Alice foi despertada por um calor sufocante.
Era como se formigas estivessem rastejando por cada centímetro de sua pele, uma coceira insuportável e profunda. Uma onda de calor subia por seu corpo, rapidamente encharcando a lingerie que usava por baixo.
Ela forçou as pálpebras pesadas a se abrirem. A luz fraca e confusa que atingiu seus olhos deixou seu cérebro momentaneamente perdido.
Seria aquela... a luz de um hospital?
Mas por que parecia tão estranha?
Ou será que ela realmente tinha batido as botas e ido parar no submundo? Mas que tipo de além-vida teria esse estilo de decoração?
O suor brotava em sua testa, escorria e acabava entrando em seus olhos nublados. Alice os fechou, sentindo-se miserável.
Calor... estava quente demais.
Ela nunca havia sentido um calor assim. Mas, além da temperatura, o que a deixava mais constrangida era a pulsação desconhecida que brotava de dentro dela.
Sua mente estava um branco total, com as memórias estagnadas no segundo anterior ao acidente de carro. O estrondo ensurdecedor da colisão ainda ecoava em seus ouvidos, e a dor do impacto parecia vívida. Ela se lembrava de ter usado seu último fio de consciência para apagar o histórico de mensagens com sua melhor amiga antes de fechar os olhos em paz.
Viver ou morrer agora estava nas mãos do destino.
Então... o que estava acontecendo agora?
Alice tentou se levantar da cama, mas ao menor movimento, aquela sensação estranha percorreu todo o seu ser. Um gemido entrecortado quase escapou de seus lábios.
Alice queria chorar. Ela tinha uma ideia geral do que estava acontecendo com seu corpo.
Droga! Teria sido melhor ter morrido naquele acidente!
Ela sabia que hoje não era um bom dia para sair de casa. Que empresa decente exige trabalho num domingo? Aquele cliente devia ser um idiota; não podia simplesmente ficar no hotel descansando do fuso horário depois de chegar ao país? Para que a pressa em se encontrar?
Por causa disso, ela teve que pular da cama às seis da manhã para preparar documentos, sem nem ter tempo para tomar café, correndo para o escritório em seu velho e capenga Volkswagen usado. De repente, um cachorro surgiu no meio do caminho e, ao desviar bruscamente, ela colidiu com um carro que vinha da esquina.
Um azar monumental.
Ela tentou abrir a boca, mas sua garganta estava terrivelmente seca.
"Tem... alguém aí?"
O quarto estava vazio. Apenas sua voz, num tom baixíssimo, quebrou o silêncio antes de tudo mergulhar na quietude novamente.
Isso era doentio...
Alice pensou desesperadamente que fazer algo assim com alguém que acabou de sofrer um acidente era mais do que perversidade. Que tipo de pessoa normal faria isso?
Reunindo o que restava de suas forças, ela se virou na cama com extrema dificuldade. No entanto, não conseguiu controlar o peso do corpo e acabou rolando direto para os braços de alguém que emanava um calor ardente.
Alice entrou em choque!
Meu Deus! O que era aquilo?
Por que havia alguém deitado atrás dela? O couro cabeludo de Alice formigou de pavor.
Mas o que a deixou ainda mais em pânico foi o calor e o aroma desconhecido que invadiram seu olfato, vindos da pessoa ao seu lado.
Um homem... um completo estranho.
O último resquício de sua sanidade estava prestes a desmoronar.
Arthur foi despertado pelo calor.
Ondas imensas de calor o atingiam, e certas reações indescritíveis faziam suas sobrancelhas se contraírem profundamente.
O que estava acontecendo?
Ele não tinha sofrido um acidente? Tinha sido atingido por um Volkswagen de segunda mão que surgiu do nada.
Aquele era o carro novo que ele tinha acabado de comprar ao voltar para o país. Era a primeira vez que o dirigia para encontrar um cliente e, em menos de dez minutos, foi atingido.
Ele não sabia se tinha morrido ou não, mas certamente estava morrendo de raiva.
E agora, assim que sua consciência despertou, ele se deparava com essa situação.
Sua cabeça estava pesada e ele não conseguia se lembrar de nada claramente. Ao perceber que havia alguém em seus braços, movido por um instinto puramente masculino, ele a puxou para perto.
Encontrou um corpo macio e delicado como jade.
Arthur baixou o olhar e encontrou um par de olhos úmidos e perdidos.
Uma pessoa que ele nunca vira antes. Uma mulher... deitada em seus braços.
Uma agitação indescritível surgiu. Arthur soltou um gemido abafado, percebendo instantaneamente o que estava acontecendo com ele. A situação era absurda demais.
