À uma da manhã, até o mastim que guardava a mansão ao lado já estava dormindo, mas Arthur continuava acordado. Ele andava em círculos pela sala vazia, sentindo várias vezes o impulso de tocar a própria testa, mas temia estragar algo; no último segundo, sempre recolhia a mão. O homem alto, vestindo um pijama preto, deu mais três voltas antes de morder os lábios com um toque de timidez e subir as escadas.
O quarto estava silencioso, iluminado apenas pelo brilho fraco de uma luminária de cabeceira. Sob os contornos borrados da luz, ele viu o vulto de um pequeno corpo sob os lençóis. Alice dormia profundamente. Devido à doença, sua postura ao dormir estava muito mais contida do que o habitual; ela estava de lado e não se mexera por um longo tempo. Por isso, ela nem percebeu que Arthur estava parado ao lado da cama, observando-a como um verdadeiro maníaco.
Arthur usou a luz da luminária para medir a temperatura dela novamente. Desta vez, ele aprendera no Google como ler um termômetro de mercúrio. Após estudar o objeto contra a luz por um tempo e confirmar que a febre realmente cedera, seu coração finalmente se acalmou. Mesmo após a medição, ele não saiu. Em vez disso, sentou-se na cadeira ao lado da cama, observando silenciosamente o rosto de Alice enquanto ela dormia.
Ele já conhecia bem o quão "rebelde" Alice era ao dormir. Ela costumava transformar o cobertor em uma bola sobre o corpo, de modo que era impossível distinguir onde era a cabeça ou os pés. O rosto dela, do tamanho da palma de uma mão, estava pressionado contra a coberta, metade afundado no travesseiro. Seus cílios densos e curvados tremiam levemente com a respiração, e as bochechas ainda mantinham um tom avermelhado devido à febre.
Como se sentisse alguém a observando, Alice franziu a testa inquietamente e virou-se. Com o movimento, a mão que estava sob as cobertas deslizou para fora, ficando na borda da cama. O olhar de Arthur caiu sobre aquela mão — uma mão bonita, clara e delicada. Mas agora, aquela mão que deveria ser protegida com todo o carinho estava cheia de hematomas ao redor do pulso, alguns até com a pele esfolada; marcas deixadas pelas cordas vermelhas que a prenderam. As pontas dos dedos estavam pálidas e enrugadas pelo contato com a água, e havia vários arranhões de origem desconhecida — não eram profundos, mas se destacavam naquela pele que parecia porcelana branca.
Arthur sentiu um golpe no peito, uma dor surda que o deixou sem fôlego. Ele estendeu a mão, pairando-a sobre o pulso dela. Ele queria acariciar aquelas feridas que feriam seus olhos, mas temia machucá-la mais, então apenas segurou a mão dela naquela posição estranha. Parecia que só assim ele se sentiria um pouco melhor.
Ela lhe perguntara— — Mas do que você gosta em mim? Naquele momento, ele não soubera responder. Gostar é apenas gostar; é um sentimento, e sentimentos são coisas abstratas e misteriosas para as quais ele não encontrava uma explicação lógica.
Até agora, olhando para aquelas feridas, ele ainda não entendia exatamente do que gostava nela. Se tivesse que dar um motivo, talvez fosse este— Quando ele lhe pedira desculpas, ela escondera discretamente a mão ferida atrás das costas e dissera, sorrindo, que a culpa não fora dele. Ela sempre fora rápida com as palavras, então transferira a culpa para o destino com facilidade. Para ela, tudo o que aconteceu fora apenas uma coincidência cósmica, nada que tivesse a ver com ele. Para ela, fora apenas um pouco de chuva e um mergulho no mar. Ela ignorou a dor das cordas ásperas esfolando a pele e transformou até a maldade daqueles que puxaram seu cabelo em meras trivialidades.
Sob o olhar dele, a mão na borda da cama subiu para coçar o rosto e depois voltou para o travesseiro, revelando um pouco de pomada que não fora totalmente espalhada. Era a pomada que Alice encontrara na maleta de primeiros socorros depois que ele saíra do quarto. Ele podia imaginar a cena: Alice curvada, ignorando a dor enquanto passava o remédio em si mesma, até que, exausta, acabou adormecendo antes de terminar de espalhar o creme.
O silêncio reinou no quarto por um longo tempo. O homem sentado à beira da cama não se movia, como uma estátua congelada. Finalmente, um suspiro profundo ecoou no quarto. Arthur inclinou-se, pegou a mão dela e, com extrema delicadeza, começou a espalhar o restante da pomada, centímetro por centímetro. Sua voz era muito baixa, como se falasse para si mesmo, ou para ela ouvir em seus sonhos. — Alice... — No começo, quando ainda não tínhamos trocado de volta, eu só pensava em como destrocar. Depois que conseguimos, vendo você assim, de repente eu não queria mais. — Se eu soubesse que destrocar traria esse resultado, preferiria que nunca tivesse acontecido. Eu preferia carregar todo esse sofrimento sozinho. — Chame-me de arrogante ou machista, mas eu só queria que você fosse feliz. Esse negócio de "fugir com o bebê" parece muito cansativo. Se for possível, deixa que eu fujo por você, pode ser?
O quarto continuava em silêncio; ninguém respondeu. A mulher adormecida apenas roçou o rosto contra as costas da mão dele e afundou em um sono ainda mais doce. Uma risada baixa escapou da garganta do homem, visivelmente satisfeito com o gesto dela. Ele sorriu levemente, mantendo a voz suave. — Já que você não disse nada, vou fingir que aceitou, está bem?
