sua vida de empregada parece bem confortável.
Alice guardou o celular e lançou-lhe um olhar irritado: — Que susto! Achei que a supervisora tinha me pego matando serviço.
Brutamontes disparou das mãos de Arthur e pulou no colo de Alice. Ela acariciou o cão e perguntou a Arthur: — O que você está fazendo aqui?
Arthur puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dela. — Isso você tem que perguntar ao seu "filhão".
Alice segurou o rosto de Brutamontes e o apertou carinhosamente: — Que maldade um cachorrinho poderia ter? Ele só estava com saudades da mãe.
O homem ao lado permaneceu em silêncio, apenas arrastando sua cadeira milímetro por milímetro para mais perto dela. Seu olhar pousou no perfil de Alice e, vendo que toda a atenção dela estava no cachorro, ele não pôde evitar uma pontada de ciúme.
— Alguns cachorros ainda sabem sentir saudades da mãe, mas certas pessoas nem sequer pensam no namorado.
Alice soltou o cão e virou-se para ele. Devido aos esforços incansáveis de alguém, os ombros dos dois estavam encostados. Ao virar a cabeça, o rosto de Alice acabou mergulhando direto no peito do homem.
Um aroma quente e seco a envolveu naquela manhã.
Alice afastou o rosto, que, por algum motivo, estava levemente corado. Ela tentou se justificar: — Eu sou apenas uma empregada de baixo escalão, como ousaria aparecer diante do Grande Presidente sem ser chamada?
— Ah. — Arthur olhou para as sementes sobre a mesa. — Então você sabe que é uma empregada?
— E daí? — Alice rebateu. — Esta mansão tem dezenas de empregadas, o que tem de errado em eu descansar um pouco?
Arthur não conseguiu vencê-la no argumento. Ele segurou a mão dela e deu um aperto leve, nem muito forte nem muito fraco — como uma punição e, ao mesmo tempo, uma reclamação silenciosa.
Ele perguntou: — Você teve algum sonho nesses últimos dois dias?
Alice tentou puxar a mão, mas quanto mais força fazia, mais Arthur apertava. Não havia como soltar.
Ela olhou para ele; o homem mantinha uma expressão séria, olhando fixamente para a mesa à frente como se houvesse uma flor desenhada ali.
Tudo bem...
Ela deixou que ele segurasse sua mão e, com a outra mão livre, pegou um punhado de sementes e começou a descascar.
— Sonhos não tive, mas o cheiro de desinfetante está ficando cada vez mais forte. Sinto que nada do que eu como tem gosto ultimamente.
Seguindo o princípio de que "quem chega primeiro é o dono", ela colocou um punhado de sementes na outra mão de Arthur. — Por que a pergunta repentina?
Arthur olhou para as sementes em sua palma e, lentamente, colocou uma na boca.
— Não sei. Sinto que algo aconteceu enquanto eu dormia ontem à noite, mas quando acordei, não lembrava de nada.
— Um sonho?
Arthur balançou a cabeça: — Não tenho certeza. Só sinto que o pressentimento de que estamos prestes a sair daqui está ficando cada vez mais forte.
— Bem, isso é uma coisa boa, não é?
Alice olhou para o relógio: — Grande Presidente, se você não for agora, o pessoal das compras vai chegar. Se virem a gente sentado aqui, vai ser difícil explicar.
Ao ouvir isso, Arthur lembrou que ainda tinha algo a perguntar.
— Por que o Roteiro diz que seu rosto está diferente? E você até mudou de nome.
— Isso é algo que você não entende. Para sobreviver no mundo, é preciso ter vários disfarces...
Diante do olhar cético do homem, Alice abriu as mãos: — O Roteiro disse que mudou, então mudou. Eu já me aposentei daquele mundo de crimes. Não existe mais Cristal Real, nem "Sombra". Existe apenas a anônima Yasmin. Até o seu "filho" cachorro conseguiu...
