— Não, impossível!
Bernardo cambaleou para trás, batendo contra uma coluna atrás dele:
— Você está mentindo, como você poderia...
— Eu estou mentindo?
Clara levantou-se e aproximou-se dele passo a passo:
— Você se lembra do sangue nas minhas pernas naquele dia? Lembra-se de eu implorando por remédio? Lembra-se de você nem sequer olhar para mim enquanto ia buscar morangos para a Letícia?!
Cada palavra era como uma faca cravada no coração de Bernardo. Ele caiu de joelhos, segurando a cabeça com as mãos, soltando um lamento como o de uma fera ferida.
— O bebê, meu bebê...
Clara desviou o rosto, recusando-se a olhar para ele. Após chorar o suficiente, Bernardo ergueu a cabeça lentamente. Seu olhar havia mudado, passando de um delírio para uma calma mortal e arrepiante.
— Clara — disse ele suavemente. — Quero te mostrar uma coisa.
Ele se levantou, caminhou até um canto do salão e puxou um enorme pano de proteção contra poeira.
Debaixo dele, havia um tanque de vidro.
O tanque não continha água, apenas um esqueleto fragmentado, entrelaçado com as carcaças de vários tubarões já mortos e rígidos.
Os ossos dos dedos do esqueleto agarravam-se desesperadamente ao interior do vidro, e as cavidades escuras do crânio pareciam encarar a direção deles.
Clara sentiu o estômago revirar.
— É a Letícia — a voz de Bernardo era tão calma quanto se estivesse apresentando uma obra de arte. — Eu devolvi a ela o que ela fez com você, multiplicado por mil vezes.
Ele se virou para ela com um olhar de uma ternura bizarra:
— Veja, eu te vinguei. Aqueles tubarões são da mesma espécie que ela colocou no tanque naquela época. Eu a tranquei ali dentro e a deixei por três dias. No primeiro dia, ela ainda te amaldiçoava; no segundo, começou a implorar; no terceiro, restavam apenas ossos.
Clara cobriu a boca, lutando contra o impulso de vomitar.
— Se você ainda não estiver satisfeita... — Bernardo arrastou de um lado uma corrente pesada e grossa, exatamente a mesma que ele colocara nela anos atrás. — Eu posso me acorrentar e ser arrastado pela popa do navio. Arrastado até você estar satisfeita, arrastado até eu morrer.
— Contanto que você me perdoe.
Ele segurava a corrente, aproximando-se dela passo a passo, com uma loucura total nos olhos:
— Clara, vamos recomeçar, tudo bem? Desta vez sem a Letícia, sem mais ninguém, apenas nós dois. Vou passar o resto da vida te compensando, eu vou...
Antes que terminasse a frase...
BOOM!
Uma explosão violenta ecoou na lateral do navio! O casco balançou violentamente. Bernardo perdeu o equilíbrio e caiu no chão. Em seguida, a porta da cabine foi arrombada brutalmente!
Membros da equipe de resgate totalmente equipados entraram em fila, assumindo rapidamente o controle das saídas. Ricardo veio à frente de todos; ao ver Clara, seus olhos ficaram instantaneamente vermelhos.
— Clara!
Clara correu em direção a ele, mas foi agarrada por trás por Bernardo com uma força desesperada.
— Você não vai embora! — Bernardo rugiu, sacando um punhal e pressionando-o contra o pescoço dela. — Ela é minha! Ninguém vai levá-la!
— Bernardo, solte-a! — Ricardo parou, com a voz tensa. — Você está cercado. Há homens da equipe de resgate por todo o navio. Solte-a e ainda haverá uma saída.
— Saída? — Bernardo riu, e a lâmina pressionou levemente a pele, fazendo surgir um fio de sangue. — Eu não tenho saída há muito tempo. Desde o dia em que ela morreu, eu também morri.
Ele baixou a cabeça e sussurrou no ouvido de Clara:
— Clara, vamos morrer juntos, que tal? Como prometemos um dia: se morrermos, morreremos juntos.
Clara ficou paralisada. Nesse exato momento, um membro da equipe atrás de Ricardo ergueu silenciosamente uma arma de dardos tranquilizantes.
Puff.
Um som sutil. O corpo de Bernardo estremeceu. Ele olhou para o próprio peito. Havia um dardo cravado ali. Ele cambaleou, sua visão começou a ficar turva, mas suas mãos ainda apertavam Clara com força.
— Clara... — ele murmurou, as lágrimas misturando-se à coriza. — Perdão... o bebê, nosso bebê...
Seus braços finalmente cederam. Clara desvencilhou-se e foi puxada por Ricardo para um abraço protetor.