Ao mesmo tempo, em Jiangcheng. Dante estava sentado em seu escritório; o cinzeiro à sua frente já estava transbordando de bitucas de cigarro.
— Ainda sem notícias? — perguntou ele ao celular.
Houve um silêncio de dois segundos do outro lado da linha: — Chefe, verificamos todos os registros de entrada e saída. O Paulo realmente não retornou ao país nos últimos seis meses. Mas há uma empresa em nome dele em Oslo, na Noruega.
— Continue.
— Essa empresa começou a se expandir subitamente há três meses; o volume de negócios triplicou. E... — o subordinado fez uma pausa. — A nova diretora de operações deles é uma mulher de ascendência chinesa chamada Anna Coleman. O histórico dela é muito limpo, mas ela surgiu do nada.
Dante apagou o cigarro que segurava. — E a foto?
— Enviei para o seu e-mail.
Dante ligou o computador. No e-mail, havia apenas uma foto tirada de longe — uma mulher saindo de um prédio de escritórios, usando óculos escuros, o que tornava impossível ver seu rosto com clareza. Ele fixou os olhos na imagem por dez minutos inteiros. Então, pegou o celular.
— Reserve as passagens — ordenou ele. — O voo mais próximo para Oslo.
— Chefe, quer que eu leve mais gente? Afinal, lá é o território do Paulo...
— Não precisa — Dante o interrompeu. — Eu vou sozinho.
Avenida Financeira de Oslo.
Dante estava parado do outro lado da rua, observando o edifício de vinte e sete andares. No topo do prédio, brilhava o logotipo da empresa — com uma linha de letras menores logo abaixo:
Qing’s International
.
Ele pegou o celular: — Arnaldo, me conte sobre a rotina dessa tal de Anna!
A resposta veio rapidamente do outro lado: — Essa Anna Coleman é muito próxima do Paulo. Eles costumam fazer hora extra juntos até tarde da noite e são frequentemente fotografados jantando em restaurantes nos fins de semana.
— Fotos.
— Enviadas.
Dante abriu as imagens. A mulher era loira, estava de perfil e não dava para ver os detalhes do rosto. Mas o arco do seu dedo mindinho levemente levantado ao segurar a xícara de café coincidia perfeitamente com um detalhe em sua memória. Seu coração deu um solavanco violento.
— Continue investigando o passado dela. — Ele desligou o telefone, atravessou a rua e entrou no prédio.
No balcão da recepção, uma jovem norueguesa perguntou com um sorriso: — Pois não, em que posso ajudá-lo?
— Vi que a empresa está contratando especialistas para o departamento de marketing. — Dante entregou um currículo preparado. — Vim para uma entrevista.
A garota olhou para o currículo e depois o avaliou de cima a baixo: — O senhor não tem agendamento...
— Eu posso esperar. — Dante sorriu, um sorriso que suavizava estrategicamente sua aura de autoridade. — Tenho muito interesse na Qing’s International.
Talvez por sua presença ser forte demais, a garota hesitou por alguns segundos antes de discar um ramal interno. Vinte minutos depois, Dante estava sentado na sala de entrevistas do departamento de RH. O entrevistador, um homem de meia-idade, folheava sua trajetória profissional: — Dante... Ferraz? Chinês?
— Sim.
— Seu currículo é impressionante. Trabalhava com comércio em Jiangcheng antes?
— Negócios de família — respondeu Dante em tom calmo. — Quis vir ao Norte da Europa para expandir meus horizontes.
A entrevista correu perfeitamente. A análise de Dante sobre as tendências do mercado era tão precisa que o entrevistador assentia repetidamente. Ao terminar, o homem estendeu a mão: — Bem-vindo à Qing’s. Pode se apresentar na próxima segunda-feira?
— Com certeza.
Segunda-feira.
Quando Clarice entrou na empresa, a recepcionista a cumprimentou: — Bom dia, Diretora Anna.
— Bom dia — Clarice assentiu, dirigindo-se ao elevador.
O departamento de marketing estava realizando o treinamento de integração para os novos funcionários. Ela não pretendia passar por lá, mas ao cruzar o corredor, olhou por hábito através da parede de vidro da sala de reuniões—
E então, seu corpo inteiro paralisou.
Dentro da sala, o homem que estava se apresentando... era o Dante. Ele vestia um terno cinza sob medida, o cabelo estava impecavelmente penteado e ele falava em um inglês fluente sobre seus planos de carreira. A voz, o porte e até o pequeno tique de arquear a sobrancelha ao falar—
Era ele. Sem dúvida alguma.