A atmosfera estava pesada, carregada de uma tensão sufocante.
Clara Teixeira, percebendo o clima, retirou-se discretamente da sala de ensaio, fechando a porta com suavidade.
Nara sentou-se ao lado de Maya, com um tom de voz nada amigável.
— Você teve a chance de ficar ao lado dele por dez anos só porque chegou primeiro. Mas desde quando o amor segue ordem de chegada? Em uma relação, quem não é amada é que é a intrusa.
— Uma mulher velha como você deveria apenas pegar suas coisas e sumir. Pare de desejar o que não lhe pertence.
Maya não era de se entregar sem lutar. Só havia uma pessoa no mundo capaz de fazê-la baixar as armas.
— Mulher velha? — Ela soltou uma risada de escárnio, encarando Nara fixamente. — Nos últimos dez anos, era eu quem estava na cama dele.
Ao dizer isso, Maya propositalmente inclinou a cabeça, deixando à mostra as marcas arroxeadas em seu pescoço, vestígios da noite anterior.
— Eu aproveitei os melhores anos do vigor físico do Dante. No fim das contas, não saí no prejuízo.
O peito de Nara subia e descia violentamente de raiva. Sem aviso, ela desferiu um tapa no rosto de Maya.
— Vagabunda!
O impacto fez a cabeça de Maya virar para o lado, e uma mancha vermelha surgiu instantaneamente em sua pele alva.
Antes que Maya pudesse reagir, batidas urgentes e pesadas ecoaram na porta.
Uma voz familiar surgiu, tingida de ansiedade. Era Dante.
— Nara? Você está aí dentro?
A respiração de Maya travou por um segundo, e seus olhos começaram a arder, lutando contra as lágrimas.
Ignorando o sorriso vitorioso de Nara ao seu lado, Maya levantou-se e abriu a porta.
No momento em que a porta se abriu, o sorriso de Dante desapareceu, dando lugar a um olhar defensivo e frio.
— O que você está fazendo aqui?
Maya olhou para ele com um sorriso amargo e sem vida.
Aquela sala de ensaio havia sido cedida por ele especialmente para ela no passado. Ouvi-lo perguntar aquilo agora era um golpe cruel e inesperado.
— O senhor está surpreso em me ver na minha própria sala de ensaio, Sr. Rocha?
Nara aproveitou o momento para correr até ele, adotando um tom de voz inocente e doce:
— Dante, a Maya disse que era sua parceira e me obrigou a vir até aqui. Ela disse que eu sou a amante que destruiu o relacionamento de vocês...
O olhar de Dante tornou-se gélido instantaneamente, fixando-se em Maya como um aviso.
— Ela é só uma alpinista social que tentou me seduzir e falhou. Não temos intimidade, não precisa dar atenção a ela.
Ele segurou a mão de Nara e virou as costas, saindo sem dedicar um único olhar a Maya.
Eles se conheciam desde os três anos de idade. Foram vinte e cinco anos sem nunca se separarem...
Na noite em que ela completou dezoito anos, Dante entrelaçou seus dedos aos dela e jurou que ela seria seu único amor para sempre.
O rosto de Maya queimava pela bofetada, mas era o seu coração que parecia estar sendo esmagado. Ela mordeu o lábio inferior com força, segurando as lágrimas que teimavam em cair.
Maya ensaiou o dia todo, até tarde da noite, castigando o corpo até a exaustão total antes de voltar para casa.
Assim que chegou ao seu pequeno apartamento alugado, o telefone tocou. Era do hospital.
A voz da enfermeira do outro lado da linha a fez sentir como se tivesse caído em um abismo de gelo.
— Srta. Maya, seu sobrinho sofreu uma queda acidental de um andar alto. O estado dele é grave, por favor, venha o mais rápido possível!
O coração de Maya disparou de pânico. Ela apertou o celular com força.
— Entendido... obrigada.
Após desligar, ela correu para pegar um táxi. No caminho, tentou ligar para Dante repetidamente.
