Beatriz cerrou os dentes e cuspiu no chão. O ódio finalmente transbordou. Com a determinação de quem não tem mais nada a perder, ela torceu o pulso do agressor e, usando a força do próprio homem, enterrou a lâmina afiada na coxa dele.
— Ninguém nunca te disse que o vilão morre porque fala demais?
— Só porque eu não revidei as suas brincadeirinhas antes, você achou que eu era um alvo fácil?
No momento em que as palavras saíram, a porta que estava trancada há horas foi arrombada com violência. Quando a luz envolveu a figura que entrava, Beatriz finalmente sentiu o alívio percorrer seu corpo e desabou no chão.
Gabriel chutou o homem que puxava o cabelo de Beatriz com uma fúria implacável. Ele desferiu golpe após golpe, sem qualquer piedade; mesmo à distância, Beatriz podia ouvir o som seco de costelas se partindo.
— Quantas vidas você acha que tem para ousar tocar na Bia?
— Dê o fora daqui e diga a quem te pagou que eu, Gabriel, vou acabar com a vida dela.
Com os olhos injetados de sangue, Gabriel deixou o homem semimorto no chão. Ele se aproximou de Beatriz trêmulo, limpando obsessivamente o sangue das próprias mãos antes de tocá-la e envolvê-la em um abraço.
— O Henrique te escondeu tão bem que foi difícil te encontrar.
— Ainda bem que não cheguei tarde...
Ele tremia, segurando-a como se ela fosse o tesouro mais precioso do mundo.
— Gabriel, os remédios da minha mãe! A Soraia mandou suspender os remédios da minha mãe! — Beatriz exclamou, tomada pelo pânico.
— Eu já dei ordens para continuarem com a medicação dela. Mas o Henrique a vigia de perto; ainda não tenho poder suficiente para transferi-la de hospital.
Ao chegarem em casa, Henrique estava sentado no sofá fumando. Ao ver Beatriz sendo amparada por Gabriel, ele não disse nada. Apenas apagou o cigarro e encarou os dois com um olhar gélido.
— Gabriel, obrigado por trazer sua cunhada de volta.
— Já que ela foi entregue, não vou te convidar para o jantar.
Ele enfatizou a palavra "cunhada" com um peso especial, como se quisesse marcar o território e lembrar a ambos de suas posições. Em seguida, levantou-se e puxou Beatriz para os seus braços.
— Bia, vamos visitar a sua mãe.
— Ela sente sua falta.
No carro, a mão de Henrique acariciava de forma intermitente a perna engessada de Beatriz, como se fosse um aviso silencioso e constante.
— Bia, eu sei que você sofreu ultimamente. Depois do noivado, vou tirar um tempo para ficar com você.
— Podemos ir para onde você quiser na nossa lua de mel.
Beatriz mantinha a cabeça baixa, a garganta sufocada por perguntas que não conseguia fazer. Ela queria gritar e perguntar como Henrique conseguia ser tão hipócrita. Como ele podia, ao mesmo tempo, mandar quebrar a perna dela e mantê-la presa sob seu domínio?
Ela se lembrou de quando começaram a namorar. Naquela época, a família dela ainda era poderosa e ela era a herdeira mimada. Para provar sua lealdade, Henrique a perseguiu por três anos, escreveu 999 cartas de amor e espalhou declarações em telões de publicidade por toda a cidade.
Mais tarde, quando a família dela faliu e os Valente proibiram o namoro, ele chegou a dizer que renunciaria à herança para ficar com ela.
Como tudo pôde chegar a esse ponto?
— Henrique, você se lembra do que eu te disse quando aceitei ficar com você?
Henrique estancou por um momento. Após um longo silêncio, ele respondeu lentamente:
— Você disse que queria um amor sem mentiras.
Beatriz assentiu e continuou:
— Henrique, no instante em que o amor se torna uma mentira, toda a beleza do passado passa a ser apenas um verniz barato.
Henrique não disse mais nada. Ele apenas segurou a mão de Beatriz com força e a conduziu para fora do carro.
A mãe de Beatriz havia sido transferida para uma sala de observação comum, e os medicamentos de ponta haviam sido cortados. Henrique pressionou Beatriz contra o vidro estreito da sala, forçando-a a ver sua mãe lutando para respirar.
— Bia, eu gosto muito de você e quero passar a vida ao seu lado.
— É compreensível que, sem saída, você tenha implorado para aquele bastardo do Gabriel ajudar com os remédios da sua mãe. Mas você precisa entender: este hospital e a família Valente pertencem a mim.
— Se você se comportar e ficar ao meu lado, após o noivado, sua mãe terá o mesmo tratamento de antes.
Enquanto falava, ele depositava beijos no rosto e atrás da orelha de Beatriz.
— E a Soraia? — ela perguntou.
Ao ouvir o nome de Soraia, a expressão de Henrique suavizou-se instantaneamente.
— A Soraia é especial para mim, mas eu a vejo apenas como uma irmã, uma parceira de longa data.
— Ela é direta e às vezes fala sem pensar. Não leve para o lado pessoal e não aja como se estivesse louca, tentando atacá-la.
— Você é a esposa com quem passarei o resto da vida; ela é minha melhor amiga.
— Bia, seja obediente. Pare de criar problemas. Volte e peça desculpas a ela. Você quase a matou sufocada da última vez; ela ainda está internada.
Beatriz sentiu vontade de rir. No fim das contas, todo aquele jogo de poder e manipulação era apenas para forçá-la a se desculpar com Soraia.
— Eu peço desculpas. Mas as condições de tratamento da minha mãe devem voltar a ser como eram antes.