— Tá bom. — Arthur a interrompeu. — Eu vou indo.
Alice semicerrou os olhos com um sorriso: — Ótimo. Vá com cuidado, não vou te acompanhar até a porta.
O olhar alongado do homem escureceu, focando nos olhos risonhos dela. — Você fica tão feliz assim quando eu vou embora?
— Não é isso... — Alice colocou a guia do cachorro na mão dele. — Aproveite e leve o seu filho com você.
Arthur: “...”
O canto de sua boca caiu instantaneamente: — Por que está me dando ele?
Alice apontou para cima: — O Roteiro mandou.
Arthur olhou para o alto.
【Diogo encontrou aquela mulher na cozinha, mas ela parecia tímida e submissa ao vê-lo, completamente diferente da mulher em sua memória. Ele devia estar louco para achar que eram a mesma pessoa.】
【No entanto, a criança dela era muito de seu agrado. Quando o menino disse que queria ir brincar com ele, Diogo, por um milagre, não recusou.】
Arthur parou à porta da cozinha, segurando o cachorro. — Vai me deixar ir embora assim?
Alice limpava as cascas de semente para não deixar rastros. Ao ouvir a pergunta, olhou para ele com estranheza: — E o que mais eu deveria fazer?
Achando que ele estava com preguiça de cuidar do cão, ela colocou as mãos na cintura e o repreendeu: — O que tem de mais em cuidar do seu próprio "filhinho" por um tempo? Eu tenho que trabalhar.
— Tudo bem. — Arthur suspirou. — Então chegue mais perto, quero te dizer uma coisa.
Alice aproximou o rosto: — Dizer o quê? Que mistério todo é esse para ter que che...
Sua voz parou abruptamente. Seus olhos se arregalaram levemente enquanto olhava para o homem ao seu lado.
Arthur afastou-se do rosto dela. Com as pontas dos dedos frias, ele colocou uma mecha rebelde do cabelo de Alice atrás da orelha.
— Cobrar um pouco de "juros" não é pedir demais, certo?
Foi só quando a silhueta esguia dele desapareceu de vista que Alice voltou a si. Ela tocou a bochecha; parecia que o toque de instantes atrás ainda permanecia ali.
Morno, seco, pousando levemente e depois partindo.
Quando Arthur voltou para a sala principal com o cachorro, viu uma pessoa sentada ao longe esperando por ele. Ao se aproximar, percebeu que era a mãe do dono original do corpo.
Ao vê-lo entrar, ela pousou a xícara: — Onde você estava logo cedo? Ninguém conseguia te encontrar.
Arthur jogou uma bolinha para o cachorro brincar sozinho e sentou-se à frente dela: — O que a senhora deseja?
A mulher ficou surpresa com o tom dele e disse: — Sou sua mãe, não posso vir te ver?
— Olhe para você, já tem idade suficiente e ainda não arrumou ninguém. Aquela... aquela... — Ela hesitou antes de continuar. — Aquela mulher foi embora há quantos anos? Se quisesse voltar, já teria voltado. Por que você continua esperando por ela?
O homem à sua frente vestia apenas uma roupa caseira simples, mas sua aura era fria e impunha uma pressão invisível. Ele ergueu os olhos e lançou um olhar indiferente para a mulher.
— Se a senhora não tivesse dado ideias para aquela pessoa, ela não teria ido embora.
— O que você quer dizer com isso? — A mulher levantou-se, com a voz aguda. — Por acaso fui eu que incentivei a Verônica a sequestrá-la? Diogo, eu sou sua mãe! É isso que você pensa de mim?
Arthur respondeu: — Se a senhora precisar, posso colocar todas as evidências que coletei bem na sua frente.
— Eu acho que você enlouqueceu! — exclamou a mulher. — Que feitiço aquela maldita jogou em você? Cinco anos se passaram e você ainda não a esqueceu. Você sabe que a Verônica te esperou por cinco anos inteiros? Quantos "cinco anos" uma garota tem para desperdiçar?
