Um mês depois, o casamento de Bernardo e Letícia aconteceu conforme planejado. Foi ainda mais luxuoso e imponente do que o casamento de três anos atrás.
A ilha inteira foi submersa em rosas, helicópteros lançavam pétalas do céu e câmeras de transmissão global capturavam cada detalhe.
Letícia, vestindo um vestido de noiva sob medida avaliado em milhões, caminhava pelo tapete vermelho de braços dados com Bernardo, com um triunfo impossível de esconder no rosto.
Já Bernardo permaneceu inexpressivo durante todo o trajeto. Seu olhar varria constantemente os assentos dos convidados, a entrada e cada canto do salão.
Ele estava esperando. Esperando que aquela figura familiar invadisse o local, questionando-o aos prantos e chamando-o de infiel. Ele até já tinha planejado como iria "perdoá-la", contanto que ela viesse, contanto que ela aparecesse.
Mas não houve nada. A cerimônia chegou à metade e Clara não apareceu. O mestre de cerimônias proferia os votos com entusiasmo:
— Bernardo, você aceita Letícia como sua esposa, na pobreza ou na riqueza, na saúde ou na doença...
Bernardo olhou para a Letícia sorridente à sua frente e, de repente, sentiu que aquele rosto lhe era estranho.
O que passava por sua mente era a imagem de Clara saindo do provador com seu vestido de noiva, com os olhos sorridentes, perguntando: "Bernardo, estou bonita?"
— Bernardo? — Letícia sussurrou, lembrando-o.
Bernardo voltou a si e respondeu mecanicamente:
— Aceito.
Quando chegou a vez de Letícia, sua voz soou doce e firme:
— Aceito.
Aplausos calorosos ecoaram entre os convidados.
— Agora, por favor, os noivos troquem as alianças — anunciou o celebrante em voz alta.
No momento em que o assistente subia com as alianças, todos os alto-falantes do recinto emitiram um ruído estridente de interferência elétrica.
Zzzzt!
Todos paralisaram. Em seguida, uma voz feminina familiar saiu das caixas de som, nítida:
— Irmã, o que você está fazendo aqui?
Era a voz de Letícia. Mas o tom era completamente diferente do atual; era carregado de deboche e sarcasmo.
— Se você não está no baile com ele, o que veio fazer aqui?
Esta era a voz de Clara, calma, mas alerta.
Bernardo estremeceu da cabeça aos pés e levantou o olhar bruscamente.
— Como um baile poderia continuar sem a sua protagonista? — A risada de Letícia ecoou. — Se o Bernardo soubesse que esse filho que você carrega não é dele, o que ele pensaria?
— Diga o que quiser. — A voz de Letícia transbordava piedade: — Vamos ver em quem ele vai acreditar: em você ou em mim?
O salão explodiu em burburinhos! O rosto de Letícia empalideceu instantaneamente. Ela correu para tentar desligar o som, mas o painel de controle já estava bloqueado.
— Ah, irmã, esqueci de te contar uma coisa — continuou a voz de Letícia nos alto-falantes.
— O Bernardo nunca te contou? Ele deu um conjunto idêntico de dispositivos de comunicação para mim também. Só que o seu não está no navio; ele o jogou fora há muito tempo. O único que funciona é este que está comigo.
A voz de Clara tremia:
— Por que você faz isso comigo?
— Porque é divertido — o tom de Letícia era de uma leviandade cruel.
— Por que você é a filha biológica e eu sou apenas a adotada? Esta vida de luxo e riqueza deveria ser minha por direito! Foi você quem roubou a minha vida!
A gravação continuava. Letícia confessava como se aliou aos piratas e como planejou a armadilha para Clara.
O setor dos convidados virou um caos. Jornalistas batiam fotos freneticamente; as lentes da transmissão ao vivo registravam o rosto cadavérico de Letícia e a expressão lívida de Bernardo.
— Desliga isso! Desliga agora! — gritava Letícia.
Mas a gravação chegou ao trecho final.
— Bê... o nosso bebê... — era o som do choro falso de Letícia.
— Sua mulher venenosa! A Letícia é sua irmã! Como você teve coragem de encostar nela?! — era o rugido de Bernardo, seguido pelo som nítido de um tapa.
— Você me decepcionou demais!
O som de Clara sendo arrastada ecoou por todo o salão. A gravação terminou. O recinto mergulhou em um silêncio de morte. Bernardo ficou estático, como se sua alma tivesse sido drenada.
Ele se lembrou do olhar de Clara naquele dia no convés. Calmo, sem vida, sem qualquer ondulação. Foi ali que ela realmente deixou de amá-lo.
— Não é verdade, não foi assim... — Letícia agarrou o braço dele, debulhada em lágrimas. — Bernardo, isso é falso! A Clara me armou uma cilada!
Bernardo virou a cabeça lentamente e fixou os olhos nela. O olhar era frio como gelo, e Letícia soltou o braço dele, apavorada.
— O filho — Bernardo começou, com a voz rouca. — É realmente meu?
Letícia abriu a boca, mas não conseguiu emitir som algum.
— Fale! — Bernardo agarrou o pulso dela com tanta força que parecia que ia esmagar o osso.
— Eu...
Nesse exato momento, as portas do salão foram abertas violentamente.