— Dante... — O corpo abriu a boca, e a voz que saiu foi a de Beatriz. — Eu voltei...
Dante correu até ela e abraçou o "corpo".
— Bia...
A alma de Clarice flutuava no ar, fraca e rarefeita, até se refugiar nas sombras da sombrinha preta. Ela olhou uma última vez para o corpo que lhe pertencera; viu Dante limpando ternamente a sujeira do rosto "dela". Viu "ela" se aninhar no peito dele e, na direção onde Clarice estava, lançar um sorriso de vitória.
Dante, amparando Beatriz — que agora possuía o rosto de Clarice —, caminhou para dentro do pátio do mestre. Beatriz agarrava as lapelas do paletó dele com força.
— Mestre, — Dante dirigiu-se ao ancião sentado no tapete de oração — a alma dela ainda está na sombrinha. Existe alguma forma... de encontrar um novo corpo para ela?
O mestre abriu os olhos. Seu olhar percorreu a "Clarice" nos braços de Dante e depois pousou na sombrinha preta no chão.
— Existe. — O mestre falou lentamente. — Mas três condições precisam ser cumpridas.
— Diga.
— Primeiro: deve ser um corpo feminino. Segundo: o tempo de morte não pode ultrapassar vinte e quatro horas. Terceiro: a falecida deve ter partido por vontade própria; não se pode tomar um corpo à força.
Dante baixou o olhar para a sombrinha: — Vontade própria?
— Arrebatar o corpo de outra pessoa gera uma maldição terrível. — A voz do mestre era calma. — Mas, se a morta não tiver apego e renunciar voluntariamente à carne, a alma pode ser conduzida.
Beatriz puxou levemente a manga de Dante: — Dante... isso é realmente certo? A irmã...
— A Clarice não pode morrer. — Dante a interrompeu, com o olhar obstinado. — Eu já cometi erros demais.
Ele se ajoelhou, colocou a sombrinha cuidadosamente no chão e suavizou a voz:
— Clari, você está me ouvindo?
A estrutura da sombrinha tremeu levemente.
— Eu sei que você me odeia. — Dante passou os dedos pelo cabo do objeto. — Mas a Bia estava grávida, seriam duas vidas perdidas... Eu não podia simplesmente assistir.
— Me dê um pouco de tempo. — Sua voz soou rouca. — Em vinte e quatro horas, eu juro que encontrarei um corpo adequado para você. Eu prometo.
Beatriz também se agachou, tentando tocar o cabo da sombrinha:
— Irmã, obrigada... por me ceder seu corpo. Eu e o bebê seremos eternamente gratos pela sua bondade.
A sombrinha deu um solavanco brusco, escapando das mãos dela.
— Clari... — Dante quis dizer algo mais.
Mas ela não queria mais vê-los.
Dante encarou o objeto por um longo tempo antes de se levantar: — Mestre, vou começar a busca agora mesmo.
— Espere. — O ancião levantou a mão. — Deixe a sombrinha aqui.
Dante franziu a testa: — Por quê?
— Este pátio possui um arranjo de energia mística. — O mestre explicou. — A alma dela está extremamente fragilizada. No mundo exterior, temo que ela não resista por doze horas. Deixando-a comigo, talvez ela suporte por mais alguns dias.
Dante hesitou.
Beatriz enlaçou o braço dele suavemente: — Dante, o mestre tem razão. A irmã está tão fraca que, se algo acontecer lá fora...
Dante olhou para a sombrinha e finalmente assentiu: — Está bem.
Ele se inclinou e tocou o cabo uma última vez: — Clari, espere por mim.
Dito isso, ele abraçou Beatriz pela cintura e se virou para sair. Ao chegar ao portão do pátio, ele olhou para trás. A sombrinha preta jazia silenciosa no chão, sua superfície refletindo um brilho sombrio sob a luz do luar.
Ele desviou o olhar e partiu, sem olhar para trás novamente.