Pouco depois, o assistente trouxe Arthur para o mezanino.
Alice, em algum momento, pegara uma taça de vinho tinto e estava encostada no parapeito.
Seu rosto estava parcialmente coberto pelas sombras, escondendo sua expressão; seus dedos longos sustentavam a base da taça, onde o líquido escarlate refletia um brilho denso sob a luz fraca.
Assim que se viram, a primeira frase que Alice disparou foi: — Garota, eu admito: seu joguinho de se fazer de difícil funcionou. Vou te dar uma chance: seja meu par na primeira dança de hoje.
Arthur estava ocupado tentando limpar a mancha em seu peito, sem se dar ao trabalho de levantar o olhar.
Alice dispensou o assistente com um gesto, colocou a taça de lado e aproximou-se para ajudá-lo a esfregar o tecido.
— Cara, qual é o seu problema? Por que você é encharcado de vinho a cada cinco minutos?
Arthur tinha o cenho franzido em pura irritação: — Como eu vou saber? O pai dela não consegue manter o que tem entre as pernas guardado e sai seduzindo todo mundo. No fim, ela não culpa a causa do problema, mas desconta as frustrações na consequência.
Alice tentou consolá-lo: — Novelas são assim mesmo, senão não teria conflito.
— Novela? — Arthur parou, confuso. — Que novela?
Alice também travou: — Você não sabia? Tudo o que estamos vivendo e as falas que estamos dizendo são clichês puros de romances de banca de jornal.
Arthur realmente não fazia ideia. A essa altura, a mancha de vinho em seu peito já estava quase seca e não saía por nada; um borrão avermelhado marcava o centro da camisa, parecendo uma flor esmagada. Ele amassou o lenço de papel e o jogou no lixo, cada vez mais impaciente.
— Alguém realmente lê esse tipo de história?
Alice sentiu uma flechada imaginária no peito. Afinal, aquilo representava boa parte de sua adolescência.
Ding!
【Cristal não esperava que Dom Diogo a convidasse para ser seu par na primeira dança. Ela pensou que ele certamente enlouquecera. Todos sabiam o que aquele convite significava para a família Diogo; todas as herdeiras presentes cobiçavam aquele lugar.】
【Sua primeira reação foi achar que ele estava pregando uma peça.】
Após o treinamento intensivo das últimas horas, Arthur já conseguia proferir aquelas falas sufocantes sem mudar a expressão facial. Ele encarou Alice e disse:
— Isso é um troco por eu ter entrado no banheiro errado? Você diz que quer que eu seja seu par para que, quando eu aceitar feliz, você possa me humilhar na frente de todos?
Afinal, eu sou apenas uma garçonete; como poderia ter o direito de dançar com o homem mais poderoso do mundo?
【Dom Diogo não esperava por essa resposta. Em seu mundo, ninguém jamais ousara questionar suas decisões, muito menos suspeitar de suas intenções dessa forma.】
【Nesse momento, ele teve que admitir: essa mulher realmente era diferente das outras.】
Alice teve um tique nervoso e respondeu: — Se eu quisesse me vingar, não usaria um método tão baixo. Além disso, depois de ser humilhada pela sua irmã, você não quer dar o troco?
Alice foi ficando irritada enquanto pensava no assunto: — Aquela mulher só fala asneira! Como assim "feia"? Disse que eu não tinha rosto nem corpo... Eu vou mostrar para ela hoje o que é beleza natural de verdade!
Arthur: "..." Sinceramente, ele não fazia questão nenhuma de mostrar "beleza natural" para a tal irmã, já que, no fim das contas, quem sofreria o constrangimento seria ele. Mesmo aceitando a ideia de que aquilo era uma novela, o rumo da trama era confuso demais, fazendo-o franzir a testa cada vez mais.
Arthur estava vivendo o meme do "vovô confuso no metrô". Ele não entendia nada. Primeiro, a placa dizia para esconder que eles tinham dormido juntos, depois forçava Alice a provocá-lo para que ele a achasse "especial" e, finalmente, para se vingar da irmã, ele aceitava ser o par dele na dança. Havia mil formas de se vingar de alguém; ele não compreendia por que tinha que ser através de um homem.
De qualquer forma, independentemente do processo, o resultado foi Alice arrastando Arthur para uma "reforma visual" de emergência.
— Nem pensar! Eu me recuso!
A voz categórica de Arthur ecoou no camarim improvisado. Ele apontava para o vestido nas mãos de Alice, com o rosto pálido. — Eu não vou vestir isso! Se quiser, vista você!
Alice segurava o vestido com uma expressão inocente: — Eu adoraria vestir, mas não cabe em mim agora, né? Se você não se importar, eu posso tentar colocar...
Arthur olhou para o próprio rosto na frente dele e imaginou seu corpo musculoso dentro de um vestido de festa. A imagem era "especial" demais para ser processada. Ele desviou o olhar.
— Além disso... — Alice insistiu. — Você já aceitou dançar a primeira dança comigo. Como vai fazer sem um vestido?
Arthur tentou uma última resistência: — Eu não aceitei. Aquela placa me obrigou a aceitar.
— Ah... — Alice respondeu friamente. — De qualquer jeito, você vai ter que dançar. Se aparecer lá desse jeito, a vergonha vai ser toda sua.
Arthur: "..."
— Vão dizer por aí que o lendário Dom Diogo escolheu uma garçonete com a roupa suja de vinho para a primeira dança. Se um dia a gente trocar de volta, essa piada vai te perseguir para sempre.
Arthur: "..."
Por que só eu saio perdendo nessa história?
Alice observou-o de soslaio. Arthur ficou em silêncio por alguns segundos antes de ceder, cerrando os dentes: — Eu visto. Mas tem que ser outro.
