Antes de partir, Luna sussurrou rapidamente para Aurora: — Aurora, diga à mamãe que não é culpa dela. Peça para ela não se culpar... diga que foi a madrinha quem pediu para você falar.
Dito isso, Luna seguiu apressadamente o rastro de Bernardo. Ele caminhava sem rumo; Luna olhou para o céu carregado e percebeu que a chuva estava prestes a cair. Ela não parava de falar ao ouvido dele:
— Bernardo, seu carro está para aquele lado. Dirija para casa. — Já passou, não vamos mais carregar esse rancor, está bem? — Bernardo, agora você nem me escuta mais...
Até que um trovão ecoou no horizonte, explodindo como um aviso. Bernardo pareceu voltar a si, mas não buscou o carro; em vez disso, pegou um táxi para casa. No meio do caminho, a chuva desabou em um temporal.
Como o motorista não podia entrar no condomínio, Bernardo desceu na portaria. As gotas pesadas golpeavam seu corpo, mas ele parecia não sentir nada. Passo a passo, como um morto-vivo, ele caminhou até em casa.
Sem sequer trocar de roupa, ele se deitou na cama, ensopado, virando o rosto para encarar a foto de Luna. Desde que o perfume dela desaparecera das roupas, aquela imagem se tornara seu único consolo. Ele acariciou o rosto de Luna na foto e murmurou com a voz rouca:
— Luna, teria sido melhor se eu tivesse morrido de verdade há sete anos. Se fosse assim, será que eu, você e o vovô já estaríamos reunidos agora?
Luna o observava e sentia como se seu próprio coração estivesse se estilhaçando; ela não tinha palavras. Ele enterrou o rosto no ombro da imagem dela e abafou o som da voz:
— Eu não estou aguentando mais... o que eu faço, Luna? Por favor, me salva...
As lágrimas escorreram pelo canto de seus olhos, molhando a fotografia. Luna olhava para os ombros dele, que agora tremiam; ela quase esquecera quão firmes e seguros eram aqueles mesmos ombros quando ele a carregava nas costas anos atrás. Agora, ele parecia tão frágil, como se tivesse se transformado em uma folha de papel em branco, prestes a rasgar.
Luna deitou-se ao lado dele, velando seu sono com profunda tristeza. Bernardo mergulhou em um sono muito longo. Fantasmas não dormem, mas, observando-o, Luna acabou caindo em um estado de dormência sem perceber.
— Luna?
Ela ouviu alguém chamá-la. Ao se virar, viu Bernardo parado atrás dela, olhando-a com os olhos vermelhos. Em um transe, ela sorriu e caminhou em sua direção; Bernardo a envolveu em seus braços no mesmo instante.
Ele a encarou fixamente, sem acreditar: — É você mesma? Desta vez... não é um sonho?
Luna sabia perfeitamente que estavam no sonho dele, mas mentiu suavemente: — Sou eu, Bernardo. Eu não quero mais ver você sofrendo tanto.
Uma alegria avassaladora tomou conta de Bernardo. Ele a apertou com tanta força como se quisesse fundir a alma dela à dele. Quase em um súplica, ele disse:
— Luna, me leva com você, por favor.
Luna, sem voz por um momento, sussurrou: — Eu queria tanto que você vivesse bem...
Os olhos de Bernardo estavam injetados de sangue: — Como eu posso viver bem sem você? Você ainda está brava comigo? Brava porque eu te esqueci... Luna, aquele não era eu. O homem que ficou com outra pessoa não era eu, não era eu...
Ele desabou, abraçando-a com força, tentando desesperadamente provar sua lealdade e seu amor. As lágrimas de Luna escorreram; ela o abraçou de volta, afagando suas costas.
— Eu sei. Eu não te culpo.
Bernardo sibilou: — Luna, me odeie, me castigue... mas me leve com você.
Luna queria dizer para ele seguir em frente, ou para esquecê-la. Mas, vendo-o naquele estado de agonia, as palavras entalaram em sua garganta e não saíram. Por fim, ela só conseguiu dizer:
— Bernardo, eu estive ao seu lado o tempo todo. Eu nunca te deixei...
No instante em que as palavras foram ditas, seu corpo começou a se tornar transparente nos braços dele, como se tivesse rompido um tabu proibido.
— Luna?!
No segundo seguinte, Luna foi ejetada do sonho. Na cama, Bernardo abriu os olhos abruptamente. Ele se sentou, encarando a foto de Luna ao seu lado. Para o silêncio da noite, ele perguntou em um sussurro:
— Luna... era você?