Henrique arrastou Soraia para fora, e o quarto de hospital mergulhou novamente no silêncio. Gabriel não disse nada; apenas, em silêncio, ajeitou os lençóis de Beatriz. Observando aquele rosto que guardava semelhanças com o de Henrique, Beatriz não resistiu e segurou suavemente a mão dele.
— O golpe de agora pouco... doeu muito?
Ele apenas balançou a cabeça negativamente, sem dizer uma palavra.
— Você está chateado? — perguntou ela, inclinando levemente a cabeça.
O homem assentiu e, logo em seguida, negou com a cabeça novamente.
— Estou chateado, mas não tenho o direito de estar. Você não é minha propriedade, então devo respeitar cada decisão sua. Mesmo que você volte atrás, mesmo que aquele animal do meu irmão te trate assim, você ainda vai se casar com ele.
Beatriz soltou uma risada curta. Com as pontas dos dedos, ela acariciou o rosto de Gabriel e disse suavemente:
— Quem disse que eu vou me casar com o Henrique?
Ele ergueu a cabeça bruscamente, encarando-a com total incredulidade, começando a gaguejar:
— Mas você acabou de dizer...
Beatriz selou os lábios dele com um beijo rápido no canto da boca. Era como uma recompensa e, ao mesmo tempo, como se uma serpente oculta finalmente mostrasse sua língua bifurcada para seduzir a presa.
— Bater em um cachorro não tem graça. O divertido é massacrar o cão que já está se afogando.
— Ele te chama de bastardo e tem certeza absoluta de que eu vou me casar com ele. Pois eu vou fazer questão de que, no dia do casamento, ele perca absolutamente tudo.
— Gabriel, temos três meses. Não decepcione a minha confiança, nem a minha paciência.
No dia em que Beatriz recebeu alta, Henrique, surpreendentemente, foi buscá-la. Ele estava todo sorrisos e disse muitas palavras doces; por um momento, Beatriz quase acreditou que ele realmente havia se arrependido e mudado.
Contudo, ao chegar em casa, ela percebeu que toda aquela gentileza no caminho era apenas um preparativo. Durante os dias em que esteve fora, Soraia havia tomado conta do lugar, agindo como a "senhora" da mansão dos Valente, sem qualquer título oficial.
— A senhorita Soraia realmente não tem um pingo de vergonha, não é? Consegue se sentir tão à vontade na casa dos outros?
Soraia estava sentada no sofá e nem sequer se deu ao trabalho de olhar para Beatriz. Ela se levantou, envolveu o pescoço de Henrique com os braços e disse, em tom de provocação:
— Estranha? O Henrique e eu nos conhecemos desde crianças e somos parceiros há anos. Comparada a mim, uma alpinista social como você, que só quer casar com ele por dinheiro, é quem parece ser a estranha aqui.
Antes que Beatriz pudesse retrucar, Henrique agachou-se ao lado dela para tentar apaziguar a situação.
— Bia, não comece de novo. Assim que nos casarmos, a Soraia vai voltar para o exterior. Ela não vai ficar muito tempo, para que desgastar a nossa relação assim?
Beatriz lançou um olhar gélido para Henrique, perdendo totalmente a paciência.
— Já que ela não tem onde morar, compre outro imóvel para ela. Com a fortuna da família Valente, uma casa a menos não faria falta, não é? Por que ela tem que ficar justamente na nossa futura residência?
Assim que Beatriz terminou de falar, Soraia soltou uma risadinha sarcástica.
— Ai, ai... vocês mulheres são tão gastadeiras, não sabem o valor do dinheiro. Abrem a boca para falar em comprar casa nova como se fosse nada.
— O quê? Você acha que o dinheiro do Henrique cai do céu?
— Não é à toa que o Henrique me entregou o controle financeiro. Ele deve estar com medo de que uma deslumbrada como você jogue toda a fortuna dele no lixo.
Beatriz ficou atônita ao ouvir aquilo. Ela olhou imediatamente para Henrique, que desviou o olhar, visivelmente culpado.
— Se você parar de criar confusão, eu posso devolver o controle da casa para você mais adiante... — murmurou ele.
Beatriz sentiu o sangue ferver, mas ao lembrar do seu plano ainda em curso, forçou-se a engolir a fúria. Encarando Henrique, ela disse:
— Está bem. Eu não tocarei em nada que pertença à família Valente. Mas o tratamento médico da minha mãe deve continuar exatamente como está.
Henrique estava prestes a dizer algo quando foi interrompido por um telefonema e precisou sair às pressas. Quando restaram apenas as duas na sala, Soraia finalmente revelou sua face cruel, despindo-se da máscara.
— Sua mãe? Ah, eu esqueci de te contar.
— Desde ontem, eu ordenei que cortassem todos os medicamentos da sua mãe.
— A vida e a morte pertencem ao destino. Se ela não aguentar, é porque a hora dela chegou.
— Mulher é um bicho problemático mesmo, só reclama e não tem coragem. Se fosse um homem na situação dela, já teria se matado para não ser um fardo para os filhos.
Beatriz não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
— Soraia! Você é um monstro? Como mulher, como você tem coragem de dizer algo assim!
— O quadro da minha mãe é instável! Se pararem com a medicação agora, ela vai morrer!
— E outra coisa: a família Valente apenas providencia a estrutura hospitalar. Todo o custo do tratamento sai da minha conta pessoal! Com que direito você interrompeu os remédios da minha mãe?
Soraia nem piscou, mantendo o tom de total desprezo.
— Dinheiro da sua conta? Cada centavo que você tem foi o Henrique quem te deu.
— Escuta aqui, Beatriz: os remédios vão continuar cortados. Já que você não sabe economizar para o Henrique, eu farei isso por ele.
— Afinal, são anos de amizade. Eu não posso ver meu parceiro ser arruinado por uma mulherzinha qualquer.
Enquanto falava, ela pegou o celular e ligou para o hospital da família Valente.
— Suspendam todo o tratamento medicamentoso da mãe da Beatriz. Transfiram-na para um quarto comum e nenhum médico deve dar qualquer tratamento preferencial a ela...