Todos sabiam que Henrique, o herdeiro do prestigioso império da família Valente, perseguiu Beatriz por três longos anos. Ele quase custou a própria vida para finalmente conquistá-la.
No entanto, na festa de celebração na véspera do noivado, a "melhor amiga" de Henrique, que ele tratava como uma irmã, voltou do exterior de surpresa.
O clima no camarote VIP tornou-se instantaneamente tenso. Os convidados trocavam olhares desconfortáveis, mas Henrique era o único que irradiava alegria. Sem qualquer hesitação ou respeito pela presença de Beatriz ao seu lado, ele envolveu os ombros da recém-chegada com um abraço possessivo.
— Soraia! Você voltou! Achei que nunca mais fosse querer me ver nesta vida.
A mulher nos braços de Henrique retribuiu o abraço com um tapinha em suas costas, mas seus olhos, afiados e calculistas, estavam fixos em Beatriz, analisando-a de cima a baixo.
— Meu "filho" vai ficar noivo, como eu, que sou quase um "pai" para você, poderia faltar? — ela brincou com uma voz rouca e confiante. — Então, esta é a famosa Bia?
Ela se desvencilhou do abraço de Henrique e, com uma familiaridade invasiva, segurou a mão de Beatriz, fazendo-a girar para examiná-la por completo.
— Henrique, querido, o que aconteceu com o seu gosto depois de tanto tempo? A Bia parece tão... frágil. Sem curvas, sem presença. Será que ela realmente dá conta de você?
As palavras eram carregadas de veneno, mas o rosto de Soraia exibia uma franqueza tão desarmante que tornava difícil revidar sem parecer amarga.
Beatriz sentiu o rosto queimar, engolindo a fúria a seco. Mas Soraia, percebendo a passividade, tornou-se ainda mais audaciosa. Diante de todos, ela disparou:
— Bia, o Henrique tem uma performance incrível, não tem? Ele está te satisfazendo? Se ele estiver deixando a desejar, pode me falar. Eu mesma ajudo a dar um jeito nele e o "treino" para você.
A insinuação era óbvia para qualquer um na sala. Em segundos, as risadas e as piadinhas maliciosas começaram a ecoar.
— Uma ajuda em assuntos tão íntimos? Por que vocês dois não ficam juntos de uma vez então? — gritou alguém ao fundo.
Beatriz sempre prezou pela sua dignidade, e ser humilhada repetidamente por Soraia estava se tornando insuportável. Ela olhou para Henrique em busca de apoio, mas ele apenas deu de ombros, sem mover um dedo para defendê-la. O barulho aumentava, e alguns chegaram ao ponto de perguntar a Henrique, na frente de sua noiva oficial, qual das duas mulheres era melhor na cama.
Soraia, com um sorriso vitorioso, respondeu em voz alta:
— Precisa perguntar? A Bia parece tão delicada que duvido que consiga fazer algo além de desmaiar. Bia, não ligue para esses homens. Me conta no particular... como o Henrique é entre quatro paredes? Qual foi a posição da primeira vez de vocês?
A voz dela era alta, lançando perguntas como metralhadoras. O ambiente fervia, não por consideração a Beatriz, mas como se estivessem jogando lenha na fogueira.
Até o ser mais pacífico tem seus limites, e as ofensas consecutivas fizeram Beatriz finalmente explodir.
— Está tão curiosa assim? Se quer tanto saber, por que não tenta você mesma com o Henrique? Na verdade, eu também estou curiosa... curiosa para saber se uma "aleijada" consegue satisfazer alguém em uma cama.
O silêncio caiu como uma bomba sobre o camarote. Soraia estilhaçou a taça que segurava, encarando Henrique com um olhar de profunda mágoa. Henrique, como esperado, não a decepcionou e tomou as dores da amiga.
— Beatriz! A Soraia estava apenas brincando com você! Por que essa reação exagerada? Por que atacar logo o ponto fraco dela? Somos amigos há anos, se houvesse algo entre nós, você acha que teria chance?
Henrique abraçou Soraia pelos ombros, olhando para Beatriz com um desprezo que contrastava violentamente com a indiferença de momentos antes.
Beatriz sentiu um riso amargo subir pela garganta. Ela deu as costas e saiu do camarote, mas Henrique não apenas não a seguiu, como gritou para que ela sumisse dali.
Enquanto Beatriz tentava se acalmar na área de fumantes, Soraia apareceu, mancando levemente. Seu rosto não carregava mais a máscara de "amiga sincera", apenas uma maldade pura direcionada à noiva.
— Uma pardalzinha que saiu do lixo e realmente achou que poderia se transformar em fênix? — Soraia sibilou. — Você ainda não sabe por que o Henrique te perseguiu com tanto alarde todos esses anos, não é? Pobre coitada... servindo de escudo sem ter a menor ideia.
Ela deixou a frase no ar, deleitando-se com o olhar perdido de Beatriz. Com um sorriso cruel, ela pressionou o cigarro aceso contra as costas da mão de Beatriz.
— Eu sou o tipo de pessoa que adora roubar o que é dos outros.
Beatriz estremeceu violentamente de dor, o que só fez Soraia rir mais alto.
— Uma inútil como você nunca saberia como agradar o Henrique. Ele... ele tem gostos muito específicos na intimidade.
Dizendo isso, ela abriu o colarinho, revelando cicatrizes de queimadura de cigarro em seu peito.
— Está vendo isso? Foi o Henrique quem fez. Cada marca representa uma vez que estivemos juntos.
Soraia se retirou, deixando Beatriz sozinha com a imagem daquelas cicatrizes gravada em sua mente. Sentindo a visão turvar, ela voltou atordoada para a porta do camarote, onde as vozes de Henrique e seus amigos escapavam por uma fresta.
— Henrique, agora que a Soraia voltou, você ainda vai manter o noivado com a Bia?
Beatriz prendeu a respiração, esperando desesperadamente pela resposta.
— É claro que vou. Vocês sabem muito bem por que eu fiz todo aquele espetáculo para conquistá-la. Na minha posição, todos estão me vigiando, esperando por um ponto fraco. A Soraia perdeu o movimento de uma perna por minha causa no passado.
Ele fez uma pausa, e sua voz soou fria e calculista.
— Somente fazendo todos acreditarem que meu grande amor é a Beatriz é que a Soraia estará realmente segura. Assim, posso continuar amando-a e protegendo-a sob o pretexto de sermos apenas "irmãos". A Bia é uma boa moça... eu sinto muito por ela, por isso vou me casar com ela. Ela será a Sra. Valente e desfrutará da honra do meu nome...
Beatriz não conseguiu ouvir mais nada. Sua pele formigava de humilhação. Seu amor, sua sinceridade, seus três anos... o que significavam? Se tudo foi um plano desde o início, será que até aquele dia em que ele quase morreu para defendê-la também foi encenado?
Lutando contra as lágrimas, ela se afastou com as pernas trêmulas. Pegou o celular e discou para um número que evitava há tempos.
— Cunhada? Finalmente resolveu me ligar? Eu já estava quase perdendo as esperan... — a voz do outro lado começou, mas Beatriz o interrompeu.
— No meu banquete de noivado com o Henrique daqui a um mês... você tem coragem de aparecer e me roubar dele?