《Renascida das Profundezas: A Vingança de Um Coração Partido》CAPÍTULO 17

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Os guardas, assustados com o barulho, invadiram a sala, mas Bernardo acenou para que saíssem. 

Letícia a princípio tremia, mas ao ver o sofrimento estampado no rosto de Bernardo, ela subitamente começou a rir. A risada tornava-se cada vez mais alta, cada vez mais delirante.

— Por quê? — Ela limpou as lágrimas de tanto rir, e seu olhar tornou-se distorcido. 

— Porque eu te amo, Bernardo.

— Desde a primeira vez que te vi na casa da família de Clara, eu me apaixonei por você. Mas seus olhos só tinham a Clara! Você só conseguia enxergar ela! — Ela encostou-se no vidro, olhando para Bernardo com uma obsessão doentia. 

— Eu é que deveria ser a protegida por todos! Eu é que deveria ter o carinho dos pais, a riqueza da elite, o marido perfeito! Mas a Clara roubou tudo isso de mim! Por que ela? Só porque ela é a filha biológica?

— Então, eu só tive uma opção: roubar de volta.

— Roubei as bonecas dela, roubei o quarto dela, roubei a vaga dela na universidade e roubei o homem dela.

— Eu queria deixá-la sem nada, queria que ela provasse do sofrimento que eu passei!

Enquanto falava, sua expressão tornava-se cada vez mais insana:

— Mas eu não esperava que, mesmo quando você se deitava comigo, seu coração ainda estivesse nela! Mesmo quando aceitava se casar comigo, seus olhos ainda a procuravam! Bernardo, me diga, em que ponto eu sou inferior a ela?!

Bernardo a olhava como se estivesse diante de uma louca.

— Você é inferior a ela em todos os pontos — disse ele, pausadamente. — Ela é bondosa, você é perversa. Ela é luz, você é escuridão. Mesmo quando foi ferida a ponto de ficar despedaçada, ela nunca pensou em prejudicar ninguém. Já você, é podre até a raiz.

O sorriso de Letícia congelou no rosto. Em seguida, ela rasgou completamente seu disfarce, revelando sua face mais monstruosa:

— Sim! Eu sou podre até a raiz! E daí? Bernardo, você acha que as suas mãos estão limpas?

Ela apontou para Bernardo, rindo de forma estridente:

— Quem a jogou no mar foi você! Quem a prendeu com aquelas correntes com as próprias mãos foi você! Quem me protegeu no momento em que ela mais precisava de você foi você!

— Bernardo, você é o verdadeiro assassino da Clara!

— Foi você quem a matou!

Antes que ela terminasse a frase...

Slap!

Bernardo desferiu um golpe violento contra o vidro. Embora o impacto tenha sido contido pela barreira, o estrondo e sua expressão feroz fizeram Letícia cair sentada no chão, aterrorizada.

Bernardo levantou-se e olhou para ela de cima para baixo; o último vestígio de calor em seus olhos havia desaparecido.

— Letícia, você vai apodrecer na prisão até o fim dos seus dias.

— E eu passarei o resto da minha vida pagando pelos meus pecados.

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Ele virou-se e saiu, sem olhar para trás. Letícia rastejou pelo chão, vendo as costas dele desaparecerem no final do corredor, e começou a bater freneticamente no vidro, gritando em desespero:

— Bernardo! Eu errei! Eu juro que me arrependi! Me tire daqui! Eu não quero apodrecer na cadeia! Bernardo!

Não houve resposta. Apenas os guardas frios aproximaram-se e a arrastaram de volta para a cela. 

No fim do corredor, Bernardo encostou-se na parede e escorregou lentamente até sentar-se no chão. Ele cobriu o rosto com as mãos, os ombros tremendo violentamente.

Os gritos de Letícia ainda ecoavam em seus ouvidos: "Você é o verdadeiro assassino da Clara."

Sim. Ele era o assassino. Ele matou, com as próprias mãos, a mulher que um dia o amou com toda a sua vida. E agora, ele não tinha sequer a chance de se redimir diante dela.

A casa de recém-casados ainda era a mesma. Ao abrir a porta, Bernardo foi atingido por uma lufada de poeira que o fez tossir. 

Desde a farsa do casamento, ele nunca mais tinha voltado ali. 

