A visão de Beatriz escureceu por um momento. Sem esperar que a enfermeira terminasse de falar, ela correu freneticamente em direção à ala de observação comum.
No cubículo apertado e abafado, sua mãe estava cercada por tubos e aparelhos, mas não havia sequer um acompanhante ou enfermeiro por perto para monitorá-la. Beatriz, em pânico, chamou a equipe médica imediatamente.
— Transfiram minha mãe de volta para a unidade de observação especial agora!
Beatriz deu a ordem, mas ninguém na sala se mexeu. Os funcionários trocavam olhares desconfortáveis, encarando-a com hesitação.
— Jovem Senhora, não é que não queiramos obedecer, mas é que o Sr. Henrique deu instruções específicas anteriormente...
Beatriz, tremendo de indignação, pegou o celular e ligou para Henrique. O aparelho tocou três vezes antes que ele finalmente atendesse.
— Henrique! Você me deu sua palavra! Disse que se eu me desculpasse com a Soraia, o tratamento da minha mãe voltaria ao que era antes!
— Por que ela ainda está jogada em um quarto comum? Por quê?!
Houve uma breve pausa do outro lado da linha, seguida por uma resposta em tom de total indiferença:
— A Soraia não tem tido muito apetite nos últimos dois dias. Eu estava tão ocupado tentando cozinhar pratos diferentes para convencê-la a comer que acabei me esquecendo do assunto da sua mãe.
— Bia, não precisa se exaltar. Vou dar ordens agora mesmo para que a transfiram de volta.
Beatriz sentiu uma vontade amarga de rir. Henrique fora capaz de negligenciar a vida da sogra simplesmente para convencer Soraia a fazer uma refeição.
Sem dizer mais nada, ela desligou. Sob o olhar das enfermeiras, Beatriz acompanhou a transferência da mãe de volta para a ala especial.
Assim que o médico responsável terminou de revisar os sinais vitais de sua mãe e se preparava para sair, Beatriz o interceptou.
— Dr. Leonardo, minha mãe já recebeu a nova medicação importada? Por que ainda não há sinais de que ela vai acordar?
O médico pareceu confuso, como se não entendesse a pergunta.
— Medicação importada? A Sra. sua mãe não recebeu nenhuma injeção desse tipo.
Beatriz empalideceu, e sua voz subiu de tom involuntariamente:
— Como não recebeu? O Henrique me garantiu que uma nova ampola foi trazida do exterior, uma que teria efeitos revolucionários no quadro dela! Ele disse que ela seria medicada!
O médico pareceu se lembrar do que ela estava falando e suspirou com pesar.
— De fato, havia uma ampola desse medicamento valiosíssimo. Existe apenas uma unidade disponível por país, capaz de realizar milagres.
— Mas, aqui no nosso hospital, essa ampola foi quebrada por uma jovem que o Sr. Henrique trouxe...
Antes mesmo que o médico terminasse a frase, o mundo de Beatriz desabou. Ela não precisava de nomes para saber quem havia destruído a única chance de sua mãe.
Em silêncio absoluto, ela se dirigiu ao quarto de Soraia. Como esperado, Henrique estava lá.
— Henrique, a medicação foi destruída e você não me disse nada? Por que você deixou a Soraia brincar com algo tão vital? Você sabia que aquele remédio era a única esperança da minha mãe acordar! Você sabia o quanto isso era importante para mim!
Beatriz estava histérica, sentindo que o último fio de esperança havia sido cortado.
Ela suportara todas as humilhações e dores físicas dos últimos dias, mas aquilo era insuportável. Seus olhos arderam e as lágrimas, contidas por tanto tempo, finalmente transbordaram.
Henrique, contudo, não demonstrou o menor remorso. Respondeu com um desdém absurdo:
— A Soraia só estava curiosa, ela não quebrou a ampola de propósito.
— Por causa desse incidente, ela ficou tão arrasada que não consegue comer há dias, e você ainda vem aqui atacá-la?
— Beatriz, você não tem um pingo de empatia?
Enquanto apontava o dedo para o rosto de Beatriz de forma agressiva, Henrique voltou-se novamente para Soraia, alternando para um tom doce e gentil, implorando para que ela aceitasse mais uma colherada de comida.