Arremessada como um animal morto em frente ao portão principal, Beatriz sentia a chuva torrencial encharcar suas roupas. Henrique estava em casa; as luzes brilhavam nas janelas, mas por mais que ela batesse à porta ou implorasse por socorro, aquela entrada permanecia selada como se tivesse sido pregada.
Sem ter a quem recorrer, o céu escuro e pesado trazia um sentimento de desespero absoluto. A ferida em sua perna, lavada pela água da chuva, era uma massa de carne exposta que tingia o chão ao redor de um vermelho sombrio.
Ela não sabia onde buscar ajuda, nem se conseguiria sobreviver àquela noite. A dor lancinante e o esgotamento físico tiraram dela até a força necessária para rastejar.
— Beatriz, Beatriz... sua tola. Achou que tinha encontrado o amor, mas acabou entregando a própria vida por isso...
Sua consciência começou a falhar. Ela passou a ter alucinações auditivas, ouvindo alguém chamar seu nome. A voz vinha de longe, aproximando-se com um tom de urgência. No último segundo antes de desmaiar completamente, sentiu mãos fortes amparando-a. Um calor humano e protetor pareceu trazê-la de volta ao mundo dos vivos.
Quando abriu os olhos, já haviam se passado três dias. O homem que vigiava ao lado de sua cama de hospital, ao vê-la despertar, correu exultante para chamar os médicos. Somente após confirmar que ela estava fora de perigo é que ele se sentou ao seu lado, soltando um suspiro de alívio e segurando sua mão com firmeza.
— Ainda dói muito? Pedi que fizessem uma canja especial para você. Aceita um pouco?
Beatriz não tinha coragem de encará-lo. Ela apenas retirou sua mão da dele e pronunciou o nome do homem em voz baixa:
— Gabriel...
Ao ver que ela recuava, Gabriel não se irritou; apenas continuou, pacientemente, a oferecer a sopa.
— Ficou tímida agora? Por que não estava com essa vergonha quando me ligou pedindo para eu roubar você no altar?
— Por acaso, minha cunhada se arrependeu?
Ele fez uma pausa súbita, pousou a tigela e aproximou-se do rosto de Beatriz, abrindo um sorriso provocante.
— Não pode se arrepender, cunhada.
— Bastou uma palavra sua para eu comprar uma passagem e cruzar o oceano durante a noite. Agora que estou aqui na sua frente, você não pode voltar atrás na sua palavra.
— Você gosta tanto assim daquele animal do meu irmão? Mesmo depois do que ele fez, você ainda o ama?
Enquanto falava, Gabriel continuava a se inclinar para frente. Seus lábios roçaram o canto da boca de Beatriz de forma ambígua, provocando-lhe um calafrio. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, a voz de Henrique ecoou da porta.
— O que vocês dois... estão fazendo?
Em um instante, a expressão de Gabriel tornou-se gélida. Ele se virou e encarou Henrique com um olhar repleto de irritação e desafio.
— Fazendo o quê?
— Irmão, o que você esperava que eu estivesse fazendo com a minha cunhada?
— Na verdade, eu é que pergunto: qual é a sua intenção vindo ao hospital visitar a Bia trazendo essa mulher ao seu lado?
Ao ouvir isso, Beatriz levantou o olhar e viu Soraia parada ao lado de Henrique, com uma expressão indiferente.
Ignorando a tensão, Henrique passou por Gabriel e dirigiu-se a Beatriz com um tom de voz que carregava uma falsa benevolência.
— Bia, foque em recuperar sua perna primeiro. Quando você estiver boa, faremos a cerimônia de noivado. Durante este período...
Ele não conseguiu terminar. Beatriz o interrompeu com uma risada sarcástica e desviou o rosto, recusando-se a olhar para ele.
— Henrique, o que te faz pensar que eu ainda vou me casar com você?