— Isso não seria um pouco... inapropriado? — Alice hesitou. Sob a luz do poste, o homem agachado à frente dela virou a cabeça. Suas pupilas não eram puramente pretas, mas de um tom castanho-âmbar, onde se refletia a imagem desajeitada de Alice na ponta dos pés. Arthur sugeriu: — Quer que eu chame um carro, então? Você não pode subir a pé desse jeito.
Alice quis dizer que subir assim não era um problema; na época em que levava surras da mãe, ela era capaz de correr descalça por um quilômetro inteiro. Mas, ao abrir a boca, a frase mudou para: — São pelo menos dez minutos de caminhada. Você aguenta?
A resposta foi um bufo desdenhoso de Arthur. O sorriso frio no canto de sua boca demonstrava total insatisfação com a dúvida de Alice. Ela coçou o nariz e, por algum impulso inexplicável, subiu nas costas dele.
O vento noturno era suave, e o som dos grilos ficava cada vez mais distante. Em compensação, o próprio batimento cardíaco de Alice soava cada vez mais forte e apressado em seus ouvidos — tão apressado que ela temeu que o homem que a carregava pudesse ouvir. Alice apoiou as mãos levemente nos ombros dele e inclinou o corpo para trás, tentando criar uma distância para não ficarem colados demais.
Arthur caminhava de cabeça baixa. Suas mãos seguravam as pernas de Alice e, mesmo através do tecido, ele sentia o toque sob suas palmas: quente, macio, a temperatura de outra pessoa. Aquelas partes que ele evitava olhar ou tocar quando estava no corpo dela, agora, de volta ao seu próprio corpo, ele estava tocando. Ele começou a se arrepender de não ter chamado o carro. O que importava se eram dez minutos? Ele era o homem mais poderoso do mundo, tinha carros incontáveis na garagem e o motorista era pago para trabalhar.
— Arthur. A voz súbita de Alice interrompeu seus pensamentos. Ele soltou um suspiro imperceptível. — O que foi? Alice estava apenas puxando assunto para quebrar o silêncio. Olhando para as sombras densas das árvores ao redor, ela não sabia o que dizer, então soltou: — Você é natural de C-City?
— Pode-se dizer que sim. Mas fiz faculdade no exterior e trabalhei lá por um tempo. Só voltei ao país um dia antes do acidente. Alice sentiu-se um pouco culpada: — Então eu realmente te prejudiquei. Você mal voltou e já teve que encarar essa situação. O homem deu uma risada curta e leve, que soou estranhamente terna. — É uma experiência bem exótica. Afinal, se não fosse por você, eu nunca saberia que esse tipo de coisa existia no mundo. Além disso, você já disse: você bateu em mim porque tentou salvar um cachorro que brotou do nada. Ajudar animais não é um erro; só podemos culpar a nossa falta de sorte.
A posição inclinada para trás era cansativa, então Alice desistiu e deitou-se nas costas dele, balançando as pernas. — Você não fica bravo? Se fosse comigo, eu estaria furiosa. A vida de um cachorro não é mais importante que a de um humano. Quando ela se encostou, Arthur travou por um instante. O vento soprou em suas orelhas, deixando as pontas levemente vermelhas. Ele tossiu: — Primeiro, você não sabia que eu ia dobrar a esquina, então não houve uma escolha consciente. Segundo, às vezes, o valor de certas pessoas não chega nem ao de um cachorro. Alice riu: — Você tem razão. — Ela continuou: — Na verdade, não é que eu seja uma santa. É que aquele cachorro parecia ter só uns quatro ou cinco meses, era um bebê, todo desajeitado... passar por cima dele seria uma crueldade sem tamanho.
— É, você está certa. — Arthur deu um impulso para ajeitar Alice, que estava escorregando. — Por você ser tão bondosa, acho que podemos renegociar os termos da indenização. Hein? Hein?! Alice agarrou o pescoço dele e aproximou a cabeça: — O que você disse? Eu ouvi bem?
