O carro deixou os subúrbios e entrou na rodovia em direção à cidade. Dante segurava o volante com uma expressão sombria. Ele pegou o celular e discou um número:
— Sou eu.
— Chefe — respondeu a voz do outro lado.
— Encontre uma pessoa — a voz de Dante era gélida. — Mulher, morte natural nas últimas vinte e quatro horas, entre vinte e trinta anos, corpo intacto.
Houve um silêncio de dois segundos do outro lado: — Alguma outra exigência?
Dante interrompeu: — Deve ser alguém que partiu por vontade própria, sem ressentimentos. Assim que encontrar, me avise. Vou te enviar o endereço.
— Entendido.
Ao desligar, Dante fixou os olhos na estrada. No banco do passageiro, Beatriz — ostentando o rosto de Clarice — esboçou um sorriso terno.
— Dante, obrigada. Eu sabia... que você ainda me amava.
Dante permaneceu em silêncio.
— Por mim, você foi capaz de sacrificar até a sua esposa... — Ela estendeu a mão, tocando levemente as costas da mão dele. — Quando o bebê nascer, nós...
— Aquela noite foi um erro — Dante falou subitamente, com a voz plana.
O sorriso de Beatriz congelou.
— Eu te salvei porque você carrega uma criança — Dante olhava fixamente para a frente, com uma calma assustadora. — Afinal, é uma vida. Quanto a você... — Ele finalmente virou o rosto para encará-la. — Assim que o bebê nascer, darei a você uma quantia em dinheiro. O suficiente para você viver no exterior pelo resto da vida.
Os dedos de Beatriz se contraíram.
— Depois disso — ele voltou a olhar para a estrada —, você irá para fora e nunca mais voltará.
Um silêncio mortal dominou o interior do veículo. O rosto de Beatriz empalideceu gradualmente, e as feições de Clarice que ela agora usava se contorceram por um instante.
— O que... o que você disse?
— Eu já falhei com a Clarice uma vez — a voz de Dante transparecia exaustão. — Não posso falhar com ela pela segunda vez.
— Mas agora eu estou no corpo dela! — Beatriz gritou. — Olhe para mim, Dante! Agora eu SOU a Clarice Costa!
— Você não é — Dante pisou no freio, parando o carro diante da mansão. Ele se virou e a encarou nos olhos: — Você nunca será ela.
Beatriz abriu a boca, mas nenhum som saiu. Dante saiu do carro, deu a volta e abriu a porta do passageiro: — Desça. Você precisa descansar.
Beatriz o seguiu roboticamente para dentro da mansão até o terceiro andar. Dante abriu a porta do quarto principal — o aposento que pertencera a Clarice.
— Você ficará aqui. Darei ordens para que os empregados cuidem de você.
Beatriz agarrou o braço dele: — E você?
— Eu vou continuar procurando um corpo para a Clarice. — Ele soltou o braço dela. — Apenas cuide da gravidez, não se envolva em mais nada.
Dito isso, ele se virou e partiu. Beatriz ficou parada no centro do quarto, encarando a porta fechada. Após um longo tempo, ela subitamente começou a rir. Seus ombros tremiam, e lágrimas de escárnio brotaram em seus olhos.
— Dante Ferraz... — ela sussurrou para o quarto vazio. — Se você é cruel comigo, não me culpe por ser impiedosa com você.
Ela foi até a cabeceira, pegou o celular e discou um número.
— Sou eu — disse ela, com a voz carregada de veneno. — Eu quero que a Clarice Costa desapareça para sempre!
O Mestre Santos ouvia as instruções ao telefone, e as rugas em seu rosto se acentuaram. Após desligar, ele permaneceu parado por um longo tempo e, por fim, suspirou. Caminhou até o canto do pátio e pegou a sombrinha preta.
O mestre levou o objeto até o centro do pátio, sob o luar.
— Sinto muito — sussurrou ele para a sombrinha. — Recebi para executar o serviço. Se quer culpar alguém, culpe o seu destino.
Ele colocou a sombrinha no chão, com a face voltada para cima.
— Três dias de exposição solar e a alma se dispersará por conta própria — murmurou o mestre. — Mas a senhorita Bia exigiu que você desaparecesse antes do amanhecer... Terei que usar talismãs para acelerar o processo.
Ele retirou um papel amarelo da manga, mordeu a ponta do dedo e desenhou um selo complexo com sangue. O mestre inclinou-se, preparando-se para colar o talismã na estrutura da sombrinha—
Subitamente, uma mão com articulações bem definidas surgiu do nada e arrancou a sombrinha de suas mãos!
— Quem está aí?! — O mestre recuou bruscamente, assustado.