O silêncio do outro lado da linha era absoluto. Aquele silêncio estranho fez com que Beatriz sentisse o rosto arder de vergonha; quando ela estava prestes a desligar, sentindo-se humilhada, ouviu uma risada baixa e provocante vinda do telefone.
— É tudo o que eu mais quero.
— Cunhada, eu já te disse... aquele fracassado do meu irmão não te merece.
— Só eu posso te fazer verdadeiramente feliz.
Beatriz sentiu o rosto esquentar ainda mais. Ela respondeu apressadamente com a voz trêmula e desligou. Ao se virar para sair, deu de cara com Henrique, que acabara de abrir a porta do camarote.
Ao vê-la, um lampejo de culpa cruzou os olhos dele.
— Bia? Você estava parada aqui o tempo todo?
Beatriz percebeu que ele estava sondando-a, tentando descobrir se ela ouvira as atrocidades que ele dissera aos amigos.
Encarando o rosto de Henrique, um instinto de rebeldia despertou em seu íntimo. Ela sentiu uma súbita curiosidade: será que esse homem tinha um coração? Como ele reagiria se, no dia do casamento, visse sua noiva fugindo com o próprio irmão dele?
Talvez pelo silêncio prolongado dela, Henrique presumiu que Beatriz ainda estivesse brava. Ele adotou uma postura incomumente mansa para tentar acalmá-la.
— Bia, não fique assim. A Soraia é desse jeito mesmo, expansiva e sem filtros, mas não tem má índole.
— Ela só queria fazer uma brincadeira para descontrair o ambiente e se aproximar de você.
— Quando chegarmos em casa, eu compro para você aquele colar "Coração do Oceano" que você tanto queria. Vamos esquecer isso, tudo bem?
Beatriz assentiu levemente, aceitando a trégua. Era uma forma de manter a dignidade após tantos anos de relacionamento.
— Henrique... você já me amou alguma vez?
Ela pronunciou o "já" tão baixo que Henrique nem sequer pareceu notar. Ele apenas assumiu que tinha conseguido dobrá-la e a puxou pela cintura de volta para o camarote.
— Se eu não te amasse, por que ficaria noivo de você?
— Bia, pare de pensar bobagens.
As palavras dele soavam nobres, mas Beatriz sabia a verdade: sob aquele "amor" aparente, havia um abismo de gelo e manipulações sem fim.
Lá dentro, Soraia não conseguiu esconder o descontentamento ao vê-los entrar abraçados. Seu olhar sobre Beatriz era puro gelo. Antes mesmo que o casal pudesse se sentar, Soraia levantou-se e puxou Beatriz para perto de si.
— Bia, sente-se aqui comigo. Aqui só tem homem; eu prefiro ficar com uma garota cheirosa e delicada como você.
— Diferente de mim, que sou toda desajeitada e nem sei me cuidar direito.
Beatriz olhou para o rosto de Soraia e sentiu vontade de rir. Era fascinante como aquela mulher, que há poucos minutos a encarava com ódio, conseguia mudar de máscara tão rápido.
— Realmente, você não sabe se cuidar muito bem. A diferença de cor entre o seu rosto e o seu pescoço está bem nítida — disparou Beatriz, com um sorriso suave, devolvendo o veneno na mesma moeda.
O rosto de Soraia fechou-se imediatamente. Ela apertou com força o pulso de Beatriz, justamente onde estava a queimadura de cigarro. Beatriz soltou um gemido de dor, com os olhos subitamente marejados.
— Soraia, você está apertando a minha ferida.
Ao ouvir sobre o ferimento, Henrique reagiu e sentou-se ao lado de Beatriz.
— Como você se queimou?
Antes que Beatriz pudesse abrir a boca, Soraia levantou-se com um sorriso cínico e deu de ombros.
— O "papai" aqui sabia que você gostava, então fiz um agrado na pele da sua noiva.
— Mas a Bia parece não aguentar muita dor, hein? Você vai ter que se esforçar bastante na cama com ela, Henrique.
O comentário obsceno reacendeu a euforia dos homens no camarote. Um por um, começaram a fazer piadas baixas, perguntando se, já que Beatriz não aguentava dor, ela conseguiria "dar conta" de outras coisas.
