Quando Clara acordou, a primeira coisa que sentiu foi dor. Era como se todos os seus ossos tivessem sido quebrados e cada centímetro de sua pele estivesse em brasa. Ela fez um esforço hercúleo para abrir os olhos; a visão demorou a focar.
Deparou-se com o teto de madeira de uma cabana desconhecida e um rosto estranho.
— Acordou?
Um homem aproximou-se, com um sorriso gentil. Parecia estar na casa dos trinta anos, tinha a pele bronzeada, traços marcantes e um olhar límpido.
— Você... — Clara tentou falar, mas sua voz estava rouca demais.
— Não se force — o homem entregou-lhe um copo de água morna, ajudando-a a se sentar com cuidado. — Você se feriu gravemente e ficou desacordada por três dias.
Após beber a água, ela finalmente conseguiu falar:
— Onde estou? Quem é você?
— Aqui é a Ilha do Luar, uma ilha remota. Meu nome é Ricardo, sou capitão da Equipe de Resgate Céu Azul. — Ele hesitou por um momento, e seus olhos brilharam com respeito: — Senhorita Clara, eu já ouvi falar de você.
O corpo de Clara ficou tenso.
— Não se preocupe — Ricardo acenou rapidamente. — Eu sei o que aconteceu naquele navio e sei pelo que você passou. Alguns dos meus homens participaram das buscas posteriores e descobriram parte da verdade.
"Verdade". Essa palavra causou uma pontada no peito de Clara.
— Foi você quem me salvou?
— Foi sorte — Ricardo coçou a cabeça. — Minha equipe estava treinando naquela área e vimos algo flutuando. Quando nos aproximamos, era você. Você estava presa em uma rede de pesca; se tivéssemos demorado um pouco mais...
Ele não terminou a frase, mas Clara entendeu. Ela morrera mais uma vez. E fora salva mais uma vez.
— Obrigada — ela baixou a cabeça, com a voz bem baixa.
— Não precisa agradecer — o sorriso dele era caloroso. — Você é quem é admirável. Soube pelos socorristas que você ajudou muitos doentes e fundou uma instituição de caridade. Tantas pessoas receberam sua bondade, e no entanto...
Ele não completou o pensamento, apenas balançou a cabeça.
Nos dias seguintes, Clara recuperou-se na Ilha do Luar. Ricardo cuidava dela com uma dedicação impecável.
Ele acordava cedo para pescar e preparar caldos frescos; acompanhava-a em caminhadas pela areia à tarde, contando histórias da equipe de resgate; e, quando ela acordava de pesadelos, ele permanecia silenciosamente vigiando do lado de fora da porta.
— Você não precisa fazer tudo isso — Clara disse várias vezes. — Já estou bem melhor.
— Você é a paciente, eu sou do resgate. É meu dever cuidar de você — Ricardo sempre respondia da mesma forma.
Clara percebia a compaixão e o carinho nos olhos dele, mas evitava corresponder. Seu coração estava morto; não havia espaço para mais ninguém.
Até que, numa tarde, Ricardo voltou da cidade com um jornal na mão e um semblante carregado.
— Clara — ele começou, hesitando. — Há algo que acho que você deveria saber.
Clara estava estendendo roupas no quintal e virou-se:
— O que foi?
Ricardo entregou-lhe o jornal. Na manchete da primeira página, em letras garrafais:
"GRANDE CASAMENTO DO SÉCULO: BERNARDO, PRESIDENTE DO GRUPO B&S, E LETÍCIA SE CASAM NO FINAL DO MÊS EM ILHA PARADISÍACA"
A foto mostrava Bernardo abraçando Letícia em um iate, ambos sorridentes. Os dedos de Clara vacilaram por um segundo, mas ela logo recuperou a calma. Deu uma olhada rápida e devolveu o jornal:
— Isso não tem mais nada a ver comigo.
— Mas...
— Ricardo — Clara o interrompeu, com a voz suave, porém firme. — Aquelas pessoas e aquelas histórias ficaram no passado. Não quero mais nenhum vínculo com eles.
Ela voltou a estender as roupas com movimentos precisos, como se realmente não se importasse. Ricardo observou suas costas frágeis e seus punhos se cerraram lentamente.
Naquela noite, após Clara adormecer, Ricardo sentou-se sozinho à beira-mar. Apertando o jornal entre os dedos, seu olhar tornou-se cada vez mais frio.
— Não deveria ser assim — ele sussurrou. — Pessoas boas não deveriam ser tratadas dessa forma. E quem faz o mal... deveria pagar o preço.