CAPÍTULO 4
— Já que você também renasceu, deveria saber que o que eu digo é verdade! Por que ainda não avisou o Bernardo para se preparar contra os piratas?!
Clara não conseguia entender.
Os piratas começariam a matar assim que subissem a bordo; será que Letícia não tinha medo de morrer?
Nesse exato momento, a porta rangeu.
Dois homens corpulentos e de feições brutas entraram no recinto.
Ao ver a cicatriz aterrorizante no rosto de um deles, Clara sentiu sua respiração parar.
— Piratas? — ela balbuciou.
Letícia sorriu com desdém.
— Que piratas?
O homem da cicatriz curvou-se com humildade:
— Senhorita.
Letícia disse calmamente:
— O Bernardo está quase voltando. Levem-na daqui e façam o que quiserem com ela.
Com sorrisos perversos, os homens cercaram Clara:
— Senhorita Clara, você tem uma pele tão delicada...
Um desespero sem precedentes inundou o coração de Clara.
Bernardo... Sim! Bernardo!
Clara sentiu vontade de rir da própria desgraça; agora, a única pessoa que poderia salvá-la era justamente ele.
Não muito longe dali, Bernardo vinha correndo com uma caixa de morangos nas mãos.
— Bernardo! — gritou Clara, mas sua boca foi imediatamente tapada.
— Cala a boca!
Um dos homens desferiu vários tapas violentos em seu rosto e começou a arrastá-la à força para um canto escuro.
Bernardo parou por um instante e olhou ao redor, franzindo a testa. Ele teve a impressão de ter ouvido a voz de Clara.
Nesse momento, Letícia acenou para ele. Bernardo abandonou seus pensamentos e afastou-se sem olhar para trás.
O coração de Clara afundou definitivamente no abismo.
— Quem vai primeiro?
— Eu vou.
Clara lutava com todas as suas forças, mas era impossível vencer dois homens tão robustos.
— Quanto mais brava, melhor! Eu adoro domar éguas selvagens!
Screeech—
O som do tecido se rasgando ecoou, expondo sua pele alva.
Bam!
De repente, a porta foi aberta com um chute. Bernardo invadiu o local.
— Bê, por favor, não culpe a minha irmã. Acho que ela só está um pouco confusa — disse Letícia rapidamente.
— Bernardo, me salva! — Clara exclamou, com o rosto banhado em lágrimas.
No entanto, Bernardo deu um passo atrás com uma expressão de nojo.
— Clara, você está tão desesperada por homens assim? Só porque eu dei um pouco de atenção à Letícia, você faz isso comigo? No nosso navio de casamento, se envolvendo com outros homens?
Clara rastejou em direção a ele, balançando a cabeça em negação:
— Não é isso, não é nada disso... Bernardo, eles são piratas...
Mas ela foi repelida por um chute de Bernardo.
— Piratas? Clara, agora eu entendi. Você quer chamar a minha atenção de propósito, por isso armou todo esse teatro! Que ridículo!
Letícia interveio no momento certo:
— Bernardo, não brigue com ela. Ela faz isso porque te ama demais e tem medo que eu te roube dele.
— Eu sou um homem livre, não sou propriedade de ninguém!
— Bernardo rosnou, encarando Clara.
— Nunca fui antes e não serei agora!
Dito isso, ele saiu imponente levando Letícia, abandonando Clara sozinha na escuridão.
"Clara, nesta vida, na próxima e em todas as outras, eu pertencerei apenas a você!"
"Clara, eu nunca vou te deixar."
"Clara, estarei aqui sempre que você precisar."
Lembranças de promessas vazias passavam por sua mente enquanto lágrimas silenciosas e amargas escorriam por seu rosto entorpecido.
— Fecha essa boca, ou eu te jogo no mar para os tubarões!
Quando Clara foi levada ao salão de festas, Bernardo estava cortando o bolo de aniversário para Letícia.
— Abre a boca, meu anjo. O cunhado vai te dar na boca.
— Para, Bernardo! Que bobagem! Hihi!
— Letícia ria, dengosa.
Todos elogiavam como Bernardo e Letícia formavam um belo par. E todos testemunharam a humilhação de Clara.
Ela estava suja, com o cabelo desgrenhado, parecendo uma louca.
Aquela cena apenas realçava Letícia, ao lado de Bernardo, como a verdadeira dama da alta sociedade.
— Você ainda não cansou do espetáculo? Se vestir assim é apenas para se fazer de vítima?
— Bernardo franziu o cenho, com um sorriso frio que não chegava aos olhos.
— Bernardo... dói — murmurou Clara, num fio de voz.
A garganta de Bernardo se contraiu e um lampejo de preocupação cruzou seu olhar por um breve segundo.
Letícia, fingindo bondade, tentou cobrir Clara com um casaco: — Irmã, vista isso. Você é frágil, não pode passar frio.
Mas Bernardo puxou Letícia para longe:
— Ela está doente. Fique longe dela, não quero que ela transmita nada para você ou para o bebê.