A luz da manhã de início de outono banhava a janela, como se o mundo estivesse coberto por um véu de ternura. Uma brisa fresca soprava o véu de Nara, levando consigo as inquietações de seu coração e dissipando qualquer confusão.
Ela estava parada junto à janela, ouvindo o burburinho lá fora. Um sorriso doce surgiu em seus lábios; o coração, que antes vivia em sobressalto, finalmente estava em paz. O altar da cerimônia fora delicadamente decorado com flores frescas e tules brancos. A luz do sol filtrava-se entre as copas das árvores, espalhando manchas douradas sobre o gramado verdejante, criando um cenário idílico. Pétalas de rosas vermelhas bailavam ao vento, pousando sobre as guirlandas meticulosamente arranjadas, adicionando um toque final de romance.
Além de amigos e familiares, grandes veículos de mídia estavam presentes para registrar o que prometia ser o casamento do século. Dante estava à entrada recebendo os convidados, porém seu rosto estava desprovido de qualquer sorriso.
— Dante, o que foi? — A cerimônia estava prestes a começar, e Nara percebeu que o humor de seu noivo não estava nada bom.
— Nada. Só estou esperando para te entregar um grande presente logo mais.
Antes que ela pudesse perguntar mais nada, a voz do mestre de cerimônias ecoou pelos alto-falantes:
— Por favor, recebam os noivos!
Nara, transbordando expectativa pelo "presente" de Dante, caminhou de braços dados com ele pelo tapete. Cada passo seguia o ritmo da felicidade; seus olhos brilhavam com o vislumbre de um futuro radiante. Quando a cerimônia chegava ao fim, eles pararam no centro do palco para agradecer aos convidados. Nara segurava a mão de Dante, sentindo-se envolvida por uma felicidade absoluta.
De repente, o enorme telão de LED atrás deles começou a exibir um vídeo.
"Seu pirralho! É por sua causa que a Maya continua ocupando o lugar ao lado do Dante!"
"Morre! Se você morrer, ela não terá mais desculpa para ficar rastejando atrás dele!"
No vídeo, Nara chicoteava brutalmente um garotinho, encurralando-o passo a passo em direção à janela. Os jornalistas, farejando o escândalo da década, correram para a frente com suas câmeras a postos. O rosto de Nara ficou lívido. Ela tentava se esquivar dos flashes, os olhos arregalados de pânico. Desesperada, correu até a mesa de controle, mas não conseguia desligar o sistema.
A voz perversa de Nara e os gritos agoniados da criança ecoavam por todo o recinto. Após um som de luta, ouviu-se um grito agudo e desesperado, seguido de um silêncio mortal. Os convidados assistiam à cena em choque absoluto. O menino fora empurrado por Nara e jazia no chão, coberto de sangue.
Nara debulhava-se em lágrimas de desespero, mas o vídeo não parava. Ela tentou lutar contra os seguranças que a retiraram da mesa de controle, mas foi jogada de volta ao palco sem piedade. Dante permanecia imóvel, com uma expressão de pedra.
O vídeo continuou. Agora a cena era em um velório. Nara aparecia usando um vestido vermelho berrante.
"E agora? A oficial está grávida, mas o filho de uma amante como você está fadado a ser jogado num orfanato! Hahaha..."
A risada de Nara, que antes soava vitoriosa, agora soava aterradora. Ela tentou pegar um microfone para abafar o som do vídeo, mas o áudio fora cortado; por mais que gritasse, ninguém a ouvia. No vídeo, capangas destruíam o altar fúnebre enquanto uma mulher grávida, vestida de branco, implorava de joelhos. Era Maya, protegendo desesperadamente uma urna de cinzas. Nara arrancou a urna de suas mãos e a jogou no chão.
Pof!
A urna se espatifou. Nara sorria com triunfo enquanto Maya tentava recolher as cinzas com as mãos trêmulas. Nara pisou sobre a mão dela, pressionando com força até o sangue brotar.
"Você já matou toda a sua família, por que não morre com eles de uma vez?"
