Arthur tirou Alice do camarote.
O outono estava chegando e a temperatura noturna caíra um pouco; o vento soprava com um frescor cortante.
A brisa foi o suficiente para limpar a mente de Alice, que estava turva pelo cheiro forte de cigarro e álcool do bar.
Ela olhou para Arthur, que caminhava ao seu lado totalmente coberto, e perguntou:
— Por que você apareceu do nada? Foi o "letreiro" que te mandou vir?
Arthur hesitou por um momento, abaixou a cabeça e soltou um "hum" abafado.
Na verdade, ele estava preocupado com o fato de ela estar trabalhando ali e não resistiu a inventar uma desculpa para dar uma olhada; ele apenas não esperava dar de cara com aquela cena.
O roteiro, então, aproveitou a oportunidade para lhe atribuir o papel de "herói salvando a bela".
Alice não percebeu nada disso e continuou tagarelando ao lado dele:
— Que raiva! Eu devia ter dado um chute naquele cara antes de sair. Realmente, tem homem nojento em todo lugar.
— Oh... — Arthur enfiou as mãos nos bolsos, com a voz preguiçosa. — Quer que eu te leve de volta lá para dar o chute e descarregar a raiva? Os olhos de Alice brilharam: — Existe essa possibilidade?
Arthur: “...” Seus olhos de fênix, por cima da máscara, mostraram um traço de diversão: — Você realmente não sabe o que é ser cerimoniosa, né?
Alice chutou uma pedrinha no caminho: — É que não dá para ficar calma sem dar uma lição num tipo daqueles.
Arthur disse: — Existem muitas pessoas assim no mundo. O poder que detêm torna-se o capital de sua arrogância. Mexer com eles é como mexer com uma cobra venenosa no esgoto; elas se enrolam em você, ameaçando-o com veneno. É asqueroso, mas muitas vezes não há o que fazer. A menos que seu poder seja maior que o deles, você será perseguido. — Dar uma surra é satisfatório, mas se você não tiver proteção, as consequências podem ser maiores do que você pode suportar.
— Eu sei... — Alice esfregou as mãos. — Eu já senti isso na pele. Arthur não disse nada, apenas a observou de perfil.
Ela sorriu com desdém:
— Quando eu me formei, entrei em uma empresa muito boa do setor. Eu trabalhava com Pesquisa e Desenvolvimento. Nessa área, a maioria é homem e careca; quando surge uma garota com aparência razoável, mesmo que o currículo seja impecável, sempre tem alguém fofocando que ela só entrou por causa de algum "acordo obscuro". — Eu nem ligava. Sabia que, no tempo certo, meus resultados de pesquisa calariam a boca de todo mundo. Mas... — Alice fez uma pausa para soprar as mãos frias antes de continuar. — O supervisor do meu setor, um idiota que entrou por indicação, cismou comigo. Vivia me chamando na sala dele para tentar me tocar. Eu não aguentei e denunciei para a alta cúpula.
O desgraçado teve a audácia de dizer que eu é que o seduzi, que minhas promoções não eram por mérito, mas por "favores" que eu oferecia.
— Eu não aguentei.
Dei uma surra nele que o mandou direto para o hospital. Ouvi dizer que ele ficou um mês de cama antes de conseguir andar de novo.
Ao dizer isso, ela exibiu um sorriso de vitória por ter se vingado. No segundo seguinte, o sobretudo preto de Arthur foi colocado sobre seus ombros.
O casaco ainda retinha o calor do corpo dele, misturado a um perfume que ela não sabia descrever, envolvendo-a em um espaço quente e acolhedor.
Alice travou, segurando a gola instintivamente, e olhou para Arthur. Sem o sobretudo, ela viu que ele usava apenas uma camisa branca, e no pescoço exposto ainda havia algumas marcas vermelhas da alergia.
De repente, ela entendeu por que ele estava tão empacotado.
Alice quis rir, mas, respeitando a vaidade dele, segurou a risada e comentou como quem não quer nada:
— Nossa... nem está tão frio assim. Por que você estava vestindo tanto casaco? E por que essa máscara?
Arthur manteve o rosto sério: — Se não está frio, devolve meu casaco.
— Ah, não... — Alice se enrolou ainda mais na peça. — Eu nasci em berço pobre, sou friorenta desde pequena. Qualquer brisa me faz tremer, não posso passar frio.