A casa ficara vazia por três meses, e todos os objetos permaneciam exatamente como Clara os deixara ao partir.

No hall de entrada, dois pares de chinelos estavam um ao lado do outro. Um par rosa de coelhinho e um par cinza masculino. 

Ele se lembrava de quando Clara comprou aqueles chinelos. Ela ergueu o coelhinho rosa com os olhos brilhando:

— Bernardo, olha, não parece comigo?

Depois pegou o cinza:

— Este parece com você: sério e ranzinza.

Naquela época, ele riu e a envolveu nos braços:

— Quando foi que eu fui ranzinza?

— Agora não — ela franziu o nariz. — Mas quando está em reunião, você fica brava e dá um medo danado.

Bernardo agachou-se e, com os dedos trêmulos, tocou o chinelo de coelhinho rosa. A sola estava limpinha, sem um grão de poeira. 

A última vez que ela usou aquele par foi na manhã em que foram para o navio. Ela parou na porta e olhou para trás:

— Bernardo, estou um pouco nervosa.

— Nervosa com o quê? — Ele estava ajustando a gravata e nem sequer levantou a cabeça.

— É que... é nossa primeira viagem de casados.

Ele riu da bobagem dela:

— Teremos inúmeras outras no futuro.

Futuro. Não havia mais futuro.

Bernardo levantou-se e caminhou tropeçando para o interior da casa. Na mesa de centro da sala, ainda havia meio copo de água. 

Ela era sempre assim: bebia metade e esquecia o resto. 

Ele reclamara inúmeras vezes, e ela sempre mostrava a língua de brincadeira:

 "Na próxima eu lembro, com certeza."

No sofá estava a manta que ela costumava usar. 

Como sentia muito frio, sempre se enrolava nela para ver televisão. Ao lado da manta, havia uma revista médica aberta pela metade, com um post-it dela servindo de marcador entre as páginas. 

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Ele pegou a revista e viu a caligrafia delicada de Clara:

"Novas técnicas de primeiros socorros em alto-mar — Preciso estudar a fundo."

Primeiros socorros no mar. 

Ela já estava se preparando para a viagem desde aquela época? 

Tinha medo de que alguém passasse mal, caísse na água ou precisasse de ajuda. 

Ela só não imaginava que quem mais precisaria de socorro seria ela mesma. E que ele, com as próprias mãos, cortaria qualquer chance de salvação.

Bernardo foi até o quarto. 

A porta do armário estava entreaberta, e o vestido de noiva sob medida pendia silenciosamente no lugar mais visível. 

Ao lado do vestido, estava o primeiro presente que ele dera a ela: um cachecol já desbotado de tanto lavar.

Na época da faculdade, ele era pobre e não podia comprar presentes caros. 

Como ela sempre dizia que sentia frio no pescoço no inverno, ele usou o dinheiro do almoço que economizou por três meses para comprar lã.

Aprendeu escondido com a inspetora do alojamento por um mês inteiro e tricotou aquele cachecol. 

O ponto era torto e o acabamento grosseiro, mas Clara chorou de alegria ao recebê-lo. 

Ela colocou o cachecol e rodopiou na neve: 

"Bernardo, este é o cachecol mais quentinho do mundo!"

Mais tarde, ela teve inúmeros cachecóis de grife, cada um centenas ou milhares de vezes mais caro que aquele. 

Mas todo inverno, ela ainda o tirava da gaveta e o usava com carinho.

— Não esquenta mais — dissera ele uma vez. — Já está perdendo os fios, vou te comprar um novo.

Ela balançou a cabeça, escondendo o rosto na lã:

— Não quero. Foi você quem fez com as próprias mãos; ele tem o seu calor.

Bernardo agarrou o cachecol e enterrou o rosto nele profundamente. 

Não havia mais calor. Havia apenas o cheiro de poeira e o aroma antigo e quase dissipado do perfume dos cabelos dela.

— Clara... — ele murmurou, caindo de joelhos.

As lágrimas brotaram sem aviso, primeiro de forma silenciosa, depois como soluços abafados, até se tornarem um pranto lancinante e desesperado. 

Ele abraçava o cachecol como se abraçasse a última prova de que ela um dia existiu.

— Perdão, perdão...

— Eu errei, eu realmente errei.

— Volte, por favor, volte para mim.

Na casa vazia, apenas o som de seu choro convulsivo ecoava.

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