Os piratas chegariam ao navio em apenas dez minutos.
Clara não tinha muito tempo. Ela se levantou apoiando o corpo como podia, lutando contra o pavor que gelava seu sangue, e caminhou cambaleante para fora.
Ao passar pela cabine do capitão, os sons afetados e as vozes manhosas vieram exatamente como ela lembrava.
A porta estava entreaberta, e Clara deu de cara com o olhar triunfante de Letícia. Mesmo que já esperasse por isso, testemunhar a cena novamente não a impediu de sentir uma pontada aguda no peito.
— Não encosta em mim! Sai daqui!
Essa tinha sido a primeira frase que Bernardo dissera a Letícia quando ele visitou a casa da família de Clara pela primeira vez.
— O jeito que você me olha não é puro.
Naquela época, Bernardo obrigou Letícia a se ajoelhar e a castigou severamente. Foi Clara quem se arriscou e implorou para protegê-la, impedindo que Bernardo a machucasse irremediavelmente. Quantos anos se passaram desde então?
— Bê, vai devagar... não machuque o nosso bebê. Letícia acariciava a barriga, com uma expressão de devoção absoluta.
Clara sentiu o mundo girar, as pernas vacilando. Um bebê. Um mês atrás, Letícia chegara em casa ensopada, dizendo que alguém havia se aproveitado dela.
A partir daquele momento, a atitude de Bernardo em relação a Letícia mudou completamente.
Clara pensou, inicialmente, que ele estava sendo gentil com a cunhada por amor à esposa, mas a verdade era que ele era o pai daquela criança.
— Clara, estamos juntos há sete anos. Deixe-me te dar o casamento dos seus sonhos, sim? No dia do pedido, quando Bernardo se ajoelhou, Clara viveu o momento mais feliz de sua vida. Mas Bernardo, se você já tinha um filho com outra pessoa, por que ainda veio me pedir em casamento?
— Não se preocupe. Além do mais, a Clara é a melhor ginecologista que existe. Com ela por perto, nada vai acontecer com você ou com o bebê. As palavras dele foram como uma lâmina, retalhando o que restava do coração já estraçalhado de Clara.
Ela não sabia como conseguiu reunir forças para sair dali.
Quando alcançou a popa do navio, estava ofegante e a vertigem quase a consumia.
Por sorte, o bote salva-vidas estava logo à frente. Ela só precisava ligá-lo para escapar daquele pesadelo.
— Clara? O que está fazendo aqui? A voz de Bernardo ressoou atrás dela.
Clara cravou as unhas na própria palma, forçando-se a não desmaiar.
— Estava abafado lá dentro. Vim tomar um ar.
O olhar de Bernardo era inquisitivo, desconfiado. Foi então que Letícia segurou a mão de Clara:
— Clarinha, já vão cortar o bolo. Vamos voltar, por favor.
Não, ela não podia voltar! Instintivamente, Clara tentou se soltar, mas a força de Letícia era surpreendente, como pinças de metal que a machucavam.
Mesmo sem que Clara fizesse esforço algum, Letícia soltou um grito e caiu no chão.
— Letícia! Bernardo correu desesperado, tomando-a nos braços para protegê-la. Letícia, com os olhos vermelhos e uma expressão de vítima, murmurou:
— Cunhado, não foi culpa da Clarinha... o vento estava forte, eu me desequilibrei sozinha.
— Você acha que eu sou cego? Ficou claro que ela te empurrou! Bernardo encarou Clara com fúria:
— Clara, você passou dos limites! Como pode tratar uma grávida desse jeito? Se acontecer alguma coisa com o bebê, você vai conseguir carregar essa culpa?
Clara quase fora derrubada em direção ao mar com o impacto da acusação.
— Talvez a Clarinha tenha visto as marcas no seu pescoço e pensou que fui eu... Bernardo franziu o cenho. Um rastro de culpa passou por seus olhos, mas foi rapidamente substituído por uma arrogância defensiva:
— Por causa de uma bobagem dessas você desconfia de nós? E ainda ataca sua própria irmã?
— Clara, eu sou o cunhado dela! É natural que eu a segure ou a proteja, marcas acontecem! Pare de ser tão paranoica e possessiva!
Clara sentiu vontade de rir. Era ridículo. Ela nunca imaginou que Bernardo pudesse ser tão hipócrita a esse ponto.
— Bernardo, eu quero o divórcio! Acabou entre nós! Diante de tudo aquilo, ela não aguentou mais e explodiu.
O rosto de Bernardo estremeceu por um segundo. Logo depois, ele relaxou e balançou a cabeça com um suspiro de cansaço:
— Clara, para com esse drama. Tem muita gente esperando por nós, volte comigo agora.
— Se você se divorciar de mim, como as pessoas vão olhar para a Letícia? Ela já tem uma vida difícil carregando um filho sozinha. Se tiver uma irmã barraqueira, como ela vai conseguir reconstruir a vida dela depois?
Slap!
O som do tapa de Clara ecoou no rosto de Bernardo.
— E eu?! — gritou ela. Bernardo ficou estático, olhando para ela em choque. Jamais imaginaria que a doce e gentil Clara perderia o controle a ponto de agredi-lo.
— O meu marido se envolve com a minha irmã de criação! Como você acha que as pessoas vão me olhar?!
Bernardo baixou a cabeça, incapaz de sustentar o olhar dela por um momento. Clara se virou imediatamente para ligar o motor do bote.
Ela não suportava ficar ali nem mais um segundo.
Nesse instante, Letícia começou a gemer de dor:
— Cunhado, dói muito... meu bebê, está doendo...
Bernardo agarrou o braço de Clara com violência, arrastando-a de volta à força. Seu olhar agora era frio como o gelo das profundezas do oceano:
— Você não vai a lugar nenhum. Se você for embora, o que será da Letícia e do bebê?