Ao ouvir o que Alice disse, o homem no centro levantou seus olhos sombrios e a encarou: — O quê? Ficou feliz em ver que eu não morri?
Feliz não seria a palavra, mas surpresa, com certeza.
Mas, pensando bem, fazia sentido; em todo o tempo que estava ali, ele era a única pessoa que ela realmente havia prejudicado.
A tempestade entrava pelas portas do armazém, e o homem estava quase completamente encharcado. Ele não parecia se importar; apenas segurava a lanterna, aproximando-se passo a passo de Alice e Aurora de Neve. Aurora recuou dois passos, tremendo: — Quem... quem é ele? Embora não quisesse admitir, Alice soltou um suspiro profundo: — É o meu pai.
— O quê?! — Aurora ficou em choque. — Por que o seu pai te sequestraria? E eu? Não tenho nada contra vocês! Por que me sequestraram? Ao ouvir isso, Heitor Real soltou uma risada de escárnio sem piedade. Devido ao longo período de perseguição, ele parecia um rato de esgoto que vivia se escondendo; estava extremamente magro, com as bochechas encovadas e um olhar carregado de ressentimento e frustração. — Srta. Aurora, chegamos a este ponto. Não há necessidade de continuar fingindo, não acha?
Hein?
Alice piscou, olhando instintivamente para Aurora ao seu lado. Para sua surpresa, a corda que parecia estar apertadíssima em Aurora caiu com um simples puxão. Aurora soltou as mãos e sorriu com indiferença: — Que patético, ser traída pelo próprio pai biológico em conluio com outra pessoa. Eu me pergunto: de onde você tirou coragem para tentar roubar o meu irmão Diogo de mim? Originalmente, meu plano era te picar em pedaços e jogar para os tubarões. Mas depois pensei... que tal deixar meu querido irmão Diogo te jogar lá embaixo?
Alice arregalou os olhos: — Você mandou gente me seguir? Agora fazia sentido. A ideia de ir à empresa ver Arthur fora de última hora; como alguém poderia estar lá justamente no momento em que ela desceu do carro para nocauteá-la? — A culpa é da sua própria burrice. Mas estou curiosa: se o Diogo tiver que escolher entre nós duas, quem você acha que ele escolhe?
Alice não precisava adivinhar para saber a resposta. O que ela não esperava era que aquela garota, que parecia tão frágil, tivesse um coração tão perverso. Por causa de um homem, ela se aliou a Heitor Real para armar aquele sequestro.
Heitor aproximou-se dela, jogando a luz forte da lanterna diretamente em seu rosto. Ele viu os olhos dela se fecharem pelo impacto da luz, e o ódio preencheu seu peito. — Vagabunda! Eu te dei a vida, eu te criei, e agora que você subiu na vida, está doida para ver o seu pai morto? Alice estava quase cega pela luz, mas conseguiu responder seguindo as falas do Roteiro: — Eu não sei de nada! Foi... o Dom Diogo quem decidiu tudo, não tem nada a ver comigo! Eu não mandei ele fazer nada!
Heitor levantou o pé e deu um chute violento em Alice. Se ela não tivesse sido rápida o suficiente para proteger o ventre com os braços, o bebê poderia ter morrido ali mesmo. Ela rolou pelo chão de forma deplorável e tentou se levantar, mas não conseguiu. O estado dela pareceu dar prazer a Heitor: — Um ingrato é sempre um ingrato. De que adiantou se agarrar ao Dom Diogo? Agora você está nas minhas mãos para eu fazer o que quiser. Que desperdício você ter o sobrenome Real. Como minha família produziu algo tão desalmado quanto você?
Ele se agachou diante de Alice, puxando-a pelo cabelo para forçá-la a encará-lo. Ao ver o rosto dela contraído de dor, ele exibiu um sorriso satisfeito. — Você acha que ele realmente te ama? Que faria qualquer coisa por você? Hoje eu quero ver: diante da irmã de criação que cresceu com ele, quem ele vai escolher?
Alice soltou-se da mão dele e não aguentou: — Você tem algum problema mental? Se a sua empresa faliu, a culpa é sua. O que você fez daria para escrever um código penal inteiro! O Dom Diogo só juntou as provas e entregou para a polícia. Quem está te punindo é a lei, é a justiça e os seus próprios crimes, não ele! — CALA A BOCA! — Heitor rugiu. — Se ele não tivesse entregue aquilo, se não tivesse pressionado a polícia, eu nunca estaria assim! Quem ousaria tocar em Heitor Real sem o aval dele?
Alice achou que ele era o cúmulo do irracional. Pessoas assim sempre culpam os outros e nunca refletem sobre os próprios atos. Heitor, porém, não ouvia nada. Ele olhou para Alice encolhida no chão e levantou-se, limpando as mãos. — Você não acha que ele me destruiu por amor a você, acha? Vou te dizer: a coisa mais ridícula do mundo é o sentimento de um homem. Acho que a sua mãe sabia disso melhor do que ninguém.
Por isso aquela mulher foi tão decidida ao deixá-lo.