— Eu pedi para ela esperar? — Arthur olhou para ela e disse friamente: — Deixei claro desde o início que não nutria sentimentos por ela. Sem mencionar que ainda não a cobrei pelos erros do passado, a vontade própria dela agora é culpa minha? Ela sabia que não haveria resultado, por que insistiu em esperar? Agora quer usar a moralidade para dizer que sou insensível, como se tudo fosse culpa minha.
— Você... — A mulher não esperava por essa resposta. Seu rosto ficou verde de raiva. — Como pode ser tão frio? Ela é a "irmã" que cresceu com você! Você tem coragem de vê-la desperdiçar a juventude por sua causa?
— Desperdiçar a juventude? — Arthur sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos.
— Primeiro: eu não dei esperanças a ela. Segundo: não interferi em sua liberdade. Se a senhora acha que ela está desperdiçando a juventude, deveria apresentá-la a outra pessoa em vez de vir chorar aqui. Se ela mesma não se ama, como espera que os outros a amem? Ela é adulta, não uma criança. O amor nunca é a coisa mais importante da vida; quem o coloca acima de tudo acaba sendo o único ferido no final.
Ele suspirou, sem querer mais gastar saliva.
— Minhas palavras encerram-se aqui. Diga a ela: nunca ficaremos juntos nesta vida. É melhor ela desistir. Quanto mais esperar, mais tempo ela estará desperdiçando.
— Ótimo! Muito bem! — a mulher gritou, furiosa. — Você também não respeita mais a sua mãe?
Arthur baixou os olhos: — A senhora também não me respeita, não é? Quer decidir com quem devo ficar sem sequer perguntar minha opinião.
A mulher travou.
— Pelo visto, a senhora não veio aqui por preocupação genuína — concluiu Arthur. — Mordomo, acompanhe a visita até a saída.
O mordomo aproximou-se trêmulo: — Senhora... veja bem...
A mulher pegou sua bolsa: — Não precisa me expulsar, eu vou sozinha. Algumas pessoas acham que já criaram asas e não precisam mais ouvir a própria mãe.
Dito isso, ela saiu sem esperar resposta. Ao passar pelo jardim, viu o Brutamontes brincando com a bolinha. Ela parou e acenou para ele.
— Ei, garotinho, venha cá.
O "garotinho" Brutamontes, com a bola na boca, inclinou a cabeça. Seus meses de vida nas ruas o ensinaram que aquela tia com cara de brava não era boa coisa. No entanto, uma força misteriosa o empurrou em direção a ela.
A mulher acariciou a cabeça dele: — De quem você é filho? Que gracinha.
—
Auuuu!
Mamãe, eu sou da mamãe.
O olhar da mulher mudou ligeiramente: — Quem é a sua mãe?
Brutamontes inclinou a cabeça.
—
Wuuu...
A que está lá dentro é a mamãe, mas ela está com o rosto do papai. Nem o Brutamontes sabe mais quem é quem.
Ao ouvir os ganidos, a mulher soltou a cabeça do cão com um ar de desprezo: — Ah, então é filho de alguma empregada de baixo nível. Desde quando esta mansão virou lugar de qualquer um trazer criança?
O mordomo, atrás dela, limpou o suor frio: — Senhora, na verdade, esse menino deveria ficar nos fundos, mas o Presidente o achou fofo e permitiu que brincasse aqui. — Ele hesitou: — Se a senhora não gostar, farei com que ele não apareça mais.
A mulher observou o rosto do cão por um momento: — Esqueça, deixe como está. A mãe pode não valer nada, mas o rosto dessa criança é até bonitinho. E não é que o nariz e os olhos lembram um pouco o Diogo quando era pequeno?
O desprezado Brutamontes: “...”
—
Wauuu!
Falou mal do meu papai, vou te morder, hein!