Beatriz sentiu como se tivesse sido atingida por um raio. Em um movimento instintivo de dor e fúria, ela golpeou a mão de Henrique, derrubando a tigela de comida que ele segurava.
— Henrique! Você tem noção de quantos anos eu esperei por isso?! Você sabe que eu só continuei viva por causa dessa esperança? Foi por esse único motivo que eu aceitei todas as humilhações de vocês dois!
Ela tremia de tanto chorar, mas os dois à sua frente apenas a observavam com frieza, como se estivessem diante de uma piada de mau gosto.
— Precisava disso tudo, Beatriz? — Soraia suspirou, usando um tom acusador. — Você faz ideia do esforço que o Henrique fez acordando cedo para cozinhar para mim com as próprias mãos?
Em seguida, Soraia voltou-se para Henrique com um olhar desamparado e carente:
— Henrique, a comida estava deliciosa e eu finalmente tinha recuperado o apetite... mas agora tudo foi desperdiçado.
O rosto de Henrique iluminou-se de alegria ao ouvir que ela queria comer. Ele se virou para sair apressadamente, sem dedicar sequer um olhar para Beatriz.
— Eu vou para casa fazer tudo de novo agora mesmo! O importante é você ter apetite!
O quarto mergulhou em silêncio, restando apenas Beatriz e Soraia. Sem a presença de Henrique, Soraia abandonou qualquer máscara de fragilidade. Ela pegou um guardanapo, limpou calmamente as manchas de sopa em sua roupa e atirou o papel sujo em cima de Beatriz.
— Esqueça aquela ampola insignificante. Mesmo que a sua mãe morresse hoje e você estivesse desesperada para o funeral, o Henrique teria que terminar de me dar a comida na boca antes de ir resolver os seus problemas.
Soraia sorriu ao ver a fúria e o desespero estampados no rosto de Beatriz.
— O quê? Quer me matar? Pode tentar. Mas pense bem nas consequências: se eu perder um único fio de cabelo, aquela vida miserável da sua mãe não dura um segundo.
Beatriz encarava Soraia, tão sufocada pelos soluços que mal conseguia falar.
— Por quê? — ela finalmente sussurrou. Não conseguia entender como outra mulher podia nutrir tanta maldade gratuita.
Soraia soltou uma risada leve, fixando os olhos nos de Beatriz com um ar de desafio puro.
— Por nada especial. Eu só acho divertido.
— Ver alguém se curvando diante de mim, ver alguém ser manipulado como um fantoche, ver alguém rastejando aos meus pés como um cão... é muito divertido. Só por isso.
Um motivo tão absurdo que Beatriz sentiu vontade de rir de sua própria desgraça. Ela fechou os olhos, sentindo-se impotente pela primeira vez, e deixou de lado todo o orgulho para tentar uma última cartada.
— Se você gosta tanto do Henrique, eu posso deixá-lo para você...
Antes que terminasse, Soraia explodiu em uma gargalhada histérica. Demorou para se recompor, então desceu da cama, agachou-se diante de Beatriz e, em um surto de loucura, começou a tentar enfiar os restos de comida do chão na boca dela.
— Gostar? Eu nem gosto dele! Eu só amo a sensação de tê-lo orbitando ao meu redor, fazendo tudo o que eu quero. É como criar um cachorro adestrado.
— Eu já te disse: minha maior diversão é roubar o que é dos outros. Mesmo que seja algo que eu não queira, eu amo ver a dor e o vazio no seu rosto.
Beatriz engasgou e começou a tossir incontrolavelmente. Em um impulso de luta, ela desferiu um tapa violento no rosto de Soraia, que a fez cair sentada no chão.
— Soraia! Você é um monstro completo! Você e o Henrique se merecem, deveriam ficar presos um ao outro para sempre.
— Ter desperdiçado tantos anos da minha vida com ele foi o maior erro que eu já cometi por estar cega!