A cabeça dela aproximou-se bruscamente, quase colando o rosto no dele. Seus cabelos negros caíram sobre as bochechas de Alice e sobre o peito dele. Arthur sentiu o cheiro do perfume dela — um aroma amadeirado leve com notas de camomila, levemente amargo. O passo de Arthur parou. O som do vento era como o barulho em seu coração, deixando-o atordoado por um longo tempo. Alice balançou a mão na frente dele: — O que houve? Vai me dizer que quer voltar atrás? Arthur demorou a reencontrar a voz: — Não. — Então você foi tocado pelo meu ato heróico? O homem desviou o olhar, parecendo sorrir: — Se você quer colocar dessa forma, que seja. — E quanto pretende reduzir? — perguntou Alice. — Depende do seu comportamento — respondeu ele. — E como eu devo me comportar? — Por exemplo... — Arthur fez uma pausa. — Comece afastando a sua cabeça.
Só então Alice notou que a vermelhidão já subia pelo pescoço dele. — Estamos muito perto, está calor — explicou ele. Alice obedeceu e afastou a cabeça. Olhando para as pontas das orelhas dele, que estavam escarlates, ela sentiu a cabeça girar. O vento soprou, mas não a despertou; pelo contrário, ela se sentiu ainda mais zonza. — Arthur... Ela abriu a boca para falar, mas foi interrompida. — Chegamos.
Ela percebeu que já estavam no portão da mansão. O mordomo, extremamente dedicado, esperava por eles e arregalou os olhos ao ver Arthur carregando Alice nas costas. Arthur colocou Alice no chão e disse ao mordomo: — O sapato dela quebrou. Por favor, traga um par de chinelos. O mordomo correu para buscar.
Arthur ficou ali, apoiando Alice. Mesmo depois de carregá-la por dez minutos, ele não parecia cansado nem ofegante. Apenas o rubor causado pelo "calor" em seu rosto ainda não havia desaparecido. Ele mantinha os lábios cerrados, com movimentos um tanto desajeitados, e seus cílios retos tremiam enquanto ele olhava para baixo. Alice, observando-o, só conseguia pensar em uma palavra:
Puro.
Embora não fosse o termo mais comum para um homem de vinte e poucos anos, era o único que cabia perfeitamente nele naquele momento. Tão puro que, se ela ousasse dar um beijo nele, ele provavelmente morreria de vergonha ali mesmo. Finalmente, Arthur criou coragem para olhar para ela. — O que você ia dizer agora há pouco? Alice pensou que, se dissesse o que estava pensando, ele provavelmente fugiria da cidade naquela mesma noite. Ela balançou a cabeça: — Esqueci.
Após duas semanas de treino intenso, os gomos do abdômen de Arthur finalmente voltaram. Ele olhou para o próprio abdômen definido no espelho, não resistiu e passou a mão, depois pegou o celular e tirou uma foto. É preciso admitir que o jovem mestre Arthur tinha um ótimo senso de iluminação e ângulo; na foto, os músculos pareciam potentes sem serem vulgares, e a luz do sol parecia um toque suave sobre eles. Instintivamente, ele quis enviar a foto para Alice, mas a razão o deteve no último segundo. Ele apertou o botão de voltar, colocou o celular virado para baixo na cama e pensou que devia estar ficando louco. Se Alice visse aquilo, era capaz de processá-lo por assédio.
Alice nem imaginava o que estava perdendo. Enquanto Arthur acordava cedo para correr ao redor da mansão, ela dormia; enquanto Arthur puxava ferro à noite, ela namorava o aplicativo de entrega de comida; enquanto Arthur controlava a dieta, ela pedia para a cozinheira servir mais um pouco de arroz... Até que, finalmente, ela percebeu que engordara. Alice parou em frente ao espelho, observando a barriguinha levemente saliente, e entrou em profunda reflexão.
Socorro, eu realmente engordei. Maldito seja esse sedentarismo!
Ela rangeu os dentes, cancelou o frango frito e o chá de bolhas do carrinho de compras e decidiu que, na manhã seguinte, acompanharia Arthur em sua corrida.
Mas ela subestimou sua própria força de vontade. Quando Arthur terminou de correr e já estava tomando café, foi que ela finalmente levantou da cama.
