Luna observava o rosto pálido e o olhar sombrio de Bernardo, sentindo um aperto estranho no peito. No passado, ela ansiara desesperadamente por este dia. Mas, neste exato momento, Luna só conseguia pensar em Bianca.
Seria melhor que, mesmo sabendo quem ele era, ele não recuperasse as memórias. Pelo menos... ele teria falhado com Luna, mas ainda poderia continuar amando Bianca plenamente.
— Sr. Fontes, por favor, volte! Ainda não divulgamos a notícia do falecimento da Srta. Luna para não afetar as ações do Grupo Fontes — disse o assistente. — Mas se ninguém voltar para assumir o comando, temo que a empresa se desintegre!
Bernardo estava com o corpo rígido, o rosto gélido como uma estátua de gelo. Foi então que o celular em seu bolso vibrou. Ele pegou o aparelho com as mãos trêmulas e viu o nome de Bianca Lins.
Suas mãos tremiam tanto que ele tentou apertar o botão de atender várias vezes, mas a sensação de asfixia em seu peito o impedia. Por fim, a ligação caiu automaticamente, e ele sentiu um alívio inexplicável. Aquela foi a primeira vez que ele não atendeu Bianca de imediato.
Luna, presenciando a cena, não pôde deixar de se preocupar com Bianca, sozinha no hotel. Sob a pressão dos questionamentos do assistente, Bernardo finalmente conseguiu falar com a voz rouca:
— ... Me dê mais dois dias.
Ele deixou um contato, saindo do prédio do Grupo Fontes como se estivesse fugindo de um pesadelo. Mesmo após ganhar a rua, seu peito ainda subia e descia em arfadas violentas.
Luna sabia o que ele estava sentindo: ele estava pensando em como contar tudo a Bianca. Se ele revelasse o que descobriu no Brasil, ela inevitavelmente saberia que ele fora marido de Luna Simões... O que passaria pela cabeça de uma jovem tão ingênua e bondosa? Ela aceitaria que o homem que ama com todo o coração já amou outra pessoa com a mesma intensidade?
Quando Bernardo retornou ao hotel, já havia reorganizado suas emoções. Ao entrar, Bianca correu para ele com a voz embargada:
— Eu achei que você não me queria mais...
Bernardo paralisou por um instante e logo a envolveu em um abraço apertado: — Como você pode pensar isso?
Bianca, com os olhos vermelhos, continuou: — Achei que tivesse encontrado sua família e partido com eles... Você nunca deixou de atender uma ligação minha!
Bernardo enxugou as lágrimas dela e explicou: — O celular estava no silencioso, eu não ouvi. Me perdoe.
Bianca fungou e perguntou de repente: — E se um dia você encontrar sua família de verdade... você vai me deixar?
Bernardo silenciou por dois segundos antes de responder: — Aquilo... afinal, é passado, Bianca. Onde quer que você vá, eu estarei lá.
Luna, parada junto à porta, sentiu-se como se estivesse assistindo ao romance de estranhos. Talvez porque a dinâmica entre ela e Bernardo era muito diferente da dele com Bianca. Luna, tendo perdido os pais cedo, era sensível e tendia a pensar demais. O Bernardo do passado era frio com os outros, mas extremamente gentil e detalhista com ela. Porém, ele também tinha temperamento forte; o relacionamento deles não fora um mar de rosas. Eles discutiam, Luna o chamava de teimoso e ele a repreendia quando ela errava. Na maior parte do tempo, eles se sustentavam na base da compreensão mútua.
Já Bianca era diferente. Talvez por ter vindo de um berço de ouro, ela tinha uma personalidade solar e pura, capaz de abraçar Bernardo com uma tolerância imensa. E Bernardo, em troca, oferecia a ela a proteção e o carinho silencioso de um cavaleiro. Nessa relação, parecia que Bernardo a mimava, mas, na realidade, era Bianca quem mais se doava para acolher o seu amado.
...
Luna subitamente compreendeu: o Bernardo do passado e este homem diante dela eram, no fim das contas, duas pessoas distintas. Além da aparência e do nome, não havia quase nada em comum.
O Bernardo de Luna Simões estava, de fato, morto.
Ao perceber isso, o peso esmagador que comprimia a alma de Luna desapareceu subitamente. Ela sentiu uma súbita e profunda sensação de paz e desapego.