Henrique observava o rosto de Beatriz, tentando decifrar se ela falava sério. Antes que ele pudesse abrir a boca, Soraia adiantou-se, tomando a palavra com petulância:
— Bia, pare de fazer birra com o Henrique. O noivado é um assunto sério; usar esse tipo de ameaça contra ele é passar um pouco dos limites, não acha?
— Além do mais, todos sabemos que você não está à altura da família Valente. O fato de a família dele ter aceitado você, e de nós, os amigos dele, termos aprovado o namoro, já é uma concessão e tanto.
— Você deveria ser grata pelo que tem, em vez de agir como uma ingrata.
Ao ouvir as palavras de Soraia, Henrique pareceu recuperar o ânimo, perdendo qualquer rastro de preocupação. Ele sentou-se na beira da cama, tentou segurar a mão de Beatriz e falou com um tom de voz que pretendia ser profundo e apaixonado:
— Bia, eu sei que você se sentiu injustiçada naquele dia, por isso vim pessoalmente te pedir desculpas e te mimar um pouco.
— O noivado envolve nossas famílias, não é uma brincadeira de criança. Independentemente de você me amar e não conseguir viver sem mim, mesmo que um dia você realmente quisesse partir, eu jamais permitiria.
— Bia... eu realmente tenho sentimentos por você.
Beatriz olhou fixamente para o rosto de Henrique. Sentindo um misto de nojo e ironia, ela desferiu um tapa violento contra a face dele.
— Sentimentos por mim?
— Henrique, o que você chama de sentimentos é me humilhar repetidamente por causa de uma "amiga" irrelevante?
O tapa foi tão rápido e forte que a cabeça de Henrique virou para o lado. Antes que ele pudesse reagir, Soraia soltou um grito de fúria e avançou contra Beatriz como um animal raivoso.
— Sua piranha! Como ousa levantar a mão para o Henrique?
— Por causa de uma bobagem dessas você vai fazer drama por tanto tempo? Mulher é bicho chato mesmo, só sabe reclamar.
Antes que Soraia pudesse sequer tocar na ponta da roupa de Beatriz, Gabriel, que estava postado à frente da cama, desferiu um chute que a lançou para o lado.
— A Bia está falando. Quem te deu o direito de interromper?
Henrique correu desesperado para amparar Soraia. Num ímpeto de fúria, ele pegou o primeiro objeto que viu sobre o criado-mudo e o arremessou na direção deles. Para evitar que Beatriz fosse atingida, Gabriel não se moveu, recebendo o impacto diretamente.
— Mesmo que a Soraia não tenha o direito de falar, você acha que um bastardo como você tem?
— Beatriz! Eu aceito que você me bata ou me culpe, mas o que significa você permitir que esse lixo do Gabriel encoste na Soraia?
Beatriz, recostada na cama, observava aquela cena patética. O rosto transtornado de Henrique só lhe causava irritação.
— Na próxima vez que você mentir dizendo que tem sentimentos por mim...
— Tente não parecer um cão raivoso protegendo a própria comida quando o assunto for a Soraia.
— Já que você gosta tanto dela, que tal ela ocupar o meu lugar e ficar noiva de você?
Antes que Beatriz pudesse concluir, Henrique elevou o tom de voz, tentando esconder a própria culpa com agressividade:
— Eu vejo a Soraia apenas como uma irmã! Nunca mais repita esse absurdo.
— Descanse bem. No dia do noivado, eu virei te buscar.
— O estado de saúde da sua mãe estabilizou muito ultimamente. Tenho certeza de que ela adoraria ver você se casando comigo.
A expressão de Beatriz mudou instantaneamente. Seus olhos tornaram-se gélidos ao encarar Henrique.
— Você está usando a minha mãe para me chantagear?
Henrique não respondeu. Ele apenas ajudou Soraia a se levantar e caminhou em direção à porta, deixando Beatriz apenas com a visão de suas costas.
— Como pode chamar isso de chantagem? Estou apenas pensando no que é melhor para ela.
— Afinal, o maior desejo dela é estar viva para ver você se casar.
Beatriz baixou a cabeça, cerrando os punhos com tanta força que as juntas ficaram brancas. Ainda assim, forçou um sorriso amargo enquanto olhava para Henrique uma última vez.
— Está bem. Então eu esperarei pelo dia do noivado... para você vir me buscar.