O vídeo terminava com Maya, sozinha e sangrando, pulando desesperadamente para a morte. O gelo no rosto de Dante começou a trincar, e seus olhos ficaram injetados.
Dante estava ao lado de Nara, sua dor era evidente, mas rapidamente se transformou em uma fúria assassina. Ela entendeu instantaneamente: aquele era o "presente". Ele nunca havia esquecido o que acontecera com Maya; tudo não passara de um plano para deixá-la desprevenida.
Nara olhou para a multidão. Pela primeira vez, diante dos flashes, ela só queria desaparecer. Sua respiração ficou curta, cada tragada de ar parecia puro terror.
— Não sou eu! É falso... — Ela balançava a cabeça, a voz trêmula saindo do fundo da alma.
— NARA! VOCÊ AINDA TEM CORAGEM DE NEGAR! — Dante, que estivera em silêncio, explodiu em fúria.
Nara sentiu a alma tremer. Ela olhou para ele e viu o brilho da desesperança. Dante a puxou pelo braço, apontando para o telão, e disse pausadamente:
— Eu quero ouvir da sua boca. O que você fez? Quanto mais você escondeu de mim?!
Nara estava paralisada pelo medo. Os olhos de Dante, antes calmos, agora transbordavam um ódio oceânico. O olhar escarlate dele a fazia estremecer incontrolavelmente.
— Eu não... não fiz nada — gaguejou ela, com a maquiagem impecável escorrendo pelo rosto, tão arruinada quanto o próprio casamento.
— Nara, é melhor você confessar agora, ou eu darei um jeito de te fazer falar!
Dante estava no limite da sanidade. Nara, apesar de sua mente manipuladora, fora criada como uma princesa protegida; diante da pressão da mídia, do julgamento dos convidados e do olhar de decepção de seu próprio pai, ela finalmente quebrou.
— SIM! FUI EU QUE EMPURREI AQUELE PIRRALHO DO LUAN! E DAÍ?! — gritou ela, em um colapso emocional. — Eu odeio a Maya! Odiava o fato de ela estar grávida de você e de você ainda querer que eu criasse o filho dela! Eu sentia nojo! Foi você quem me disse que estava cansado dela, que ela não parava de te perseguir... eu só te dei uma ajudinha! O que eu fiz de errado?! Você diz que me ama, mas até agora usa o elástico de cabelo dela no pulso!
Nara rugia, o coração batendo como se fosse rasgar o peito. Ela ria entre as lágrimas, em um tom de pura melancolia.
— Dante, o verdadeiro assassino dela é VOCÊ!
A mão de Dante apertou o braço dela com tanta força que Nara gritou de dor.
— Eu errei — disse Dante, de repente, com a voz oca.
Ele soltou o braço dela bruscamente, e Nara desabou no chão, sem forças, escondendo o rosto nas camadas de tule do vestido de noiva. Dante olhou para ela. Ele estivera a um passo de torná-la sua esposa legítima. Por causa dela, ele levara Maya ao suicídio e vira seu único filho morrer antes de nascer. Ela tinha razão: ele a matara.
Dante apoiou-se no púlpito, sentindo o peso da culpa. Ele se lembrou de como defendeu Nara até o último segundo, ignorando os avisos desesperados de Maya. Ele achava que era apenas ciúme dela, mas não...
Nara, caída no chão, olhou para ele e começou a rir de forma histérica.
— Dante, você é patético. Você nem sabe de quem gosta de verdade.
Ela se levantou, arrancou os sapatos de salto alto e a cauda pesada do vestido, e começou a dançar balé ali mesmo, no palco em ruínas. Dante a observou e sentiu o peito apertar tanto que mal conseguia respirar.
Giselle!
A primeira vez que vira Nara dançar, fora
Giselle
. Memórias que ele tentara enterrar por anos inundaram sua mente como uma fera indomável. Ele percebeu, tarde demais, que tudo o que ele amava em Nara era, na verdade, o reflexo da Maya que ele conhecera na juventude.
No fim, quem ele sempre amou foi Maya...