Henrique permaneceu em silêncio por um momento, mas sua escolha foi feita naquele vácuo de palavras. Ele forçou a caixa com a lingerie erótica nos braços de Beatriz e sussurrou perto de seu ouvido, em um tom que pretendia ser conciliador, mas soava apenas impositivo:
— Bia, faça isso por mim. Aceite o presente para mantermos as aparências.
— Quando chegarmos em casa, eu te dou aquela "Estrela" que você tanto queria.
O ambiente, que estivera tenso, explodiu em vivas e assobios. Garrafas de champanhe e vinho tinto foram estouradas, e o líquido espumante atingiu a cabeça e o rosto de Beatriz. O fluido pegajoso escorria por sua pele, deixando-a com uma aparência deplorável. Todos ali pisoteavam sua dignidade, transformando a humilhação dela em motivo de festa.
— Henrique, eu sabia que o "papai" aqui não tinha se enganado com você! — gritou Soraia, rindo. — Você provou que não é do tipo que troca os amigos por mulher!
Enquanto todos exibiam sorrisos de escárnio, Beatriz apenas encarava Henrique em silêncio. De repente, com um movimento rápido, ela arremessou a lingerie usada diretamente no rosto de Soraia.
— Já que você gosta tanto de mandar no Henrique, por que não vai você mesma ao banquete de noivado daqui a um mês?
O rosto de Henrique escureceu instantaneamente. Irritado, ele agarrou o pulso de Beatriz com força.
— Bia, toda brincadeira tem limite. Um noivado não é algo que você simplesmente empurra para outra pessoa porque está de mau humor.
Até aquele momento, Henrique ainda acreditava que Beatriz deveria simplesmente engolir toda a mágoa e sorrir.
— Ah, entendi. Agora você acha que certas brincadeiras perderam a graça? Mas quando a Soraia...
Ela não conseguiu terminar. Soraia fechou o rosto, virou as costas sem dizer uma palavra e caminhou em direção à saída. Henrique, em pânico, tentou impedi-la, mas a mulher estava irredutível. Ele acabou segurando-a pelos ombros com firmeza.
— Mulher é bicho complicado mesmo, cheio de voltas — Soraia exclamou, fingindo indignação. — Já entendi tudo, a conversa toda foi pra dizer que eu estou sobrando aqui, atrapalhando o casalzinho.
— Pois eu vou embora. Considere nossa amizade encerrada. Vou fingir que o sacrifício que fiz pela minha perna foi apenas uma mordida de cachorro vira-lata.
Assim que Soraia saiu, Henrique correu atrás dela sem hesitar. Ao passar por Beatriz, ele a encarou com um desprezo profundo, como se estivesse olhando para um pedaço de lixo.
— A culpa é sua. Tinha que estragar tudo e deixar as coisas nesse estado deplorável?
Os que ficaram no camarote começaram a cochichar, e as palavras de deboche vinham em ondas sobre Beatriz.
— Só porque o Henrique correu atrás dela por uns anos, ela acha que é a última bolacha do pacote.
— Todo mundo sabe que o Henrique e a Soraia são unha e carne. Que falta de noção.
Beatriz não suportou ficar ali nem mais um segundo e praticamente fugiu do local. A festa estava arruinada. Henrique havia desaparecido, e seu celular estava sem bateria. Ela começou a caminhar sozinha pela ruela escura que levava à saída da propriedade. De repente, ao chegar em um beco isolado, um saco de estopa foi enfiado em sua cabeça.
Ela foi jogada ao chão com violência. Beatriz tentou lutar, gritando que tinha dinheiro e que poderiam levar tudo.
O agressor, no entanto, permaneceu em silêncio absoluto. Ele ergueu um taco de beisebol e o descarregou com precisão.
A dor foi tão excruciante que Beatriz nem sequer conseguiu gritar. Ela mordeu a própria língua com tanta força que o gosto metálico de sangue inundou sua boca.
— Senhor, o serviço foi feito conforme solicitado. Com esse golpe, a perna certamente está fraturada. Quer que a levemos ao hospital? — uma voz masculina perguntou.
Em meio ao torpor da dor e à consciência esvaindo-se, ela ouviu a voz de Henrique:
— Não precisa. Já que ela teve a audácia de usar a palavra "aleijada" para ofender a Soraia, nada mais justo do que receber o mesmo castigo.
As lágrimas de Beatriz caíam pesadas. Cada respiração parecia rasgar seus ossos por dentro. Ela queria gritar, questionar o que ela realmente significava para ele e por que ele estava fazendo aquilo, mas as palavras ficaram presas em sua garganta, sufocadas pelo sangue que invadia seus pulmões, fazendo-a tossir sem parar.