O telefone quebrado?
Clara levantou-se num salto e agarrou Letícia com força:
— O que você disse?
Letícia soltou um gemido de dor e, com os olhos marejados, buscou refúgio nos braços de Bernardo: — Bê, está doendo...
Slap!
Bernardo desferiu um tapa no rosto de Clara.
— Clara, o que você pensa que está fazendo?!
Ele a encarou com frieza:
— É apenas um telefone satelital. A Letícia não fez por mal, precisava agir dessa forma?
— Aquele aparelho era a minha vida! — Clara gritou desesperada.
Bernardo jamais entenderia que aquele telefone era sua única chance de mudar o destino trágico que a aguardava.
— Você enlouqueceu de vez! — Bernardo franziu a testa, irritado.
Letícia disse com uma voz doce e cínica:
— Irmã, não fique brava. Quando voltarmos, eu te compro um novinho, está bem?
Clara enxergou nitidamente o veneno e o deboche nos olhos de Letícia. Ela sabia que, para ela, não haveria uma "volta".
Lá fora, chamas intensas começaram a subir. Com um estrondo ensurdecedor, o primeiro bote salva-vidas explodiu em mil pedaços.
— Bê, que divertido! — Letícia batia palmas, radiante.
Bernardo sorriu com adoração e acenou para a tripulação:
— Gostou, meu amor? Então vamos explodir mais alguns para te dar prazer!
Os botes salva-vidas foram sendo destruídos um a um. Faíscas ofuscantes cruzavam o céu, deixando rastros de fogo sobre a superfície do mar. No convés, os passageiros riam e comentavam:
— Cada bote desses deve custar milhões, não? O Senhor Bernardo deve amar muito a Senhorita Letícia para transformá-los em fogos de artifício!
— A Senhorita Letícia é tão bondosa, ela até pagou nossos tratamentos médicos. Ela merece todo esse carinho!
— Já a Clara... como pode alguém da mesma família ser tão desprezível?
Clara já não ouvia mais nada. Ela observava em silêncio o último bote transformar-se em cinzas, sentindo um vazio absoluto em sua alma.
— Querida, teremos um baile à noite. Preparei especialmente para você, não se atrase.
Bernardo jogou um vestido sobre a cama e saiu com Letícia.
O tecido era muito branco, como uma folha de papel imaculada. Ele era sempre assim: achava que dinheiro e presentes podiam apagar qualquer ferida.
Clara lembrava-se bem. Hoje à noite o navio entraria em águas internacionais.
Seria o momento em que os piratas cercariam a embarcação e ela seria jogada nas profundezas pelo próprio marido.
— Mas ainda resta uma chance.
À noite. Ela percorreu o corredor furtivamente até chegar à cabine do capitão.
"Bernardo, você ama tanto o mar... se você sair para navegar e eu não conseguir te encontrar, o que eu faço?"
Naquela época, Bernardo entregara um pequeno dispositivo nas mãos dela:
"Então você aperta este botão. Basta um toque para eu te localizar."
Antes de partir, Clara deixara aquele transmissor de sinal com seus pais.
Agora, aquele presente de Bernardo tornara-se sua última esperança.
A cabine do capitão estava vazia.
A música do baile podia ser ouvida nitidamente, mesmo à distância. Ela rapidamente vasculhou a gaveta mais baixa e encontrou o botão.
— Socorro, socorro! Minha localização é...
Ela enviou o sinal de emergência.
Uma tensão indescritível tomou conta de seu corpo.
— Irmã, o que você está fazendo aqui?
A voz de Letícia surgiu subitamente atrás dela.
Clara estancou, o corpo rígido. Ao se virar, deu de cara com o sorriso sarcástico de Letícia.
— O Bernardo está te procurando há um tempão, ele está quase louco de preocupação.
— A propósito... com quem você estava falando agora pouco?