Arthur: “...”
Berço pobre o caramba.
Alice não resistiu a provocá-lo:
— E a máscara? Para quê esconder esse rosto bonitão?
Arthur parou ao lado do carro e olhou para ela. Alice também parou, tendo que inclinar levemente a cabeça para encontrar o olhar dele.
O vento soprou por trás dela, agitando os fios de cabelo rebeldes de Arthur sobre sua testa. Bem no meio de suas sobrancelhas, havia uma marca de alergia; hoje parecia bem melhor, mas a cor ainda era vívida, como um sinal de beleza (uma "pinta de cinábrio") entre os olhos.
O olhar dele era vago e casual.
Aqueles olhos de fênix, que costumavam ser sedutores, piscaram lentamente diante dela, deixando escapar um traço de mágoa infantil e desajeitada.
— Está feio — ele disse, com a voz abafada pela máscara.
Subitamente, e sem aviso, ele se curvou em direção a ela.
Os olhos de fênix se ampliaram diante de Alice, e aquela "marca" entre as sobrancelhas pareceu queimar o coração dela, que se contraiu como se tivesse levado uma marretada.
Ela quase esqueceu de respirar, vendo-o apenas tirar uma folha seca que caíra sobre o cabelo dela. Ele soltou a folha, que flutuou até o chão.
Arthur abriu a porta do carro, olhando para Alice que ainda estava em transe.
— Vai ficar aí parada? Vamos. Ou você realmente quer voltar lá para dar o chute? Alice, arrastando o sobretudo que chegava aos seus tornozelos, subiu rapidamente no banco do passageiro.
Durante o trajeto, Alice ficou estranhamente quieta. Tão quieta que Arthur estranhou e tentou puxar assunto enquanto segurava o volante: — E o que aconteceu depois que você bateu no seu chefe? — Hein? — Alice pareceu despertar de um sonho. — O que você disse? Arthur repetiu a pergunta. — Ah! O que você acha? Ele era sobrinho do dono da empresa.
Sobrou para mim pegar minhas coisas e cair fora.
— Isso deve ter afetado sua carreira, não? — perguntou Arthur.
— Com certeza... — disse Alice.
— Como era uma empresa famosa no setor, ele espalhou boatos. Muitas empresas ficaram com medo de me contratar.
Naquela época, eu não conseguia emprego em lugar nenhum, quase não tinha o que comer. Arthur sentiu um brilho de frieza nos olhos ao imaginar a cena.
Alice, então, deu um tapa na própria coxa e riu:
— Hahaha! Mas o idiota não contava com uma coisa: minha melhor amiga é herdeira de uma empresa ainda maior e melhor que a dele.
Como ninguém me queria, ela me contratou. Passei um tempo indo todo dia na porta da empresa dele com meu novo crachá de funcionária só para provocar.
Em uma semana, a pressão arterial dele subiu para quinze por dez de pura raiva!
Ao ouvir a risada dela, o homem que dirigia em silêncio não conseguiu evitar o sorriso.
Quando voltaram para a mansão, já era madrugada.
Alice bocejou e se deparou com um dilema:
— Como vamos dormir?
Arthur não tinha pensado nisso: — Onde você quer dormir?
Pela lógica, ela estava acostumada com a cama de Dom Diogo.
Mas Alice imaginou a cena: de manhã cedo, os empregados abrem a porta e veem uma mulher saindo do quarto do patrão... A cena era "linda" demais para ser imaginada.
Ela balançou a cabeça para espantar o pensamento.
— Vou dormir no quarto onde você estava dormindo. Assim não levantamos suspeitas. Arthur não se importou.
Ao ver Alice se afastar, ele hesitou e a chamou: — Alice. Ela virou-se, confusa.
Sob o olhar dela, ele retirou lentamente a máscara, revelando o rosto com as marcas da alergia.
Graças à sua beleza superior, mesmo as manchas não conseguiam esconder sua elegância.
No entanto, Arthur baixou a cabeça, evitando olhá-la diretamente.
Ele hesitou um pouco antes de explicar, entre dentes:
— Não é que eu não quisesse tirar a máscara. É que está feio mesmo. Mesmo sentindo-se humilhado, ele fez questão de provar para ela que o motivo da máscara era puramente estético.
Alice sentiu o coração ser "marretado" novamente, mas desta vez com uma sensação mista de ternura e agonia.