O homem já não se surpreendia mais. Ele empurrou o leite de soja para o lado dela: — Hoje eu te levo para a faculdade.
Alice bocejou e piscou os olhos. — Hein? Arthur pensou em como explicar a situação: — O resumo é o seguinte: aquela sua "irmã" que muda de personalidade virou aluna da sua faculdade.
Ela me pediu para levá-la para fazer a matrícula. — E o que eu tenho a ver com isso? — Dom Diogo achou que, já que vai levar uma, leva logo as duas de uma vez.
Claro, se o Dom Diogo realmente pensava assim, ninguém sabia.
Assim que ele terminou de falar, uma figura apareceu na porta.
— Diogo... A voz de Aurora de Neve (Shangguan Xuerou) era doce como água.
Ao ver Alice sentada à frente de Arthur, seus olhos se arregalaram em descrença e sua voz subiu um tom, ficando estridente: — O que você está fazendo aqui?
Arthur olhou para ela, achando aquela reação em público muito indelicada: — Ela é minha noiva. Por que não poderia estar aqui?
Aurora bateu o pé, bufou e lançou um olhar mortal para Alice.
Ela caminhou e sentou-se ao lado de Arthur. — Diogo, este café da manhã foi preparado para me esperar?
Arthur engoliu o último pedaço de sanduíche e disse: — Não, este é dela.
O rosto de Aurora distorceu-se visivelmente.
Ele explicou calmamente: — Você não tomou café em casa antes de vir?
Achei que tivesse tomado. — Afinal, ele nunca vira ninguém ir à casa dos outros especificamente para tomar café da manhã.
Aurora forçou um sorriso: — É que eu não queria me atrasar. Eu sei que você odeia impontualidade. — Ah — respondeu Arthur, e não disse mais nada.
Alice baixou a cabeça, quase explodindo de rir.
Será que o Arthur nasceu com um dom natural para anular garotas sonsas?
Como ele conseguia, com frases tão casuais, quase matar a pessoa de raiva?
Talvez por ela estar parada ali há muito tempo sem se mexer, Arthur comentou: — Alice... quer dizer, Cristal, a aula começa em meia hora. Você pretende ficar de castigo no corredor?
Alice: “...”
Pois é, ele não anula só as sonsas, anula a mim também.
Ela sentou-se rapidamente e deu um gole no leite de soja.
Aurora de Neve ajeitou o cabelo, olhando para ela com desprezo: — Meu Deus, você bebe leite de soja? Que
low profile
. Eu e o Diogo nunca bebíamos esse tipo de coisa no exterior.
Arthur franziu a testa instintivamente, como se tivesse ouvido algo extremamente confuso.
Ele viveu no exterior por anos e sabia que lá não existem padarias vendendo leite de soja; quem quer beber tem que fazer em casa ou comprar no mercado especializado, por isso era raro.
Mas antes que ele pudesse falar, Alice soltou uma exclamação de surpresa: — É mesmo? E o que vocês bebiam no café da manhã? Aurora ergueu o queixo com arrogância: — Ora! Nós não somos como você, sua caipira. Eu e o Diogo costumamos beber uma xícara de
Office
toda manhã. Coisas como leite de soja não chegam aos nossos pés.
Arthur duvidou dos próprios ouvidos: — Beber... beber o quê?
Aurora disse docemente: —
Office
, Diogo! Você até já comprou para mim. É docinho, nem um pouco enjoativo como esse leite de soja.
Arthur: “...”
Naquele momento, a expressão de Arthur era de choque absoluto.
Alice quase cuspiu o leite de soja.
Ela recompôs a postura e disse seriamente: — Entendi. Realmente, isso varia de pessoa para pessoa. Talvez no exterior vocês bebam mais
Office
, mas aqui é muito caro. No Brasil, a gente costuma beber o nacional, o
WPS Office
. Se enjoar, a gente combina com um
PPT
ou
Excel
. O
Word
é um pouco amargo, então não recomendo adicionar sem açúcar.
Arthur: “...”
Desta vez, Arthur cuspiu o leite que estava em sua boca.