Que loucura... como alguém podia fazer isso com um homem que acabara de sofrer um acidente?
Além disso, a mulher em seus braços parecia estar na mesma situação que ele. O rosto dela estava vermelho vivo, e ela se esfregava inconscientemente contra ele.
A respiração de Arthur pesou bruscamente. As veias em sua testa saltaram pelo esforço de se controlar.
Ele usou sua última gota de energia para empurrar Alice.
"Saia... vá embora..."
A resposta que obteve foi o rosto dela se aproximando. As roupas dela, em algum momento, tinham se tornado uma bagunça desalinhada, e a visão daquela pele branca e sedosa fez seus olhos arderem em brasas.
"Me ajude..."
O hálito quente dela soprou contra o pescoço dele. A última barreira da sanidade de Arthur se rompeu.
A partir dali, foi como jogar lenha no fogo. Uma noite de paixão desenfreada.
Alice foi acordada por um barulho de "ding-dong". O som parecia vir de dentro de sua própria cabeça, algo impossível de ignorar, forçando-a a abrir os olhos.
A primeira coisa que viu foi um teto e uma decoração desconhecida. Aquela luz fraca e confusa de antes agora parecia familiar. Ao lembrar de tudo o que aconteceu na noite anterior, seu rosto empalideceu ainda mais.
Ela tinha ido para a cama com um homem que nem conhecia e, pelo que parecia, ela é quem tinha tomado a iniciativa.
Alice estava em choque!
Esqueça a castidade por um momento; o ponto crucial era que ela nem tinha visto o rosto do sujeito. Ele era feio ou bonito? Tinha alguma doença?
Pensando nisso, ela se sentou abruptamente na cama e olhou para o lado.
E então ela viu...
Os olhos de Alice se arregalaram lentamente.
Ela estava vendo a si mesma, dormindo profundamente.
Alice ficou estática. Ela esfregou os olhos repetidamente, recusando-se a acreditar.
Era a primeira vez que se via daquele ângulo. Era bizarro ao extremo, o suficiente para fazer seu sangue gelar.
Ela estendeu a mão. A mão diante de seus olhos era longa e elegante, com um anel de prata no dedo indicador que lhe dava um ar estranhamente sofisticado e contido.
Ela tentou dobrar os dedos. Eles obedeceram, com as articulações levemente rosadas. Era claramente a mão de alguém que nunca tinha feito trabalho pesado na vida — o tipo de mão que faria sucesso na internet.
Ela entendia a lógica da situação, mas... por que aquela era a mão dela agora?
Como se tivesse sido atingida por um raio, Alice baixou o olhar lentamente.
Viu o lençol branco do hotel que escorregava até sua cintura, o que não a impediu de ver metade de um peito robusto e musculoso.
Alice deitou-se devagar, puxou o lençol para se cobrir e fechou os olhos.
"Devo estar delirando", pensou ela. Acordar e ter se transformado em outra pessoa? Melhor dormir mais um pouco.
Cinco minutos depois...
Alice sentou-se na cama novamente, em transe. Olhando para a "si mesma" que dormia como se estivesse morta, ela deu um empurrão.
Arthur foi acordado pelo empurrão. Sua consciência ainda não tinha retornado totalmente quando sentiu uma dor muscular incômoda, especialmente em certas partes íntimas que quase o fizeram soltar um gemido de desconforto.
O que... estava acontecendo?
Antes que pudesse reagir, foi empurrado novamente. Uma voz masculina profunda e familiar soou acima de sua cabeça.
"Abra os olhos! Pare de dormir!"
Arthur abriu os olhos e deu de cara com um par de orbes negros e intensos.
Eram olhos muito bonitos, com os cantos levemente puxados para cima. Sua prima costumava dizer que aqueles eram "olhos de fênix", típicos de protagonistas de romances. Ele fingia desdém, mas secretamente os admirava.
Para ser honesto, ele conhecia muito bem aqueles olhos, mas era a primeira vez que se via sendo observado por eles.
Ele recuou bruscamente, sentindo uma pontada de dor em certas áreas que o fez franzir o cenho.
Mas ele já não conseguia se importar com o desconforto físico, porque...
Ele parecia estar vendo a si mesmo, sem roupas, sentado ao lado. E aqueles olhos que sua prima tanto elogiava estavam cheios de lágrimas, prestes a cair. Ele conseguia até ver um rosto desconhecido refletido naquelas pupilas.
Arthur ficou em silêncio absoluto. Ele puxou o lençol e deitou-se devagar.
Definitivamente, ele deveria ter esperado passar o fuso horário antes de negociar negócios.
Só podia ser uma alucinação.