Clarice olhou para o irmão. Bernardo levantou a cabeça lentamente, encarando a irmã. Seus lábios se moveram, emitindo algumas sílabas fragmentadas:
— Não... foi...
Mas ninguém conseguiu ouvir com clareza. O olhar de Dante já estava gélido como o gelo. Ele fixou os olhos em Bernardo e depois voltou-se para Clarice:
— Então é essa a primeira coisa que seu irmão faz ao acordar?
Clarice colocou-se à frente da cadeira de rodas, protegendo-o: — Meu irmão jamais faria algo assim!
Beatriz começou a chorar ainda mais alto: — Por acaso eu rasgaria minhas próprias roupas? Irmã, eu sei que você quer proteger o seu irmão, mas não pode me caluniar desse jeito...
Os convidados se amontoavam à porta, trocando sussurros maldosos.
— Meu irmão mal consegue parar em pé, como ele poderia agredi-la?! — questionou Clarice.
O olhar de Dante vacilou por um instante. Ele olhou para o corpo esquelético de Bernardo caído no chão; ele parecia, de fato, tão fraco que até levantar a mão exigia um esforço monumental. Percebendo a hesitação dele, Beatriz intensificou o pranto:
— Dante... você acha que estou mentindo? Por que eu inventaria algo assim para acusá-lo? Eu só tive a boa intenção de vir vê-lo... — Ela baixou o tecido do ombro, revelando um hematoma chocante. — Por acaso fui eu quem me machuquei assim sozinha?
— Além disso — Beatriz acrescentou entre soluços —, quando o Bernardo me agarrou agora há pouco, ele tinha uma força terrível... Talvez ele esteja fingindo? Talvez tenha acordado há muito tempo e estivesse apenas se fingindo de inválido...
— Você está mentindo! — Clarice rebateu severamente.
Beatriz encolheu-se nos braços de Dante: — Irmã, eu sei que você o protege, mas os fatos estão diante de nossos olhos...
— Não... foi...
Bernardo falou subitamente. Ele levantou a cabeça, movendo os olhos com dificuldade, até fixá-los em Beatriz. Aquele olhar era como uma lâmina banhada em veneno, fazendo Beatriz recuar instintivamente.
— Aci... dente... — Cada palavra de Bernardo parecia arrancada de sua garganta. — A... assassina... é... ela.
Bernardo não desviava o olhar de Beatriz por um segundo sequer. — Seu... ombro direito... cicatriz... eu... que fiz...
Beatriz cobriu o ombro direito instantaneamente. No local do acidente, três anos atrás, o homem que ela atropelara e arremessara longe havia, de fato, agarrado seu ombro com força antes de perder a consciência. As unhas cravaram-se na carne, deixando uma cicatriz permanente.
O salão de festas mergulhou em um silêncio mortal. Clarice olhou bruscamente para Beatriz: — Foi você quem causou o acidente?!
— Cale a boca! — Beatriz gritou de repente, sua fragilidade sendo substituída por uma expressão sinistra. — Seu louco! Tentou me estuprar e agora quer me caluniar!
Mas a reação dela foi rápida demais, intensa demais — uma intensidade anormal. A expressão de Dante tornou-se extremamente sombria. Ele olhou para Bernardo, depois para Beatriz e, finalmente, para Clarice.
— Clari, a polícia tem um relatório completo sobre o acidente de anos atrás. Foi uma fatalidade.
— Não foi uma fatalidade! — A alma de Clarice parecia prestes a entrar em combustão. — Meu irmão não mentiria! Beatriz, mostre-me o seu ombro direito!
Beatriz encolheu-se no peito de Dante, tremendo de tanto chorar: — Dante... esses irmãos se uniram para me humilhar... O Bernardo me atacou, e agora a Clarice inventa essa mentira para me difamar... O que eu fiz de errado?...
Dante olhou para Beatriz e depois para Bernardo. Seu olhar era complexo. Mas, por fim, ele desviou o rosto.
— O que eu mais odeio na vida são homens que abusam de mulheres. — Sua voz era fria como aço. Ele levantou a mão. — Tragam-me o chicote.
Dois capangas se aproximaram. Logo, trouxeram um chicote de couro de boi embebido em água.
— Dante Ferraz, você não se atreveria! — Clarice atirou-se sobre o corpo do irmão. — Ele acabou de acordar! Isso vai matá-lo!
— Saia da frente — disse Dante, sem expressão.
— Não saio! — gritou Clarice. — Se quer bater em alguém, bata em mim!
— O chicote comum não funcionará com a irmã no estado em que ela está — disse Beatriz suavemente, com um brilho cruel nos olhos. — Ouvi dizer que chicotes banhados em sangue de cão preto e talismãs são os mais eficazes contra almas...
Dante permaneceu em silêncio por alguns segundos. — Preparem.
Em pouco tempo, trouxeram uma tigela de sangue de cão preto fétido e um talismã amarelo com encantamentos. O chicote foi mergulhado no sangue, e as cinzas do talismã queimado foram misturadas.
Clarice foi imobilizada no chão. Quando o primeiro golpe caiu, ela ouviu o som de sua alma se rasgando. Não era uma dor física — era a dor excruciante de ter o espírito dilacerado vivo. Os encantamentos no chicote eram como agulhas incandescentes perfurando sua forma etérea.
— Aahhh—!!
Ela não conseguiu conter o grito de agonia. Segundo golpe. Terceiro golpe. A cada chicotada, sua alma tornava-se mais pálida. Ela sentia que estava se dissipando, como um monte de areia sendo levado pela maré.
Dante observava tudo ao lado. Seus punhos estavam cerrados, os nós dos dedos brancos, mas ele não ordenou que parassem.
— Dante... — Clarice levantou a cabeça em meio à dor insuportável, com a visão já turva. — Você realmente... quer me matar...
Os lábios de Dante tremeram. Nesse exato momento—
Beatriz caminhou silenciosamente até a cadeira de rodas, inclinou-se e sussurrou algo no ouvido de Bernardo. A voz era tão baixa que apenas ele pôde ouvir. Os olhos de Bernardo, antes sem vida, arregalaram-se de repente. Ele encarou Beatriz, e seu corpo começou a tremer violentamente. Então, usando toda a força que lhe restava, ele rolou da cadeira de rodas.
— Bê?! — Clarice tentou correr até ele, mas foi contida pelo chicote.
Bernardo, como um peixe agonizante, rastejou com dificuldade até a janela. Com as mãos apoiadas no parapeito, ele forçou o corpo para cima. Ele virou o rosto e lançou um último olhar para Clarice. Naquele olhar havia de tudo: culpa, saudade, determinação e... libertação.
— Clari... — ele moveu os lábios, sem som. — Vi... va...
Então, ele usou o resto de suas forças e jogou-se pela janela.
— NÃO—!!!
O grito de Clarice e o som surdo do corpo atingindo o solo ecoaram simultaneamente. O tempo pareceu parar.