— Você me decepcionou demais!
Bernardo segurava Clara pelos cabelos, arrastando-a para fora.
— Eu vou fazer você aprender a lição de uma vez por todas!
Letícia usou seu tom mais fingido e manipulador:
— Bê, a minha irmã não fez por mal, não faça isso...
— Numa hora dessas você ainda defende ela? Letícia, você é bondosa demais, por isso ela te humilha desde que vocês eram crianças! O olhar de Bernardo para Clara transbordava cada vez mais aversão.
Desta vez, porém, Clara não tentou se defender. Ela olhava entorpecida para baixo, vendo o sangue escorrer por entre suas pernas.
Ela queria dizer a Bernardo que estava grávida. Originalmente, aquela seria a surpresa que ela preparara com tanto carinho.
Mas agora, sentia uma dor dilacerante no ventre, como se pudesse ouvir o choro de um bebê se apagando.
— O quê? A Clara empurrou a Senhorita Letícia de novo? Como ela pode ser tão cruel!
— Vadia! — alguém gritou na multidão.
— Queimem ela! Queimem ela!
Quando todos no navio souberam do que Clara supostamente havia feito, a fúria tomou conta dos passageiros.
Clara atravessava a multidão hostil.
A médica benevolente, que dedicara a vida a salvar pessoas, agora era atingida por ovos e insultos extremamente perversos disparados por seus próprios pacientes.
Bernardo franziu a testa, e um lampejo de hesitação passou por seus olhos.
— Diante de tudo isso, você não tem nada a dizer?
Clara permaneceu em silêncio. Letícia sugeriu, com falsa preocupação:
— Bê, a Clarinha tem pavor de água, não a assuste desse jeito.
Bernardo, porém, sorriu com frieza:
— Tragam as correntes. Prendam-na e arrastem-na pelo mar!
Grilhões pesados e gelados foram colocados em Clara. Bernardo falou pela segunda vez:
— Se você admitir seu erro agora e se ajoelhar para pedir perdão à Letícia, posso ser mais benevolente.
Clara continuou em silêncio. A irritação de Bernardo crescia, e uma ansiedade inexplicável começou a dominá-lo.
Ele sentia que a Clara de hoje não era a mesma de sempre.
A Clara que ele conhecia era uma mulher orgulhosa, que nada conseguia abater; mas a mulher à sua frente parecia um fantoche sem alma, deixando-se levar por qualquer um.
— Se você me implorar agora, ainda dá tempo — disse ele pela terceira vez. Clara manteve seu terceiro silêncio.
— Irmã, o Bernardo está falando com você! Você o está ignorando... por acaso o despreza? A intervenção de Letícia no momento exato fez com que qualquer hesitação no coração de Bernardo desaparecesse.
— Então você ainda quer fazer joguinhos comigo!
— Ele soltou uma risada amarga e, com as próprias mãos, lançou Clara nas profundezas do oceano.
A água gelada engoliu Clara instantaneamente. Ela não fechou os olhos; em vez disso, aceitou a morte com serenidade.
Em sua mente, surgiu a imagem do primeiro encontro com Bernardo.
Naquela época, ela perguntou:
"Por que todos te maltratam?"
Ele respondeu:
"Porque minha família é pobre."
Ela disse:
"Então, de agora em diante, você será meu protegido. Eu vou te defender!"
Ele assentiu:
"Então eu também vou te proteger."
Um instante antes de atingir a superfície implacável do mar, Clara sussurrou para si mesma:
— Bernardo, eu nunca mais quero me apaixonar por você.