Clara tentou manter a compostura.
— Se você não está no baile com ele, o que veio fazer aqui?
Ela já havia enviado o sinal de socorro; em breve, as embarcações de resgate chegariam. Letícia não teria motivos para se vangloriar por muito tempo.
— Como um baile poderia continuar sem a sua protagonista? — Letícia sorriu vitoriosa.
Clara tentava ganhar tempo a todo custo:
— Se o Bernardo soubesse que esse filho que você carrega não é dele, o que ele pensaria?
— Diga o que quiser.
Letícia demonstrava uma confiança absoluta, tingida de uma piedade sarcástica:
— Vamos ver em quem ele vai acreditar: em você ou em mim?
Clara mergulhou no silêncio.
— Ah, irmã, esqueci de te contar uma coisa. Letícia tirou um walkie-talkie de dentro do vestido. Ela mexeu em alguns botões e, diante de Clara, ligou a recepção de áudio.
—
Socorro, socorro! Minha localização é...
A voz familiar ecoou no ambiente. O sangue de Clara gelou instantaneamente.
Era a sua própria voz. Letícia saboreava cada segundo da expressão de horror de Clara. Ela apertou o botão de resposta e falou.
No mesmo instante, uma voz idêntica saiu da gaveta ao lado dos pés de Clara:
— Recebido, irmã.
Letícia gargalhou:
— Clara, o Bernardo nunca te contou? Ele deu um conjunto idêntico de dispositivos de comunicação para mim também. Só que o seu não está conectado ao sistema do navio; ele o jogou fora há muito tempo. O único que funciona é este que está comigo.
Ao ser desmascarada, Clara, curiosamente, atingiu um estado de calma absoluta.
— Por que você faz isso comigo? Desde pequenas, eu nunca te tratei mal. Nossos pais sempre te mimaram, deram a você o quarto mais luxuoso, enquanto eu dormia em um sótão apertado. Eu abri mão de tudo por você. Por que você não me deixa em paz?
— Porque é divertido — respondeu Letícia com um tom leviano, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Por que você é a filha biológica e eu sou apenas a adotada? Esta vida de luxo e riqueza deveria ser minha por direito! Foi você quem roubou a minha vida! Nada mais justo do que eu te dar umas pequenas lições, não acha?
Clara tentou fugir, mas foi empurrada violentamente por Letícia.
Ela bateu o corpo contra a mesa, o impacto foi tão forte que o suor frio brotou em sua pele.
A gaveta se abriu com o choque e os objetos se espalharam pelo chão.
Um botão novinho rolou até parar na frente dela. Era o dispositivo de sinal original entre ela e Bernardo.
— Ele não jogou fora...
— Um sentimento de ironia tomou conta de Clara. No fim das contas, Bernardo enganara as duas. Havia espaço para ambas em sua rede de mentiras.
Ao ver o botão, Letícia ficou atônita por um segundo, mas logo seu rosto se transformou em puro ódio e ela avançou desesperada.
Naquele momento, Clara reuniu uma força que nunca soube que possuía. Ela se esquivou, pegou o dispositivo e apertou o botão.
Após um breve tom de chamada, a voz de seus pais veio do outro lado:
— Bernardo? O que aconteceu?
Ao ouvir a voz deles novamente, Clara sentiu as lágrimas transbordarem. Enquanto desviava dos ataques de Letícia, ela gritou:
— Pai, mãe! Me ajudem, por favor! A Letícia se aliou aos piratas, ela quer me matar!
BUM!
Um golpe pesado atingiu a nuca de Clara. Enquanto caía, ela viu o rosto de Bernardo, frio como uma estátua de gelo.
Letícia, que segundos antes atacava com fúria, agora estava sentada no chão com um ar de extrema vulnerabilidade, protegendo a barriga com as mãos e chorando:
— Bê... o nosso bebê...
— Sua mulher venenosa! A Letícia é sua irmã! Como você teve coragem de encostar nela?! Bernardo desferiu tapa após tapa no rosto de Clara, com uma violência brutal.
Quase ao mesmo tempo, a voz impaciente de seus pais veio pelo comunicador:
— Clara! Você não consegue parar de perseguir a Letícia? Ela é uma boa menina! Você não pode ser mais compreensiva e simplesmente deixá-la em paz por uma vez?