Tubarões de exibição?
Se fosse antigamente, Clara certamente questionaria se Bernardo estava cego. Mas agora, ela não tinha o menor desejo de dirigir a palavra a ele.
Sem sequer dedicar-lhe um olhar, caminhou entorpecida em direção ao tanque. Ela precisava daquele telefone satelital.
Bernardo estacou, sentindo uma inquietação crescer em seu peito. Ele segurou o braço de Clara, e um brilho de preocupação pouco natural surgiu em seu rosto.
— Você... tome cuidado.
Clara se soltou com frieza e mergulhou na água.
Na primeira vez em que ela se afogou, foi Bernardo quem surgiu como do nada para salvá-la.
Desde então, ele sabia perfeitamente o quanto ela temia a água.
— Clara, de agora em diante, não deixarei você encostar em uma gota de água sequer.
E ele cumprira a promessa. Se ela ia lavar a louça, Bernardo a impedia e dizia, sério, que ele cuidaria disso.
Se ela ia tomar banho, ele se oferecia para ajudá-la, limpando-a com todo o cuidado.
Se ela ia beber água, ele ficava ao lado, temendo que qualquer coisa desse errado.
Quanto maior fora o amor, mais profundo era o rancor agora.
Clara não conseguia entender como, em poucos meses, Bernardo pudera mudar a ponto de se tornar aquela pessoa.
— Ei! Ela entrou! — Irmã, dá um show para o pessoal! Letícia batia palmas, rindo alto.
— Podem ficar tranquilos, há seguranças e equipes médicas por perto, nada vai acontecer.
Bernardo observava com o olhar sombrio, mas permitiu que um leve sorriso surgisse em seus lábios.
No instante em que mergulhou, o frio e o pânico quase a sufocaram. Ela reuniu todas as suas forças e nadou em direção ao telefone.
Porém, o sangue em seu ombro atraiu os predadores. Um dos tubarões mordeu violentamente seu ombro, e o vermelho rubro se espalhou instantaneamente pelo tanque.
Letícia notou que os punhos de Bernardo se cerraram com força.
— Não é nada, não é nada! Vocês esqueceram que minha irmã foi a melhor aluna da faculdade de artes cênicas? Isso tudo são efeitos especiais. Embora sorrisse, os olhos de Letícia brilhavam com um ódio venenoso.
A respiração de Bernardo acalmou-se um pouco, embora as palmas de suas mãos estivessem suadas.
O tanque estava tão saturado de sangue que ele já não conseguia enxergar nada.
Splash!
Clara emergiu, com o rosto pálido como a morte.
— Muito bem! Uma onda de aplausos ecoou pelo salão.
— Eu não disse que ela ficaria bem?
— Letícia tranquilizou a todos, enquanto praguejava internamente. Ela tinha trocado os animais por dois tubarões muito mais agressivos; por que aquela mulher ainda não estava morta?
No momento seguinte, Clara foi puxada bruscamente de volta para o fundo! Bernardo franziu a testa, preocupado.
Letícia, radiante, comentou:
— Ela ainda está atuando. Olhem como a água se agita, parece mais real que um dublê profissional.
Mas, rapidamente, a superfície da água acalmou-se. Bernardo levantou-se num salto.
— Bernardo, não vá, não estrague a performance dela... Ele empurrou Letícia para o lado e correu em direção ao tanque.
...
Quando Clara abriu os olhos, deparou-se com o olhar indecifrável de Bernardo. Ao vê-la acordar, a primeira frase dele foi:
— Por que você teve que ser tão teimosa?
Clara soltou uma risada amarga:
— Não foi você quem mandou eu descer? Ela não esperava que a primeira coisa que ouviria dele fosse uma recriminação. Por um breve momento, chegou a pensar que ele tivesse se arrependido. Que tola. Como ainda podia nutrir esperanças em relação a esse homem?
— Hoje é o aniversário da Letícia, eu só queria que ela ficasse feliz.
— E eu? Eu simplesmente mereço morrer? Bernardo ficou sem palavras, engasgado com a própria culpa.
Clara percebeu então que o telefone satelital não estava lá.
— Onde está o telefone?
Bernardo franziu o cenho:
— Por que você insiste tanto nesse telefone? A Letícia queria, então eu dei a ela.
Antes que ele terminasse de falar, um estrondo veio de fora do quarto.
Letícia entrou correndo com os olhos marejados e se jogou nos braços de Bernardo:
— Bê, eu acabei derrubando o telefone sem querer e ele quebrou.