O carro entrou no pátio daquela villa familiar. Clarice, sentada no banco do passageiro, observava cada planta e árvore que passava pela janela — tudo estava exatamente como há três anos. Até a cerejeira que ela mesma havia plantado permanecia no mesmo lugar.
Dante estacionou o carro e deu a volta para abrir a porta para ela. — Seu quarto já está pronto — disse ele em tom suave, como se tratasse de um tesouro perdido e recuperado. — Foi decorado seguindo exatamente as suas preferências de antes.
Clarice não disse nada e o seguiu para dentro da casa. Na mesa de centro, havia um conjunto de chá de edição limitada que ela costumava colecionar; até o ângulo de cada peça estava milimetricamente igual ao passado.
— Veja — disse Dante, parando atrás dela com uma ponta de expectativa cautelosa na voz. — Tudo está como antes. Podemos recomeçar e viver bem, como fazíamos. O que acha?
Clarice virou-se para encará-lo. — Dante — a voz dela era calma, tão calma quanto a superfície de um lago congelado. — No momento em que você me chicoteou com sangue de cão preto; no momento em que me deixou queimar sob o sol; no momento em que permitiu que a Beatriz ocupasse meu corpo — naquele momento, eu deixei de te amar.
Ela fez uma pausa e continuou, palavra por palavra: — Mesmo que eu morra, não ficarei com você novamente.
A expressão de ternura no rosto de Dante fragmentou-se aos poucos. Ele silenciou por um longo tempo, e seu olhar tornou-se profundo e sombrio: — Você me odeia por causa da Beatriz, não é?
Clarice soltou uma risada fria: — Você ainda não entendeu nada.
— Eu entendo — Dante subitamente agarrou o pulso dela. — Por isso, vamos puni-la. Vou levar você para ver como ela está agora.
Ele a puxou, indo direto para o porão. Diante da última porta de ferro, Dante digitou a senha. A porta se abriu. Sob a luz fraca, uma figura estava encolhida em um canto. Ao ouvir o som, a pessoa levantou a cabeça lentamente.
Era Beatriz. Mas estava quase irreconhecível. Estava tão magra que perdera as formas; seu rosto estava coberto por cicatrizes novas e antigas, e seus olhos estavam turvos e sem vida. Suas roupas estavam em trapos, e a pele exposta exibia marcas de chicotadas e queimaduras. Ao ver Clarice, aqueles olhos mortos subitamente brilharam com um ódio aterrador.
— É você... — Beatriz lutou para se levantar, com a voz rouca como um fole quebrado. — Sua maldita! É por sua causa que estou assim! Por sua causa, perdi tudo!
Ela tentou avançar, mas as correntes em seus pés a fizeram tropeçar e cair no chão. Dante deu um passo à frente e desferiu um chute violento no ombro dela!
— Cale a boca — ele disse friamente. — Você não é digna de pronunciar o nome dela.
Beatriz tossiu sangue, mas continuou rindo: — Dante... você acha que venceu? Pode prender o corpo dela, mas pode prender o coração dela? Ela te odeia profundamente... um ódio que corrói até os ossos...
Dante, com o rosto lívido, ia atacá-la novamente. — Chega — Clarice interveio subitamente. Ela olhou para Beatriz no chão por um longo tempo e balançou a cabeça devagar: — Não quero mais vê-la.
Dante virou-se para ela, com um brilho de esperança nos olhos: — Então vamos voltar, sim? Vamos para casa.
Clarice não respondeu e saiu do porão.
À noite. A decoração do quarto principal era, de fato, idêntica à de suas lembranças. Até o romance que ela não terminara de ler permanecia aberto na mesma página na cabeceira. Clarice tomou banho e vestiu o pijama preparado — o modelo, o tecido e até a fragrância do incenso eram os que ela costumava usar.
Ela se deitou e apagou as luzes. Alguns minutos depois, a porta se abriu. Dante entrou, deitou-se ao lado dela com naturalidade e estendeu o braço para envolvê-la em um abraço. O corpo de Clarice enrijeceu instantaneamente.
— Me solte — a voz dela cortou a escuridão como uma lâmina fria.
O braço de Dante apertou mais, com o queixo encostado no topo da cabeça dela. Ele inspirou profundamente: — Eu só queria sentir o seu perfume... Por três anos, sonhei com este momento todos os dias.
— Vou dizer mais uma vez: me solte.
Dante não se moveu. Clarice subitamente estendeu a mão e puxou uma faca de frutas debaixo do travesseiro — escondida ali em algum momento anterior. A lâmina brilhou sob a luz do luar. Ela encostou a ponta da faca na própria garganta.
— Se você me tocar mais uma vez — disse ela em voz baixa —, eu me mato na sua frente.
O corpo de Dante congelou. Após um longo silêncio, ele soltou as mãos lentamente e recuou para a beirada da cama. — Tudo bem, eu não toco em você — disse ele com a voz rouca. — Vou apenas dormir aqui, ao seu lado. Pode ser?
Clarice não respondeu. Apenas continuou segurando a faca e deitou-se de costas para ele. Manteve a arma na mão até o amanhecer.
Na manhã seguinte. Dante foi para a cozinha preparar o café da manhã pessoalmente. O ponto dos ovos, a crocância das torradas, a intensidade do café — tudo seguia os padrões que ela gostava no passado. Clarice sentou-se à mesa, mas ao olhar para a comida, sentiu uma náusea súbita.
Ela cobriu a boca e correu para o banheiro. O som dos vômitos persistiu por um bom tempo. Dante a seguiu e deu tapinhas leves em suas costas, com o olhar cheio de preocupação: — O que houve? Está se sentindo mal?
Clarice o afastou e enxaguou a boca com água fria, pálida. — Vou chamar um médico — disse Dante, discando o número sem dar margem para recusas.
Uma hora depois, o médico da família chegou. Após um exame simples, o velho médico ajeitou os óculos e abriu um sorriso. — Parabéns, Sr. Ferraz — disse ele. — A senhora está grávida. Pelo pulso, deve ter pouco mais de um mês.
O silêncio na sala de jantar tornou-se absoluto.