Beatriz observava a todos com um olhar frio. Sua mão tremia enquanto ela pegava o celular para ligar para a polícia.
— Alô, gostaria de denunciar uma agressão no Clube Villa...
Antes que pudesse terminar, Henrique arrancou o celular de sua mão. O clima no ambiente despencou instantaneamente. Soraia, visivelmente irritada, cruzou os braços e exclamou:
— É tudo brincadeira entre amigos! Se você é tão amargurada assim, perde toda a graça.
Beatriz soltou uma risada sarcástica, encarando Soraia.
— Brincadeira? Desde quando agressão física virou piada? Se fosse o contrário...
Henrique não a deixou concluir. Ele jogou o celular de Beatriz no chão com violência.
— A Soraia fez isso pensando em mim, achando que eu gostaria. É só uma marquinha de cigarro, nada demais.
— Bia, não faça tempestade em copo d'água e estrague o prazer de todo mundo aqui.
Beatriz sentiu náuseas diante da parcialidade escancarada de Henrique por Soraia.
— Henrique, eu estou exagerando?
— Quando mencionei a deficiência dela, você me mandou calar a boca para não ferir os sentimentos dela. Mas quando ela me queima propositalmente, você diz que eu estou fazendo cena?
— Então quer dizer que eu também posso dar um tapa na cara dela e dizer que é só uma brincadeira?
— Chega! Beatriz, pare com esse show agora! — Henrique a interrompeu com um tom gélido.
— A Soraia sempre foi autêntica, ela só não tem muito limite nas brincadeiras. Não foi por mal. Não aja como uma cadela raivosa que morde qualquer um e não solta mais.
Protegida por Henrique, Soraia ergueu o queixo com arrogância, sentindo-se a dona da situação.
— Bia, o Henrique e eu somos melhores amigos, quase irmãos. Como você é a noiva dele, eu também gosto de você por tabela.
— Inclusive, trouxe um presente especial do exterior para você.
Ela retirou uma caixa luxuosa debaixo da mesa. Ao abri-la, revelou-se um conjunto de lingerie erótica extremamente ousado.
— Bia, esta é a lingerie favorita do Henrique. Foi com ela que eu e ele passamos três dias inteiros de prazer absoluto antes de eu viajar.
— Mas não me entenda mal! Henrique e eu somos apenas amigos que se ajudam, não há sentimentos românticos.
— Estou te dando este conjunto agora porque espero que você e o Henrique sejam muito felizes entre quatro paredes.
Desta vez, Beatriz riu abertamente, uma risada carregada de desprezo, enquanto encarava Henrique.
— Sua "melhor amiga" me deu um presente e tanto. Você não tem nada a dizer?
Ela enfatizou as palavras "melhor amiga", deixando claro que sabia que a relação deles era tudo, menos pura.
Era uma humilhação pública e deliberada. Contudo, Henrique pegou a caixa — que continha a peça usada por Soraia, ainda com manchas suspeitas — e a empurrou contra o peito de Beatriz.
— Tem muita gente olhando. Se você não aceitar, vai deixar a Soraia em uma situação embaraçosa.
— Ela em situação embaraçosa? Henrique, desde que ela entrou aqui, alguma palavra dela me poupou de algum constrangimento?
— Entenda de uma vez: quem é a sua noiva e quem é a sua "amiguinha".
Beatriz sustentou o olhar dele, sem recuar um milímetro. Mas Soraia, percebendo a tensão, jogou mais lenha na fogueira.
— Tá vendo? É por isso que eu detesto andar com mulher. É sempre esse drama, esse mimimi o dia inteiro.
— Todo mundo aqui sabe que o presente foi uma piada interna entre parças, mas você insiste em criar esse climão.
— Se continuar com esse comportamento difícil, como eu e o Henrique vamos conseguir conviver no futuro?
Beatriz permaneceu em silêncio. Soraia então voltou-se para Henrique, forçando-o a uma escolha definitiva.
— E aí, Henrique? Você também vai ser um daqueles que esquece os amigos por causa de mulher e vai me deixar passando vergonha aqui?
Todos no camarote fixaram os olhos em Henrique e naquela lingerie que simbolizava a degradação de Beatriz. Eles esperavam, ansiosos, para ver para que lado a balança de Henrique penderia.