A voz mecânica e fria informava que a chamada não podia ser completada. Ninguém atendia.
Maya insistiu, uma vez após a outra, movida pelo desespero. Finalmente, na décima tentativa, ele atendeu.
Mas a primeira coisa que Dante disse foi: — Quem fala?
As lágrimas de Maya transbordaram instantaneamente.
— Sou eu...
Ele tinha... deletado o número dela.
Ela limpou o rosto, tentando controlar o soluço na voz.
— Por que o Luan caiu? Você não disse que cuidaria bem dele?
Luan era o único parente que lhe restava no mundo, o único sangue de seu irmão que permanecia vivo. Dante sabia perfeitamente disso.
A voz de Dante veio gélida e indiferente, secando as esperanças de Maya.
— Quem mandou ele tentar enfrentar a Nara por sua causa?
Maya ficou em choque, as lágrimas caindo sem controle enquanto um calafrio a fazia tremer por inteiro.
— Dante, o que significaram esses dez anos para você?
Ele respondeu sem hesitar, curto e grosso:
— Apenas conveniência mútua.
Duas palavras. Foi o que bastou para ele resumir, de forma cruel e vazia, toda uma década de vida.
Ele sempre soube exatamente onde cravar a faca no coração dela. Maya sentiu uma pontada de asfixia.
— Meu irmão, naquela época, deu a vida por você...
Antes que ela pudesse terminar a frase, o som do sinal de linha cortada foi tudo o que restou em seu ouvido.
O coração de Maya parecia ter sido arrancado, deixando apenas um vácuo de dor.
A escuridão dentro do carro a engoliu, e o vento que entrava pela janela era o único a secar as lágrimas em seu rosto.
Quando Maya chegou ao hospital, Luan estava sendo retirado do centro cirúrgico.
— Os sinais vitais do paciente estão instáveis. Ele será transferido para a UTI e as visitas estão suspensas por enquanto.
Com a mão trêmula, Maya tentou tocar o rosto pálido do pequeno Luan, mas parou a centímetros de distância, sem coragem.
— Entendo... obrigada, doutor.
Após pagar as taxas, ela encostou o rosto no vidro da UTI, observando o corpinho de Luan cercado por tubos e aparelhos. Cada bipe das máquinas era como uma agulhada em seu peito. Suas lágrimas pingavam no chão frio do hospital.
Em sua mente, vinha a imagem de seu irmão coberto de sangue. Na escola da vida, a lição sobre despedidas era a única em que ela sempre seria reprovada.
— Irmão, me desculpa... eu não cuidei bem do Luan...
Sua silhueta parecia solitária e frágil enquanto ela caminhava em direção à noite.
Ao passar por um bar, ela parou, hesitou por um segundo e entrou.
Ela precisava fugir da realidade, mesmo que fosse por um momento. O álcool era a única anestesia para sua alma ferida.
Maya bebeu copo após copo, misturando diferentes tipos de bebidas, perdendo a conta de quanto consumira.
Na manhã seguinte, ela acordou com uma dor de cabeça lancinante.
Ao perceber que vestia um roupão de hotel, Maya empalideceu. Sentou-se na cama rapidamente, aliviada ao notar que não sentia nenhum desconforto físico estranho.
Enquanto tentava reconhecer o quarto, o som do cartão abrindo a porta a assustou.
— Quem está aí?
Maya pegou o cinzeiro de cristal sobre o criado-mudo, apertando-o com força, os olhos fixos na porta em posição de defesa.
A porta se abriu, revelando um rosto familiar e sorridente.
A voz de Maya saiu rouca: — Giovanni?
Ele colocou uma bandeja sobre a mesa e lhe entregou um copo de água morna com mel.
— Fique tranquila, eu não sou o tipo de homem que se aproveita de uma mulher nessas condições.
Maya estava prestes a suspirar de alívio, quando Giovanni continuou:
— No entanto, fomos flagrados entrando juntos neste hotel. Os repórteres estão lá embaixo, esperando que a gente esclareça a situação.