Ela não sabia como voltou para o quarto. Deitada na cama, sua mente estava em branco, com apenas o rosto de Arthur nítido em sua memória.
Depois de um tempo, ela ficou vermelha, soltou um palavrão baixinho e rolou na cama, escondendo o rosto no travesseiro.
Dez minutos depois, Alice começou a socar o travesseiro para descarregar a tensão. — Ahhhh! Arthur, vai para o inferno!
Três dias depois, a alergia de Arthur praticamente desapareceu, e ele voltou a ser o CEO impecável de sempre.
Hoje, ele levaria Alice à mansão da família para celebrar o aniversário de seu avô. Alice passou duas horas revirando o armário em busca da "armadura" perfeita.
Arthur ficou encostado na porta observando. — Senhorita Alice, já está escurecendo. Ainda não escolheu? — Você não entende — disse ela.
— A batalha de hoje é crucial. Não posso ser negligente. — Se não me falha a memória, é apenas uma festa — disse Arthur, confuso.
Alice mediu um vestido contra o corpo: — Você acha que o jantar de hoje conta como "conhecer a família"?
Conhecer a família...
Mesmo sabendo que ela estava falando dos personagens, Arthur não pôde evitar desviar o olhar e tossir de forma desconfortável.
— Acho que sim.
— Pois eu te digo: pela minha experiência lendo romances, com certeza tem gente na sua família esperando para me humilhar. E eu, como a grande Cristal, não vou ser pisoteada por ninguém. Espere eu achar o vestido certo e você verá o meu brilho.
Arthur ficou ali, observando-a. O sol estava se pondo, e grandes feixes de luz alaranjada entravam pelas janelas, iluminando o tapete cheio de roupas espalhadas. A mulher esguia movia-se entre os vestidos, com seu cabelo sedoso flutuando a cada movimento, criando uma aura leve. Ela parecia ser a favorita da luz; até as partículas de poeira no ar pareciam dançar para ela.
Alice ergueu um vestido de gala vermelho:
— O que acha deste? Fico bonita? O sol poente banhava o rosto dela; suas pupilas escuras brilhavam como estrelas no céu noturno, e o vestido vermelho em suas mãos parecia uma rosa desabrochando sob a luz.
Algo floresceu silenciosamente no coração de Arthur. Ele ficou mudo de repente; seu coração começou a bater descontroladamente, como um tambor apressado e ansioso — um sentimento que surgiu antes mesmo que ele pudesse se preparar, declarando sua presença no fundo de sua alma.
Alice olhou para o vestido e depois para o homem parado na porta sem reação: — Esquece, eu não devia esperar senso estético de você.
Vou provar sozinha. — E entrou no banheiro. Dois minutos depois, um grito veio lá de dentro.
Arthur, tentando acalmar o coração, aproximou-se da porta: — O que houve? — Enrosquei! Minha mão não alcança o zíper, vem me ajudar!
Arthur abriu a porta e deu de cara com as costas alvas de Alice. O pescoço longo estava levemente curvado, as escápulas desenhavam uma forma graciosa, e seus dedos finos tentavam puxar o zíper, que parara no meio do caminho.
Aquela pele branca como a neve ofuscou a visão de Arthur; ele recuou um passo brusco para fora do banheiro e bateu a porta. Alice virou o rosto e viu o banheiro vazio. — Ué, o que você está fazendo? Por que saiu?
Do lado de fora, o rosto de Arthur estava vermelho até a raiz do pescoço. — Alice! Existe algo chamado "pudor entre homem e mulher", sabia?!
Como ela pode mostrar as costas assim para alguém do sexo oposto?
— Hein? — Alice ficou confusa. — Mas tem alguma parte do meu corpo que você já não tenha visto ou tocado?
Arthur: “...” Lembrando que Arthur chegava a usar venda para tomar banho no corpo dela,
Alice completou: — São só umas costas, você está ficando muito conservador. Arthur não queria falar.
Alice apressou: — Vai logo! Você já viu e tocou em tudo, não se apegue a detalhes. Se demorar mais, vai escurecer de verdade.
Arthur fechou os olhos, respirou fundo e, com o espírito de quem vai para o sacrifício, abriu a porta.
A primeira coisa que viu foram as costas brancas subindo e descendo com a respiração dela. Ele segurou o zíper e o puxou para cima. Embora fizesse de tudo para evitar o contato, a ponta de seus dedos inevitavelmente roçou na pele dela. O toque era frio e macio como jade.