Naquela época, ele até pensava que, se ela implorasse, ele poderia dar a ela o título de Sra. Real. Mas ela não o fez; ela sequer olhou para ele antes de desaparecer. Mais tarde, ele usou seu talento para subir na hierarquia. Que tipo de mulher ele não podia ter? Incontáveis mulheres subiram em sua cama sabendo que ele era casado. Ele era feliz! Extremamente feliz! Mas só ele sabia que, ao ver a filha dela crescer e ficar cada vez mais parecida com a mãe, o ressentimento em seu coração crescia como trepadeiras venenosas.
O mundo dizia que Heitor Real era frio e devasso, mas ele sabia que a pessoa verdadeiramente fria não era ele. O que ele não esperava era ser traído pela filha dela, que o fez viver como um rato de esgoto nessas últimas semanas, escondendo-se com medo da polícia. Se Aurora não tivesse aparecido com aquela proposta de negócio, ele não saberia até quando teria que se esconder.
— Adivinha... — ele disse para Alice. — Se eu fizer o Dom Diogo escolher, quem ele escolhe? Você, uma bastarda que ele conhece há poucos meses? Ou a irmã de criação que cresceu ao lado dele? Ele começou a rir de forma neurótica: — Falando assim, estou até ansioso para ver o resultado...
Aurora levantou-se e pediu para um dos capangas amarrar suas mãos novamente. — Cristal, agora você vai provar o gosto de ser abandonada pela pessoa que mais ama.
Alice olhou para a escuridão lá fora e pensou que aqueles dois eram simplesmente loucos. A chuva apertou ainda mais. Uma mordaça de pano foi enfiada na boca de Alice, e ela foi arrastada brutalmente para fora. Assim que cruzou a porta do armazém, a chuva a atingiu em cheio. O céu estava negro, sem um pingo de luz, exceto pelo feixe das lanternas balançando na noite.
Só então ela percebeu que estavam à beira-mar. Ela e Aurora foram empurradas para a borda de um píer de pesca. Abaixo delas, a água do mar rugia furiosamente; a chuva parecia uma fera pronta para devorar corações humanos.
Faróis de carro cortaram a noite chuvosa e pararam diante deles. Arthur abriu a porta e desceu correndo. Ao ver o rosto pálido de Alice, sua expressão tornou-se sombria. — Solte-a! — Soltá-la? — Heitor riu. — De quem você está falando? Da minha querida filha? Ou da sua querida irmãzinha? Só então Arthur percebeu que havia outra pessoa amarrada ao lado dela. — O que você quer? — perguntou ele. — O que eu quero? — O rosto de Heitor tornou-se grotesco naquele instante. — O Presidente Dom Diogo tem a memória curta. Antes de perguntar o que eu quero, por que não pergunta a si mesmo o que você fez?
A chuva desta noite era ainda mais pesada do que a da noite em que Arthur pedira dinheiro. Ele limpou a água do rosto e seu olhar esfriou gradualmente. — Solte as duas. Diga a sua condição.
Infelizmente, Heitor não se abalou. — Você não destruiu a família Real por causa dessa minha filha barata? Agora, se eu te disser que você só pode escolher uma, e a que não for escolhida será empurrada daqui para a morte neste oceano? Ele fixou o olhar em Arthur, não querendo perder nenhum detalhe de sua expressão. — Você vai escolher minha querida filha ou a irmã que te acompanhou por mais de dez anos?
— Eu... — Assim que Arthur abriu a boca, o Roteiro soou oportunamente.
BIM—
【Dom Diogo não esperava que Heitor fizesse um pedido tão vil. Heitor não se importava mais em viver; ele apenas queria ver Diogo mergulhado na agonia de uma escolha impossível.】
【Diogo estava em sofrimento extremo. De um lado, a mulher que ele mais amava; do outro, a irmã que cresceu com ele. Ambas eram preciosas. Como ele poderia escolher?】
【Sim, ele amava profundamente Cristal, é verdade. Mas Aurora sofria de uma doença cardíaca grave desde a infância; se não fosse escolhida e fosse jogada ao mar, ela certamente morreria.】
A chuva caía cada vez mais forte. O corpo frágil de Aurora parecia indefeso em meio ao temporal. Como ela não estava amordaçada, seus soluços chegavam aos ouvidos de Arthur através da cortina de água. — Irmão Diogo, não se preocupe comigo. Escolha a Cristal. Você sabe que eu tenho problemas cardíacos e já sou uma pessoa marcada pela morte. Eu aceito morrer por você.
Alice estava com a mordaça na boca e não conseguia falar. Após alguns "mmuh", ela tentou empurrar o pano com a língua. Na teoria dela, aquilo deveria ser impossível de tirar. Afinal, em todas as novelas que ela assistira, ninguém nunca conseguia cuspir aquilo. Mas o fato foi que, assim que ela moveu a língua, a mordaça simplesmente saltou para fora da boca. Ela ficou ali, de boca entreaberta, recebendo um gole generoso de água da chuva.
A cena ficou um tanto... constrangedora. Diante dos olhares surpresos de todos, Alice cuspiu a água e disse, hesitante:
— Que tal... você escolher ela primeiro? —