Soraia estava deitada na cama do hospital, agindo como se Beatriz fosse invisível, concentrada apenas em flertar e brincar com Henrique.
— Eu fui parar no hospital por causa da sua mulher, você não vai me dar uma recompensa, "filhão"?
Henrique forçou um sorriso e apertou o ombro de Soraia de forma consoladora.
— É claro que vou te recompensar. Senão, você vai dizer que eu troquei os amigos por rabo de saia de novo. Sua ingrata... você sabe que é minha melhor parceira desde a infância, eu nunca deixaria você na mão.
Soraia ergueu o queixo, lançando um olhar de puro desprezo e maldade para Beatriz.
— A Bia tem mesmo o corpo fechado, não é? Muita sorte para uma pessoa só...
As palavras dela eram carregadas de intenções ocultas; ela estava claramente inconformada por Beatriz ter sobrevivido à emboscada na instituição de etiqueta.
— Beatriz, você deveria agradecer ao Henrique. Ele passou horas me implorando para eu não fazer nada contra você.
— Caso contrário, eu já teria chamado a polícia. Agressão física é um crime bem sério, sabia?
Beatriz alternou o olhar entre os dois e soltou uma risada de puro escárnio.
— Agressão? Soraia, eu já te avisei: se você ousar tocar na minha mãe de novo, eu acabo com a sua raça.
O rosto de Soraia mudou instantaneamente. Ela se voltou para Henrique com um tom de voz estridente e dramático:
— Henrique, você está vendo? Esta é a sua "querida" noiva!
— Eu estou tentando ser superior e ignorar o que ela fez por consideração à nossa amizade, e ela vem aqui me ameaçar na minha cara?
— Se você trouxe essa mulher só para me irritar, pode dar o fora daqui agora!
Henrique ficou visivelmente transtornado e apressou-se a bajular Soraia para acalmá-la.
— Claro que não, Soraia. Não fica assim.
— A Bia está errada nessa história, e é por isso que eu a trouxe aqui: para te pedir perdão.
Após dizer isso, ele se aproximou de Beatriz e sussurrou em seu ouvido:
— A Soraia é direta, ela não faz por mal. Eu implorei para ela não prestar queixa e ela aceitou por minha causa.
— Você deveria ser grata a ela. É apenas um pedido de desculpas, não custa nada.
Beatriz encarava o homem à sua frente, mordendo os lábios em silêncio absoluto. Henrique suspirou e continuou pressionando:
— Bia, comporte-se. Sua mãe ainda está esperando para te ver casada.
Usando a mãe dela como escudo novamente. Beatriz sentiu que não tinha saída. Por mais que cada fibra de seu ser resistisse, ela teve que baixar a cabeça diante de Soraia.
— Me desculpe.
Ela cerrou os punhos com força e fez menção de sair, mas Soraia soltou um estalido de língua, insatisfeita.
— Mulher é bicho mesquinho mesmo. Até para pedir desculpas fica cheia de dedos. Se não quer pedir, não peça, mas não faça essa cara de enterro como se eu estivesse te forçando. Não teve sinceridade nenhuma.
O pulso de Beatriz foi agarrado por Henrique. Ela tentou se soltar, mas ele não permitiu.
— Soraia, diga... como você quer que a Bia peça desculpas?
Henrique estava totalmente focado em satisfazer Soraia, ignorando completamente quem estava certo ou errado na situação.
— No mínimo, ela deveria fazer uma reverência formal.
— A Bia só está pedindo desculpas, enquanto eu quase perdi a minha vida.
Henrique olhou para Beatriz com uma pressão silenciosa e severa. Beatriz, porém, perdeu o resto de paciência que lhe sobrava e lutou para se desvencilhar do aperto dele.
— Henrique! Você sabe muito bem quem está errada aqui!
— Foi a Soraia quem tentou cortar os remédios da minha mãe primeiro! Desde quando você se tornou tão cego e injusto?
Antigamente, antes de Soraia voltar, Beatriz nunca havia passado por tamanha humilhação. Henrique nunca permitiria que ela pedisse desculpas injustamente; na verdade, mesmo que Beatriz estivesse errada, ele forçaria a outra pessoa a se desculpar com ela.
Mas agora, ele apenas soltou um suspiro cansado e disse suavemente:
— Bia, eu sei que você está chateada, mas hoje você precisa se desculpar com a Soraia.
— A vida dela é o que eu tenho de mais precioso. Se você aguentar essa pequena humilhação agora, eu te recompenso depois.
— Joias de grife, bolsas caras... o que você quiser, eu te dou.
Beatriz permaneceu imóvel, apenas encarando Henrique com um olhar vazio, até que ele soltou o golpe final:
— A família Valente importou um novo medicamento do exterior. Ainda não foi anunciado publicamente, mas os médicos dizem que pode ajudar muito no caso da sua mãe.
Era uma chantagem escancarada. Mas, ao pensar na saúde de sua mãe, um brilho de esperança surgiu nos olhos de Beatriz. Ela olhou para Henrique com urgência:
— Esse novo remédio... ele realmente pode fazer alguém em estado vegetativo acordar?