Nos dias seguintes, Clarice trancou-se em seu quarto. As cortinas estavam hermeticamente fechadas; mesmo quando alguém trazia comida à porta, ela não respondia. Sua alma e seu corpo estavam se dissipando lentamente, mas, comparada a isso, a sensação de ter o coração morto era muito mais fria.
Na manhã do quarto dia, o celular sobre o criado-mudo vibrou subitamente. A tela acendeu, exibindo uma nova mensagem:
"Clari, encontrei os relógios de bolso dos seus pais em um leilão. O par que se perdeu no acidente de três anos atrás. Deixei-os na penteadeira do meu quarto, é um presente para você. Me desculpe pelo que aconteceu ontem, espero que possa me perdoar. — Dante"
Clarice encarou a tela por um longo tempo. Pertences de seus pais...
Ela afastou o cobertor e desceu da cama descalça. Cambaleou e precisou segurar na coluna da cama para se manter de pé. Cada parte de seu corpo doía — não era uma dor aguda, mas uma fraqueza e uma dor latente que penetravam até a medula, como uma máquina enferrujada sendo forçada a funcionar. Sustentando seu corpo debilitado, ela abriu a porta do quarto.
A mansão estava silenciosa. Ela caminhou em direção ao quarto de Dante, no segundo andar. Ao abrir a porta, porém, deparou-se com Beatriz sentada diante da penteadeira.
— A irmã chegou? — Beatriz virou-se, com um sorriso inocente. — Procurando algo?
Clarice a ignorou e foi direto para a mesa. Estava vazia.
— É isto que você quer? — A voz de Beatriz veio de trás dela.
Clarice virou-se. Beatriz segurava uma caixa de madeira. Ao abri-la, revelou a pulseira de jade da mãe de Clarice e o relógio de bolso de seu pai. Clarice estendeu a mão para pegá-los, mas Beatriz recolheu o braço abruptamente.
— Você quer, não é? — Beatriz caminhou até a janela. — O Dante realmente se importa com você. Deve ter dado um trabalho enorme encontrar objetos tão antigos.
— Devolva-me — a voz de Clarice tremia.
— Se for capaz, venha buscar. — Com um movimento brusco, Beatriz escancarou as cortinas.
A luz ofuscante do sol inundou o quarto instantaneamente!
— Ahhh—! — Clarice soltou um grito agudo, cobrindo o rosto instintivamente.
A pele exposta ao sol começou a arder imediatamente. Ela recuou cambaleante, derrubou a cadeira da penteadeira e caiu no chão. Beatriz a olhava de cima, com um sorriso de satisfação:
— Ai, meu Deus, me desculpe! Esqueci que a irmã não pode ver a luz.
Beatriz girou o pulso e— A pulseira e o relógio foram arremessados pela janela!
— Não—!!
Clarice lançou-se em direção à janela e, sem tempo para pensar, saltou do segundo andar! Seu corpo atingiu o gramado com força; ela sentiu como se seus ossos tivessem se estilhaçado. Ignorando a dor, rastejou em direção às relíquias. A pulseira de jade estava partida em vários pedaços. O vidro do relógio de bolso estava quebrado, e os ponteiros haviam parado para sempre naquele momento de três anos atrás.
Clarice estendeu as mãos trêmulas para recolher os fragmentos. O sol incidia diretamente sobre ela. Sua pele começou a esquentar e sua alma parecia estar sendo assada no fogo. Abraçando os destroços, ela lutou para rastejar de volta para dentro de casa.
Nesse exato momento— — Aahhh!!
Um grito veio de cima. Beatriz caiu da janela do segundo andar, atingindo o chão com um estrondo ao lado dela! No segundo seguinte, Dante apareceu rugindo, correndo de dentro da casa.
Mas seus olhos viam apenas Beatriz caída. Ele nem sequer olhou para Clarice, que estava encolhida no chão, com o corpo soltando fumaça.
— Bia! — Ele a tomou nos braços.
Beatriz, pálida, agarrou a gola da camisa dele com os olhos cheios de lágrimas: — Dante... eu só queria entregar as lembranças para a irmã, mas ela... ela me empurrou... — Ela apontou para Clarice. — Irmã, por que você fez isso?
Clarice abriu a boca, mas as palavras não saíam. O sol estava forte demais; ela sentia que estava derretendo. Dante olhou para ela, e seu olhar passou do choque para a fúria.
— Clari — a voz dele era fria. — Você odeia tanto assim? Ao ponto de querer matá-la?
— Não... eu... — Clarice conseguiu expelir apenas algumas palavras com dificuldade.
— Por acaso ela teria pulado sozinha?! — Dante rugiu.
Ele soltou Beatriz por um momento, caminhou até Clarice e levantou o pé— Chutando-a violentamente no ombro!
Clarice rolou por alguns metros; os fragmentos do relógio cravaram-se em sua palma. Dante pegou Beatriz nos braços novamente e virou-se para entrar na casa. Ao chegar à porta, ele parou, tirou um talismã amarelo e o colou no batente.
— Fique aí fora — disse ele, com a voz gélida. — Pense no que você fez.
A porta se fechou. O talismã brilhava sob a luz do sol — com aquele selo ali, ela não conseguiria entrar.
O sol do meio-dia tornava-se cada vez mais impiedoso. A pele de Clarice começou a soltar uma fumaça branca, como papel sendo queimado. Cada centímetro de seu corpo ardia. Ela olhou para a garagem — havia uma pequena faixa de sombra ali.
Rasteje.
Ela disse a si mesma.
Com as palmas das mãos esfolando-se no chão áspero, arrastando o corpo coberto de queimaduras, ela se moveu centímetro por centímetro. O sol atingia suas costas, e o cheiro de carne queimada começou a subir.
Dez metros. Cinco metros. Três metros...
Sua visão começou a embaçar e o mundo tornou-se um borrão vermelho. Finalmente, a ponta de seus dedos tocou a sombra projetada pela garagem. Usando suas últimas forças, ela rolou para dentro da escuridão.
Então, perdeu completamente os sentidos.