As orelhas de Arthur ficaram ainda mais vermelhas. Ele fechou o zíper rapidamente e recolheu a mão, que parecia arder. — Pronto... Alice se mexeu e suspirou fundo. — Sinto que este vestido está meio apertado. É o meu tamanho de sempre... — Ela tentou murchar a barriga e olhou desconfiada para ele: — Não foi você que me deixou gorda de tanto comer, né?
Arthur, indignado: — Eu treinei todos os dias! Já você... meus músculos abdominais sumiram e isso é visível a olho nu.
Quem sabe quanto tempo ele levaria para recuperá-los.
Alice pensou:
Ele realmente sabe como tocar na ferida.
Quando chegaram à mansão ancestral, já era noite. A casa, normalmente silenciosa, estava vibrante.
Pessoas com taças circulavam, e ao verem Arthur, seus olhos brilhavam enquanto se aproximavam para cumprimentá-lo.
Arthur agia com naturalidade, educado mas distante, o que melhorou muito a impressão que os convidados tinham de "Dom Diogo".
Muitos notaram Alice ao seu lado. Supunham que era sua acompanhante, mas mesmo assim a observavam com curiosidade.
Afinal, na memória de todos, Dom Diogo nunca trazia acompanhantes. Ela era a primeira. Só isso já era suficiente para que todos a olhassem de forma diferente.
Ele a levou para dentro, onde o vovô já os esperava. Ao vê-los, o velho não conseguia parar de sorrir.
Dava para ver que ele adorava Alice como nora; logo segurou a mão dela. — Finalmente chegaram! Como foi a viagem? Estão cansados? Querem descansar? Alice entregou o presente com um sorriso: — Feliz aniversário, vovô! Desejo que sua felicidade seja tão vasta quanto o mar e sua vida longa como as montanhas. Eu só de pensar que encontraria o senhor já ficava animada, como poderia estar cansada? Sua boca parecia adoçada com mel, deixando o velho encantado. — Cristal, você fala tão bem! Está muito mais adorável do que da última vez que te vi.
O Arthur (que era a Cristal da última vez): “...” O CEO ficou com a cara fechada e levou uma bronca do avô: — Olha só para você, aprenda com a Cristal. Tanta idade e não sabe falar uma frase gentil.
Arthur: “...” O velho acenou: — Saia daqui, você me irrita. Vou levar a Cristal para dar uma volta.
Alice fez uma careta para Arthur e seguiu o velho, rindo.
Eles passaram meia hora na festa em total tranquilidade — tanta tranquilidade que Alice começou a se sentir estranha.
Ela encontrou Arthur e sussurrou: — Não acha que tem algo errado? Arthur, com a taça na mão, olhou para ela: — Tipo o quê? — Tipo o fato de estarmos aqui em paz até agora.
Muitos queriam bajular o CEO, e Arthur acabara bebendo um pouco. O álcool subia à cabeça e ele estava um pouco impaciente, afrouxando a gravata com uma mão para respirar.
Ele riu: — O quê? Você realmente estava esperando que acontecesse algo? — Mas o roteiro não pode nos deixar passar a festa inteira em paz, né? Seria um desperdício de cenário. — Ela olhou ao redor: — Cadê a mãe do Dom Diogo?
Arthur também procurou: — Não sei, ninguém mencionou. Alice entregou sua taça para ele: — Enfim, segura aqui para mim. Vou ao banheiro.
O banheiro da mansão era luxuoso como o de um hotel cinco estrelas. Alice teve dificuldade com a cauda longa do vestido, mas conseguiu sair vitoriosa. Ela arrumou a saia e foi lavar as mãos.
Assim que a água fria tocou sua pele, uma voz soou friamente na porta: — Então você é a Cristal?
Alice levantou o olhar. Uma garota estava parada na porta, usando um vestido branco puro.
Seu cabelo dourado brilhava sob as luzes como o halo de um anjo. Suas feições eram delicadas, e seus olhos azuis como o oceano olhavam para Alice com um julgamento evidente. Alice, já acostumada, secou as mãos e encarou-a de volta.
— Sim, eu sou a Cristal.
A garota cruzou os braços e disse friamente:
— Escute bem: Dom Diogo não é o tipo de homem que você pode ter sob controle.