Antes de ser dilacerada pelos piratas, Clara implorou por socorro três vezes.
Na primeira vez, seu marido, Bernardo, estava celebrando o aniversário de sua irmã de criação.
— Ela é apenas minha irmã, não imagine coisas! Enquanto isso, os piratas rasgavam as roupas de Clara e a arrastavam pelos cabelos para dentro da cabine.
Na segunda vez, ela conseguiu escapar e correu até Bernardo para pedir ajuda.
— Até quando você vai continuar com esse drama? Acha divertido contratar essas pessoas para encenar isso? Com um sorriso cruel, os piratas a jogaram no tanque de tubarões. Sua irmã de criação batia palmas, rindo alto.
— Que suco de ameixa realista! A atuação da Clara é impecável!
Quando ela implorou a Bernardo pela terceira vez, já em seu último suspiro. Ele apenas disse que ela estava se fazendo de vítima. E a jogou pessoalmente no mar.
Após renascer, diante da troca de olhares cúmplices entre os dois, Clara vestiu calmamente o colete salva-vidas. Desta vez, ela não pretendia salvar ninguém naquele navio.
...
— Clarinha, por que está vestindo isso? Por acaso suspeita que o Bernardo vai afundar um transatlântico deste tamanho? Letícia piscou seus grandes olhos marejados, encarando Clara com uma expressão de total inocência. Bernardo, vestido em seu uniforme de capitão, permanecia em meio à brisa marinha com o semblante fechado.
— Clara, não estrague o clima.
Lembranças trágicas inundaram a mente de Clara. Bernardo era o capitão mais jovem do mundo náutico e, por isso, Clara lhe dera de presente o maior navio de passageiros do planeta.
— Clara, vamos fazer nosso cruzeiro de casamento. No dia da cerimônia, Bernardo segurou sua mão, com os olhos brilhando como estrelas. Clara aceitara com alegria.
Uma rajada de vento soprou subitamente e Letícia soltou um grito ao cair. Bernardo correu desesperado para ampará-la em seus braços.
Clara, porém, perdeu o equilíbrio e caiu no convés, com o rosto coberto de sangue. Se não tivesse segurado o corrimão por instinto, teria caído diretamente no oceano. Diante dela estava o mar profundo e revolto, o que a deixou pálida de terror.
Um par de mãos fortes a puxou para cima.
— Clara, como você pode ser tão descuidada? Havia um tom de reprovação na voz de Bernardo.
— Letícia está grávida e não pode correr riscos. Você entende isso, não entende?
Letícia logo interveio, segurando sua barriga levemente protuberante, embora o triunfo e a astúcia em seus olhos fossem evidentes.
— Isso mesmo, Clarinha. O Bernardo fez isso para me proteger, não fique brava com ele.
No início, Clara também pensava assim. Desde a infância, seus pais demonstravam um favoritismo excessivo por aquela irmã adotiva de destino sofrido.
— Clara, a Letícia não teve as mesmas oportunidades que você, ela sofreu muito. Como irmã mais velha, você deve ser compreensiva.
Por causa disso, Clara abriu mão de sua boneca favorita. Abriu mão de seu próprio quarto.
Abriu mão de sua vaga na universidade. Mas ela não imaginava que, agora, teria que entregar também o marido que amou por tantos anos.
Ela se lembrava claramente que, na vida passada, daqui a dez minutos, flagraria Bernardo e Letícia em um momento de intimidade desenfreada na cabine do capitão.
— Bernardo, vá devagar... não tem medo que a Clara veja?
— Assim que entra no navio ela fica tonta, não conseguirá chegar até aqui.
O rosto de Bernardo exibia um desejo e uma entrega que Clara jamais vira.
— De novo... mais uma vez...
— Bernardo, por que você não se divorcia da minha irmã de uma vez?
As palavras de Letícia trouxeram Bernardo de volta à realidade por um instante. Ele respondeu com voz grave.
— O lugar de Senhora Bernardo pertence apenas à sua irmã! Nem tente ocupar esse posto!
Letícia chorou com os olhos vermelhos, mas seus braços envolveram os ombros largos dele.
— Tudo bem, eu não vou disputar... mas você pode passar mais tempo comigo? Bernardo franziu a testa com compaixão, desejando se fundir completamente a ela.
Clara cerrou os punhos com força. Mesmo que sua alma já estivesse em pedaços por causa de Bernardo na vida anterior, a dor profunda ainda era inevitável.
Ao ver que Clara permanecia em silêncio, Bernardo franziu o cenho e deu um passo à frente, protegendo Letícia atrás de si.
— Clara, você não vai sentir ciúmes até da sua própria irmã...
— Eu entendo.
Clara interrompeu a frase dele antes que pudesse terminar. Ele a encarou profundamente, tentando decifrar por que aquela mulher que costumava fazer cenas de ciúmes e birras por qualquer coisa parecia tão diferente hoje. Mas tudo o que viu foi um sorriso leve no rosto dela.
— Você é meu marido e a Letícia é minha irmã. Por que eu não confiaria?
Afinal, ela já não o queria mais. Uma expressão de alívio finalmente surgiu no rosto de Bernardo.
— Clara, fico tão feliz que pense assim...
Ele estendeu a mão para ela. Ao pensar que aquelas mãos estavam impregnadas com os vestígios de Letícia, Clara sentiu uma náusea insuportável.
— Clara, o que foi?
Ele pareceu
entrar em pânico, como uma criança. Tomou Clara nos braços e correu com ela até a cabine de luxo com vista para o mar.
— Deve ser o enjoo de novo. Clarinha, não tenha medo, eu estou aqui. Olhe para o mar, isso ajuda a melhorar o mal-estar.
A preocupação em seu rosto parecia tão real que fizera Clara nutrir esperanças ilusórias inúmeras vezes.
Através da enorme janela panorâmica, via-se o oceano infinito. Cardumes de peixes nadavam diante do vidro, mas aos olhos de Clara, pareciam criaturas monstruosas.
Ela respirou fundo. — Bernardo, você sabe que eu tenho fobia de mar profundo?
O rosto de Bernardo estancou.
— Que tipo de brincadeira é essa? Você sempre amou o mar. É por causa da Letícia de novo? Ele suspirou com resignação e afagou a cabeça de Clara com carinho.
— Está bem, meu amor, eu juro que você é a pessoa que eu mais amo nesta vida. Por favor, não diga essas coisas apenas para chamar minha atenção, está bem?
Antes que terminasse de falar, um tripulante chegou apressado.
— Capitão, algo aconteceu com a Senhorita Letícia.
A expressão de Bernardo mudou instantaneamente. Ele se levantou e saiu sem olhar para trás. Clara gritou com toda força.
— Bernardo! Os piratas estão chegando! Se quiser viver, mude a rota agora mesmo e peça socorro!
Os passos de Bernardo não hesitaram por um segundo sequer.
Observando suas costas, Clara desistiu completamente. Ela baixou os olhos e retirou o anel de diamante.
— Bernardo, adeus. Para sempre.