Quando Clarice acordou novamente, já estava em um ambiente interno. As cortinas estavam fechadas e a iluminação era fraca. Dante estava sentado à beira da cama, segurando sua mão:
— Clari, me desculpe... Eu esqueci que era dia, não deveria ter deixado você lá fora. — O tom de voz era terno, mas a frase seguinte mudou de tom. — Mas você não deveria ter empurrado a Bia. Ela está grávida; e se algo acontecesse? Felizmente, o bebê está bem... Desta vez eu te perdoo, mas não faça isso de novo.
Clarice recolheu a mão, encarando-o. Perdoar? Ela tinha sido queimada pelo sol ao ponto de quase ter sua alma dissipada, ele a trancou do lado de fora e agora dizia que a "perdoava"? Seu peito estava sufocado, mas ela não tinha forças sequer para discutir.
Nesse momento, o celular de Dante tocou. Ele atendeu e sua expressão mudou drasticamente: — O quê?! É sério?!
Ao desligar, ele abraçou Clarice com força: — Clari! Seu irmão acordou! Acabaram de ligar do hospital!
No quarto do hospital, Clarice viu seu irmão sentado na cama. Bernardo estava magro demais, com o olhar vago, mas no instante em que a viu, seus lábios se moveram: — Ir... irmã...
A voz era rouca, como engrenagens enferrujadas. Clarice correu para abraçá-lo, e as lágrimas finalmente caíram: — Bê... você finalmente acordou...
O médico explicou ao lado: — Após três anos em coma, as funções cerebrais ainda não se recuperaram totalmente. A fala e os movimentos precisarão de reabilitação.
Dante estava parado à porta, olhando o tempo todo para o celular. — Se tiver compromissos, vá resolver — disse Clarice sem olhar para trás. — Eu cuido do meu irmão.
Dante hesitou por um momento: — Tudo bem. Venho te buscar à noite.
Ele partiu. No quarto, restaram apenas os dois irmãos. A mão de Bernardo levantou-se lentamente e acariciou a cabeça de Clarice; um movimento rígido, porém doce. — Não... chore — disse ele.
À noite, Dante cumpriu a promessa e veio buscá-la. Ele trouxe uma notícia: — A Bia soube que seu irmão acordou e organizou um banquete de boas-vindas. Amanhã à noite, no Hotel River View.
Clarice franziu a testa: — Meu irmão acabou de acordar, não pode ser submetido a agitações.
— É a boa intenção dela. — A voz de Dante esfriou. — Não se esqueça de quem manda na organização agora. — Ele a encarou. — Vocês precisam ir.
Clarice cerrou os punhos.
A festa era grandiosa. Todas as figuras importantes de Jiangcheng estavam lá, erguendo taças para brindar ao "renascimento do jovem mestre Costa". Clarice empurrava a cadeira de rodas de Bernardo, lidando com os cumprimentos falsos. Bernardo mantinha a cabeça baixa, o corpo tremendo levemente.
— Bê, está cansado? — Clarice agachou-se para perguntar. — Vou te levar para a sala de descanso.
Bernardo assentiu lentamente. Ela o levou para a suíte ao lado do salão de festas e o cobriu com uma manta: — Durma um pouco. Eu volto assim que terminar aqui.
Bernardo olhou para ela, os lábios se moveram, mas nenhum som saiu. A porta se fechou suavemente.
De volta ao salão, Clarice forçou-se a continuar socializando. Beatriz, usando um vestido luxuoso, circulava de braço dado com Dante, agindo como se fosse a verdadeira dona da casa.
— Irmã — ela se aproximou com uma taça. — Como está o meu cunhado? Por que ele não sai para aproveitar a festa?
— Ele precisa descansar — respondeu Clarice, friamente.
Beatriz sorriu e não disse mais nada. Meia hora depois—
— Aahhh—!!!
Um grito agudo veio da direção da sala de descanso! Dante empalideceu e correu para lá. O coração de Clarice disparou e ela o seguiu. Ao abrir a porta, a cena era aterradora.
Beatriz estava encolhida em um canto, com as roupas em desalinho — o vestido tinha um rasgo lateral —, o cabelo bagunçado e o rosto banhado em lágrimas. E Bernardo...
Ele estava sentado na cadeira de rodas, segurando um pedaço de tecido rasgado, com os olhos vazios.
— Dante! — Beatriz atirou-se nos braços de Dante, soluçando de medo. — Eu... eu só queria ver se ele precisava de ajuda, mas ele... ele me agarrou, tentou abusar de mim...