Alice ergueu o vestido vermelho: — Mas este foi feito sob medida para mim... ou melhor, para você! É lindo, você vai arrasar com todo mundo.
Arrasar o caralho!
, pensou ele. Arthur pegou o vestido e apontou para o design das costas, que não tinha um centímetro de pano: — O seu conceito de "lindo" é deixar as costas todas de fora?
— É sexy... — disse Alice. — Eu me esforcei o verão inteiro na dieta justamente para este momento.
Arthur sentiu um calafrio nas costas: — Não vou usar. Procure... — ele hesitou — ...algo menos revelador.
Alice riu do pânico dele: — Cara, não é nem o seu corpo, do que você tem medo?
— Mesmo sendo o seu corpo, e você tendo liberdade para vestir o que quiser... a minha alma está aqui dentro. Se eu usar isso, sinto que... — Arthur teve dificuldade em completar a frase. — Sinto que minha alma também ficaria exposta.
Alice ficou chocada. Ela se sentia como um playboy cafajeste assediando uma moça de família. Ela engoliu em seco e escolheu palavras mais gentis: — Nossa... não imaginei que você fosse tão conservador.
Nesse ponto, Arthur sentiu-se injustiçado: — As tradições da minha família sempre foram assim. O corpo só deve ser visto pelo futuro parceiro ou parceira.
Ter ido para a cama com Alice por acidente já era uma ofensa grave aos seus ancestrais. Toda noite ele fechava os olhos e pedia perdão por vários minutos. Agora, vestir algo tão revelador para dançar... ele sentia que seria expulso de casa se voltasse para a realidade.
Alice: "..." O vestido vermelho nas mãos de Arthur pareceu subitamente agressivo aos olhos dela.
Ela olhou para as próprias mãos (as de Arthur) — mãos que pareciam desenhadas, com um anel de prata que as deixava ainda mais elegantes.
Ela lembrou do rosto refinado e sedutor do dono original.
Olhando para aquele rosto, qualquer um diria que ele era um conquistador experiente. Quem diria que ele era tão puro?
Ela tentou consolá-lo: — Olha, não estamos aqui fisicamente. Embora eu não saiba explicar por que nossos rostos são iguais aos da realidade, tenho certeza de que estes não são nossos corpos reais. Então... — ela mediu as palavras — ...embora o corpo aqui tenha passado por aquilo, o "você" lá fora continua intacto.
— Não! — Arthur abraçou o vestido, em agonia. — Mesmo que minha carne esteja pura, minha alma foi maculada! Eu nunca mais serei o Arthur puro de antes!
Alice: "..."
Estamos no século XXI, não precisa de tanto drama.
O rosto de Alice ficou estático. O jeito dele a fazia parecer uma vilã insensível que tinha "usado" o rapaz.
Apesar da resistência de Arthur, a missão precisava ser cumprida. Eles chegaram a um meio-termo e escolheram um vestido discreto, elegante e nada apelativo.
Assistentes e seguranças foram expulsos do quarto. Arthur saiu do banheiro com o vestido; o cabelo bagunçado denunciava a luta que fora vestir a peça. Ele olhou para Alice, hesitante: — É... eu acho que não sei como fechar isso.
Alice estava comendo biscoitinhos escondida. Ao ouvir o pedido, levantou-se e limpou as mãos. Ela pegou o vestido para analisar: — É um pouco complexo mesmo. É normal você não saber. Deixa que eu te ajudo.
Ela encarou Arthur: — Vem, tira a parte de cima primeiro.
Arthur: "..."
— Ah, não enrola! O banquete vai começar e tem um monte de gente esperando por nós. Além disso, esse corpo é meu, tem alguma parte que eu ainda não tenha visto?
Dito isso, Arthur ainda relutava em se despir na frente da dona do corpo.
Qual é a diferença entre isso e tirar a própria roupa na frente de alguém?!
Mas o tempo estava acabando, e Alice simplesmente começou a ajudá-lo a se despir na marra. Exceto pelos primeiros minutos de confusão ao acordar, era a primeira vez que ela via seu próprio corpo claramente sob a perspectiva de outra pessoa. Enquanto olhava, ela não resistiu e deu um "confere" com as mãos, sentindo-se orgulhosa. Todo o investimento em cremes e academia tinha valido a pena. Aquela cinturinha, aquele busto... estava tudo impecável.
Arthur corou violentamente: — Você pode parar de me apalpar?
— O corpo é meu, qual o problema de eu sentir? — Ela estufou o peito (de Arthur). — Se você se sente lesado, pode me apalpar de volta.
Ela ali, estufando o peito e agindo como um herdeiro libertino, enquanto a "moça de família" (Arthur) se encolhia contra a parede, sem coragem de reagir, apenas cerrando os dentes e aceitando a "tirania", soltando apenas protestos fracos.
Alice sempre fora o tipo de mulher vibrante e solar, e nunca tinha usado vestidos tão sóbrios. Ela achava que não combinaria com o estilo, mas, surpreendentemente, o vestido branco ficou perfeito em Arthur.
Ou melhor, o Arthur de agora passava a sensação certa para a roupa.
Usando um vestido pela primeira vez, ele parecia extremamente desconfortável, com uma postura rígida e reservada.
Mas sua educação de elite fazia com que até esse desconforto parecesse uma elegância serena.
Com o rosto levemente corado e os olhos brilhando de vergonha, ele era a personificação de uma "beleza delicada".
Ao notar o olhar de Alice, Arthur mordeu o lábio e baixou os olhos. Seus cílios longos pareceram as asas de uma borboleta, tremendo sob o olhar dela. Seus cabelos negros emolduravam o rosto, lembrando uma camélia branca prestes a florescer.