Clarice ergueu-se do chão, com a forma espiritual tão pálida quanto uma fumaça rala. Ela fixou os olhos em Beatriz e caminhou em sua direção, passo a passo.
— O que você disse para o meu irmão? — A voz era de uma calma aterrorizante.
Beatriz tentou se esconder atrás de Dante, mas Clarice a puxou com força, cravando as mãos gélidas em seu pescoço.
— Fale!
— Eu... — Beatriz lutava para respirar, mas ainda sorria. — Eu disse a ele... que se ele pulasse, você não apanharia mais... caso contrário, sua alma seria destruída... Ele não conseguia falar, não conseguia se mexer... mas por você, ele rastejou até lá... Que belo irmão, não é?...
As mãos de Clarice apertaram-se subitamente.
— Solte-a! — Dante avançou.
— Meu irmão morreu — Clarice virou o rosto para ele, com os olhos injetados de sangue.
— Clari, o que aconteceu, aconteceu — disse ele, com a voz grave. — O Bernardo pulou por conta própria, todos viram.
— E então? — Clarice encarava o rosto de Dante com ferocidade. — Então a morte dele não vale nada? Então essa mulher — ela apontou para Beatriz — pode continuar fingindo inocência?
— Chega — Dante a interrompeu. — Clari, este assunto termina aqui. A morte do Bernardo foi uma escolha dele, não tem nada a ver com a Bia.
— Termina aqui? Meus pais morreram, meu irmão morreu e eu me tornei este monstro... e você me diz que termina aqui?
— Ele colheu o que plantou! — Dante agarrou o pulso dela. — Solte-a!
Clarice riu. Um riso lúgubre. Ela arrastou Beatriz pelo pescoço até a janela — a mesma janela de onde seu irmão havia saltado.
— Então que ela morra também.
Ela abriu as mãos. O grito de Beatriz rasgou o céu noturno e silenciou-se abruptamente.
— BIA—!! — Dante correu para a janela.
Lá embaixo, o corpo de Beatriz jazia ao lado do de Bernardo, com os membros retorcidos e o crânio fraturado; o sangue manchava o solo. Estava irreconhecível.
Dante ordenou que amarrassem Clarice. As cordas haviam sido banhadas em sangue de cão preto; a cada movimento dela, sua alma parecia ser marcada por um ferro em brasa. Ele não olhou mais para ela; apenas recolheu o corpo de Beatriz e dirigiu furiosamente para o subúrbio.
No pátio do Mestre Santos: — Você consegue salvá-la? — Dante depositou o corpo no chão, com os olhos vermelhos.
O mestre examinou por um longo tempo e balançou a cabeça: — O corpo físico está destruído demais... mas a alma dela e a do bebê ainda estão aqui.
— O que isso significa?
— Encontre um receptáculo íntegro. Deixe que as almas dela e da criança entrem nele, e ambos poderão viver.
Dante ficou em silêncio. Então, ele se virou para a Clarice amarrada.
— Use o dela.
Clarice levantou a cabeça bruscamente, sem acreditar no que ouvia. O mestre franziu a testa: — Este corpo já abriga uma alma há muitos anos, as essências se fundiram... É necessário torturar a carne primeiro para dispersar os vestígios da dona original. Só então a nova alma poderá habitar.
— Como deve ser essa tortura?
— Exposição solar, corrosão por venenos, açoites com talismãs... Até que a alma esteja à beira do colapso e a marca original enfraqueça. Só então faremos a extração forçada. — O mestre fez uma pausa. — E após a extração, se a alma original não encontrar um novo receptáculo em quarenta e oito horas, ela se dissipará para sempre.
Dante não hesitou. — Faça.
Clarice foi amarrada no pátio. O sol do meio-dia incidia diretamente sobre ela. Sua pele começou a borbulhar e ulcerar; sua alma parecia ser frita em óleo fervente. Ela mordeu os lábios até sangrar, mas não emitiu um único som.
Dante ordenou que a fizessem beber um suco de ervas venenosas misturado com cinzas de talismã. Suas entranhas pareciam ser cortadas por facas; ela se encolheu no chão vomitando sangue negro. Em seguida, vieram os açoites. O chicote, banhado em cinábrio e sangue de galo, atingia sua pele já ferida. A cada golpe, ela sentia um pedaço de seu espírito ser arrancado.
Dante observava tudo ao lado. Do início ao fim, não disse uma palavra.
Quando tudo terminou, o mestre disse: — Está pronto.
Clarice foi levada ao altar. O mestre acendeu as velas de incenso e começou a entoar os mantras. Dante estava parado ao lado, segurando um pequeno pote de cerâmica — onde estavam as almas de Beatriz e do bebê.
— Clari — ele finalmente falou, com a voz rouca. — Entregue o corpo para ela.
Clarice olhou para ele e, de repente, sorriu.
— Dante Ferraz — a voz dela era leve como um suspiro —, a coisa de que mais me arrependo nesta vida foi ter conhecido você.
O encantamento ressoou. Uma dor excruciante explodiu do fundo de sua alma, como se uma mão entrasse nela e arrancasse seu espírito à força. Ela viu sua forma etérea sendo extraída lentamente de seu corpo. Viu o mestre abrir o pote e uma fumaça azul emergir, infiltrando-se em sua carne.
Viu os dedos daquele corpo se moverem e, então, os olhos se abriram.