Ele segurou a mão dela e, de forma gentil, lenta e inabalável, entrelaçou seus dedos nos dela. A palma larga do homem envolveu a mão da mulher em um gesto inquestionável, como se tivessem nascido para se encaixar daquela forma.
O dia seguinte amanheceu ensolarado. Devido à tempestade da noite anterior, o céu estava excepcionalmente azul e o ar trazia o frescor da terra molhada. No jardim, os botões de rosa desabrochavam silenciosamente. Em suma, era um dia maravilhoso.
Alice acordou quase às dez da manhã. Ela se sentou na cama, encarando a coberta escura sobre si, mergulhada em uma profunda confusão.
Por que essa coberta parece familiar e estranha ao mesmo tempo? A coberta do meu quarto não era aquele modelo de flores azuis, fresco e alegre? Que diabos é essa coisa cinza?
Ela segurou o tecido, analisando-o por alguns segundos.
Céus!
Isso não parece a coberta do quarto do Arthur?
Será que minha memória falhou? Eu não dormi no meu quarto?
Então, como um Sherlock Holmes, ela descobriu o ponto cego. Alice olhou para as mãos longas e esguias diante de seus olhos, virando-as de um lado para o outro. Então, jogou a coberta para o lado, revelando o pijama preto que lhe era familiar e estranho ao mesmo tempo. O colarinho do pijama fora desabotoado durante o sono, revelando um abdômen perfeitamente definido. Alice: “...”
Alice ainda não estava totalmente desperta, mas sua mão agiu por instinto e tocou o abdômen. Ela apalpou, sentindo-se profundamente impressionada com aquela textura maravilhosa, mas sua moral a fez recolher a mão logo em seguida. Porém, logo pensou que já havia "selado" aquele corpo. Se ela carimbara, significava que era dela. Se o homem era dela, o que tinha de errado em tocar o abdômen? Alice, sentindo-se cheia de razão, colocou a mão ali novamente e deu uma risadinha maliciosa e perversa.
Após a inspeção, ela saiu da cama e, ao ver no espelho aquele rosto que já conhecia bem, coçou a cabeça, confusa.
Ué, por que trocamos de novo? A gente nem fez nada ontem!
Sem conseguir entender o mistério, ela decidiu sair para discutir o assunto com Arthur. No entanto, a mansão estava vazia; nem sinal do homem. Alice correu para o seu próprio quarto, mas não encontrou nada.
O quê? Cadê ele? Cadê aquele meu namorado grandão?
Por fim, ela encontrou um bilhete na penteadeira de seu quarto, com duas palavras escritas em letras grandes:
"Fui embora."
Vá para o inferno!
Alice segurou o bilhete, tremendo de raiva.
Maldito cafajeste! Declarou-se ontem e fugiu hoje!
BIM—
【Dom Diogo jamais imaginou que Cristal Real iria embora. Como ela ousava fugir pelas costas dele? Mulher maldita! Será que ela esqueceu o contrato que assinaram? Ela nem terminou de cumprir suas obrigações e já ousa escapar de seu lado?】
【Será porque ele escolheu Aurora? Mas Aurora tem problemas cardíacos e não suporta emoções fortes. Além disso, ele já tinha tudo planejado; ela nunca estaria em perigo real.】
【Essa mulher maldita... como pode ser tão irracional? Ela realmente acha que Dom Diogo é um palhaço que ela pode manipular como quiser?】
【Dom Diogo joga o bilhete que ela deixou no chão, furioso, e jura que nunca mais verá essa mulher na vida!】
Alice: “...” Olhando para as palavras no Roteiro, Alice sentiu um constrangimento que não sentia há muito tempo. Ela começou a recolher lentamente os pedaços do bilhete que acabara de rasgar em sua fúria.
Desculpe, acordei meio agitada e esqueci que hoje era o dia da MINHA fuga.
Alice deu uma tossidinha, retirando mentalmente sua acusação de que Arthur era um cafajeste.
Ela começou a revirar a mansão em busca do celular esquecido. Após percorrer quase toda a propriedade, descobriu que o aparelho estava na cabeceira da cama de Arthur. Alice pegou o celular, confusa.
Ué? Este não é o MEU celular? Por que estaria na cabeceira do Arthur? Ou será que, antes de fugir, ele trocou os celulares discretamente sem me acordar?
Tenho que admitir, o cara é bem atencioso.
Alice ligou para ele. Ninguém atendeu. Pensou um pouco e tentou uma chamada por vídeo no WeChat. Desta vez atenderam. Ao ouvir sua própria voz vindo do outro lado da linha, Alice travou por um segundo antes de perguntar apressadamente: — Onde você está? A voz de Arthur veio fraca e sem fôlego: — No avião. Conectado ao Wi-Fi.
— Fugiu mesmo, é? — E o que mais eu poderia fazer? Alice sentiu que estava falando o óbvio. — Não, o que eu quero dizer é: por que trocamos de novo? Estava tudo bem ontem! — Eu não sei... — Arthur estava de olhos fechados, encostado no assento, com a sensação de que morreria a qualquer momento. — Acordei e já estava assim. No meio da noite, o Roteiro me forçou a comprar a passagem e fugir da mansão sem alertar ninguém.
Alice sentiu uma breve ponta de pena por ele, mas logo percebeu que o estado dele não era normal. — O que foi? Por que sua voz parece tão fraca? — Eu... Arthur franziu a testa, em agonia: — Eu... acho que... Antes que pudesse terminar a frase, uma onda de náusea subiu ao seu peito.
—
BLEURGH...
— Alice: “...”