Apesar do estilhaço estar encostado na pele, Soraia não tinha a menor intenção de se machucar; não havia sequer um arranhão ou marca de sangue. Beatriz fechou os olhos, recusando-se a assistir àquela farsa.
— Que confusão patética...
Ela não conseguia entender como Soraia tinha coragem de dizer aquilo, e muito menos como Henrique podia ser tão estúpido a ponto de acreditar.
— Beatriz! Como eu nunca percebi que você era tão perversa? A Soraia é a única amiga em quem confio, e você quer nos obrigar a cortar laços!
Enquanto acusava Beatriz, Henrique tomava o vidro da mão de Soraia. Mesmo com as próprias mãos sangrando pelos cortes, sua prioridade era verificar se Soraia estava ferida.
Beatriz, sem palavras, agachou-se no chão para recolher os restos do seu celular quebrado. Em um momento de puro deboche, ela apontou o aparelho destruído para os dois.
— Pessoal aí de casa, vocês acham que meu ex-marido e a "amiga" dele são só amigos?
— Que tipo de amigos vão para a cama e passam três dias e três noites juntos?
— Alguém aí faz "duelo de espadas" com os amigos? Se sim, digitem 1 no chat.
Beatriz estava sendo levada ao limite. Para lidar com dois desequilibrados, ela sentiu que precisava agir como uma louca também. Henrique protegeu Soraia em seus braços, escondendo o rosto dela, enquanto voltava a ameaçar Beatriz:
— Beatriz! Você enlouqueceu? Sabe que calúnia é crime!
Ele avançou e chutou os restos do celular dela para longe, garantindo que o aparelho não ligasse nunca mais. Beatriz ficou preocupada; se Gabriel não conseguisse falar com ela, ele viria até ali derrubando tudo.
— Bia, eu admito que te negligenciei ultimamente — Henrique disse em tom de concessão. — Vou te compensar. Vou te comprar joias caríssimas e te levar às melhores festas da alta sociedade.
— Mas não se meta mais na minha relação com a Soraia.
Beatriz suspirou e assentiu de forma superficial, querendo apenas ganhar tempo para escapar. No entanto, ao tentar sair com sua mala, Henrique a bloqueou novamente, segurando seu pulso com incompreensão.
— Você não disse que me perdoava? Por que ainda quer ir embora?
— A Soraia vai morar aqui conosco por um tempo. Você não precisa sair para dar lugar a ela, só precisa ceder o quarto principal.
— Vou pedir para o meu assistente entregar as joias no quarto de hóspedes.
A paciência de Beatriz esgotou-se completamente. Ela desvencilhou-se dele com um solavanco.
— Já que eu me casei, é natural que eu vá morar com o meu marido.
— Quanto às joias, meu marido vai comprá-las para mim. Não se preocupe.
As palavras dela foram tão diretas que Henrique hesitou. Percebendo a dúvida dele, Soraia jogou mais lenha na fogueira:
— E a sua mãe? Ela ainda está no hospital da família Valente. Você acha que ela abriria mão da melhor estrutura médica da cidade por orgulho?
A idiota da Soraia tinha razão em um ponto: Beatriz precisava do hospital. Mas Henrique não era o único herdeiro dos Valente. Como esperado, Henrique recuperou a arrogância e tomou a mala da mão de Beatriz.
— A Soraia está certa. Sua mãe depende do meu hospital. A medicação foi perdida, mas se você esperar mais uns dez anos, talvez surja algo novo. Há males que vêm para o bem, não é?
Antes que Beatriz pudesse retrucar, a porta da mansão foi arrombada com um chute violento. Gabriel entrou com um cigarro na boca e uma expressão sombria. Ao ver Beatriz cercada e vulnerável, seu rosto escureceu ainda mais. Ele caminhou até ela, ajudando-a a levantar e verificando cada detalhe em busca de ferimentos.
Henrique, furioso ao ver a intimidade dos dois, puxou Beatriz para trás de si, tentando separá-la de Gabriel.